Nora foi visitar a sogra no trabalho e pediu dinheiro para conseguir viver

Eulália era uma mulher bem moderna, ou pelo menos gostava de pensar que sim. Estava sempre impecável, graças ao emprego que tinha em Lisboa, e era bastante valorizada pelos chefes, talvez por saber escolher os palavrões certos nos momentos apropriados. Tinha dois filhos já crescidos: o mais velho com trinta e oito anos, o mais novo fazia trinta naquela semana, com direito a jantar de bacalhau à brás. Eulália também tinha duas noras que, para não variar, podiam ser protagonistas de telenovela portuguesa.

Ela gostava de dizer, sempre com um sorriso maroto, que as duas noras eram o exemplo perfeito do ditado cada cabeça, sua sentença, tal e qual os filhos. A mais velha, Filomena, era rapariga da Serra da Estrela, terra de queijo bom e ideias ainda melhores (ou nem por isso). Eulália nunca foi pessoa de acreditar nessas conversas de aldeia versus cidade, mas com a Filomena não era só preconceito era quase o estereótipo em carne e osso.

Nestes assuntos do lar, Eulália mantinha o recato tradicional lusitano e não se metia na vida dos filhos. Tudo o que sabia sobre o casamento do primogénito era que Filomena tinha casado com ele porque pronto, aconteceu, e o primeiro filho dos dois nasceu cinco meses depois da boda. Filomena tratava o marido com a mesma ternura que se reserva ao eletricista: útil, essencial, mas longe de ser motivo para romance.

Para além disso, a nora era complicada de se lidar conversa com ela era mais difícil do que pedir ao senhor da mercearia para passar fiado. Filomena só telefonava quando o céu lhe caía em cima, e reclamava tanto que as queixas deviam vir já com IVA incluído. Nunca conseguiram descobrir uma amiga para lhe apresentar, pois ninguém aguentava mais do que dez minutos de conversa.

A mais nova, Carminho, era de outra massa. Depois do casamento, fez questão de se aproximar da sogra até ajudava a fazer arroz doce em família. Eulália acabou por arranjar-lhe trabalho no mesmo escritório em Lisboa. Os colegas não se cansavam de elogiar a Carminho, dizendo que era diligente e simpática como quem mistura vinho verde com água só para agradar a todos. Carminho tinha meia dúzia de amigas do peito, encontrava-se com elas no café de baixo, entre pastéis de nata e duas risadas.

Numa manhã tipicamente cinzenta portuguesa, Filomena aparece no escritório da sogra de rompante, mais dramática que novela da TVI. Eulália logo percebeu que havia tempestade à vista, mas manteve-se na sua, pois sabia que nestas marés familiares é melhor não meter o barco à vela. Filomena trouxe contigo a irmã, que parecia ser o eco das lamentações dela:

Olhe, mãe, já não aguento mais! Estou farta! Decidi: deixo o seu filho, vou alugar um apartamento e quero que ele viva sozinho, aquele javali.
Bom dia, Filomena respondeu Eulália, soltando um suspiro. Já sabes que não gosto de meter colherada na vossa sopa. Diz-me lá: onde vais arranjar apartamento e como pensas que os miúdos vão à escola?

Vou alugar no centro de Lisboa!
Filomena, achas que consegues pagar a renda? Aquilo custa mais que uma viagem de ida e volta ao Algarve em época alta!

É exatamente disso que quero falar consigo! Enquanto avó, tem a obrigação de me ajudar. Deve-me esse apoio!
Filomena, dinheiro não tenho assim tanto. Se precisares mesmo, espera até ao final do dia. Levanto do banco e dou-te o que puder. Nunca pensei que fosses precisar de tanto.

Filomena, anda lá chamou a irmã, puxando-a pelo braço , sabes bem que a mãe está sempre ao lado dos filhos.

Já estavam para sair, quando viram Carminho a espreitar, branca que nem leite-creme. Que é que estás a olhar, Carminho? Vais ver, contigo vai ser igual! Não contes com ajuda da sogra, ela não mexe um dedo.

Carminho quase caiu das pernas ao ver as duas a bufarem. Olhou para Eulália, buscando alguma compaixão, mas Eulália só encolheu os ombros com aquele humor de quem já viu muito: Ora, não te preocupes. Vou-lhe transferir o dinheiro ao final do dia, já que faz tanta questão. Os miúdos não podem ir para um lar, são só euros e há-de se resolver. Não acreditem em tudo o que ouvem, minha queridaNaquela tarde, enquanto olhava a janela do escritório, Eulália perguntou-se, pela primeira vez em anos, como é que fora parar ali no papel de mediadora, de banco, de confidente, de rochedo numa família onde cada um era pedra solta. Sorriu, quase divertida. Lembrava-se bem do rebuliço que era a infância dos filhos, das correrias pelo quintal atrás de uma bola de trapos, do cheiro de sopa na cozinha, dos risos envergonhados de Carminho ao aprender receitas.

Ao final do dia, com a promessa da transferência feita, Eulália sentou-se à mesa sozinha, batendo com o garfo no prato, perdida em pensamentos. Carminho enviou-lhe uma mensagem: Obrigada por tudo, sogra. Se precisar de ajuda com aquele bacalhau à brás do jantar, conte comigo. Eulália sorriu, agradecida pelo gesto simples. Não era dinheiro nem conselhos que resolviam os dramas de família, era essa vontade de estar presente, de aparecer sem pedir nada, só para garantir que ninguém jantava sozinho.

Quando os filhos chegaram, cada um ao seu tempo, Eulália serviu bacalhau à brás, escutou as conversas cruzadas, as gargalhadas e os desabafos, e percebeu que, por entre noras de novela e filhos de coração apertado, ali, na sua casa, cada cabeça podia até ter a sua sentença, mas era ela que, sorrateiramente, unia todos à mesa. E foi com esse pensamento que levantou o copo e, pela primeira vez, brindou à família: imperfeita, ruidosa e maravilhosa.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Nora foi visitar a sogra no trabalho e pediu dinheiro para conseguir viver