Nora deitou fora as minhas velharias enquanto eu estava na casa de campo – a minha resposta não tard…

Ora vejam, agora sim respira-se aqui, parecia um jazigo antes, juro, ouviu-se da cozinha aquela voz estridente e cheia de orgulho, uma voz que Deolinda Alves reconheceria em qualquer lado.

Ficou parada no hall de entrada, os braços dormentes com o peso dos sacos carregados de tachadas do quintal: maçãs Bravo de Esmolfe, salsa e coentros frescos. O cheiro das frutas misturou-se imediatamente com um aroma artificial de spray de limpeza moderno e um perfume estranho, forte e doce, de alguém alheio à casa. Deolinda pousou as sacolas devagar, sentindo um arrepio gelado nas costas. A chave, quando girou na fechadura, não relutou neles como sempre, como se tivesse sido bem oleada e o rangido habitual do soalho à entrada tinha desaparecido.

Avançou timidamente e ficou a olhar em volta. O hall estava diferente. Sumira-se o velho mas sólido bengaleiro escuro que o marido, o saudoso Manuel, fizera com as próprias mãos. No seu lugar, estavam agora pendurados uns ganchos metálicos, frios e impessoais, iguais aos que se vê nos hospitais. E o espelho, de moldura trabalhada, onde ela se arranjava antes de sair, fora trocado por um rectângulo simples, sem graça.

O coração bateu forte. Deolinda entrou na sala e levou a mão à boca num gesto de espanto.

O espaço estava vazio. Não completamente, é certo, mas tudo o que dava alma e calor àquele lar sumira. O pesado aparador de carvalho, onde guardava o cristal da Marinha Grande e a baixela do Natal, desaparecera. As estantes atulhadas de livros de toda a vida dos clássicos àqueles da colecção do Círculo de Leitores já lá não estavam. Até a clandestina poltrona de baloiço, junto à janela, se fora.

Restava um sofá baixo, cinzento, parecendo um bloco desconsolado; na parede um televisor negro enorme e, no chão, um tapete branco fofíssimo, deslocado ali como um nevão fora de época. As paredes, despidas, agora estavam pintadas alfacinhas de um cinzento hospitalar.

Ai, dona Deolinda! saiu da cozinha Cátia, a nora. Usava um roupão curto e segurava uma chávena ao colo, de líquido esverdeado. Já voltou? Não esperávamos tão cedo… perdeu o comboio?

Logo atrás veio Rui, o filho, de pantufas, olhar envergonhado, postura desfeita.

Onde…? balbuciou Deolinda, passagem rápida do olhar à volta. Onde está tudo?

Tudo o quê? Cátia piscou os olhos cheios de pestanas falsas. Ah, a mobília velha? Decidimos fazer-lhe uma surpresa! Remodelámos tudo! Enquanto andava nas cortes das couves, demos uma renovada. Que tal? Fica tão leve, tão arejado! É a moda: minimalismo, toda a gente faz isto agora.

Onde puseste as minhas coisas? tremeu-lhe a voz, as pernas quase cederam. Procurou o olhar do filho. Rui, o aparador do pai? os livros? A máquina de costura da avó?

Rui tossiu numa mão, atrapalhado.

Mãe, a sério, não te chateies. Nós… levámos tudo para fora.

Fora onde? Para o quintal? Para a garagem?

Para o lixo, dona Deolinda, interrompeu Cátia, sorvendo da sua chávena. Para quê guardar tanto trambolho? O aparador estava todo desconjuntado, só a ocupar espaço, e os livros… hoje lê-se tudo na internet, aquilo só fazia pó. Não se podia respirar!

Deolinda sentiu as pernas fraquejar e agarrou-se à ombreira da porta.

Para o lixo…? murmurou, escurecendo-lhe a vista. A biblioteca que o meu Manuel foi juntando desde rapaz? A PFAFF que eu vos remendava as calças e fazia as saias? Os copos do nosso casamento, que embalei com a mãe para não partirem?

Ó, isso do cristal, agora ninguém usa, já passou de moda! bufou Cátia. O que está in é IKEA, estilo escandinavo, simples. A máquina era um mono pesadíssimo, tivemos que vir três a carregá-la! Sempre disseste que a casa estava apertada; ora, agora cabe-se cá dentro.

Poluição visual… repetiu Deolinda, as palavras cortando-lhe as entranhas. E eu? Perguntaram-me? Esta casa é minha, Cátia. Tanto tua como do Rui. Mas as coisas… são minhas.

Lá vem ela outra vez… revirou os olhos a nora. Nós aqui a gastar dinheiro, fizemos um empréstimo para comprar essa tinta toda e ainda leva a mal. Eu bem disse ao Rui, nunca ia valorizar. Gente antiga, tudo agarrado aos trastes doença de velhos, dizem!

Rui finalmente ergueu os olhos.

Mãe… não comeces, aquilo já estava velho. Agora tens sofá novo, ortopédico! Dorme-se melhor.

Deolinda olhou-o longamente. Não viu remorso, nem compreensão. Só o desejo de encerrar depressa o assunto e regressar ao conforto dos tempos. Sempre tinha sido influenciável: primeiro obedecia à mãe, depois sujeitou-se à mulher. Moldável.

Quando é que tiraram tudo? perguntou com frieza, recompondo-se.

Há uns três dias, mal começámos as obras, explicou Cátia. Mandámos vir um contentor, foi tudo de uma vez. Já nem está por aí, não vale a pena ir procurar.

Deolinda caminhou, trôpega, até ao quarto dela ou o que restava. Também ali haviam passado à organização do espaço. Os móveis familiares, a cómoda, o toucador, sumidos. Até a sua caixa de botões, guardada desde a juventude; os álbuns de fotografias.

Os álbuns também?! gritou da porta. As fotos do vosso avô?

Ah, aqueles papéis empoeirados? Depois digitalizamos, se quiser. O papel foi todo para a reciclagem revistas Saúde e Segredos do 87, tudo! Temos de pensar no ambiente.

Deolinda sentou-se no sofá estranho. Dentro dela algo murchou. Não levaram trastes; levaram-lhe pedaços da vida. Trinta anos de casamento, memórias, pequenas alegrias: tudo chamado lixo visual e despejado com o entulho.

Não chorou. As lágrimas há muito converteram-se em nó duro, queimando-lhe o peito. Ficou ali, olhando a parede crua, enquanto Cátia resmungava na cozinha com o Rui por causa do leite errado e discorria sobre a energia do Feng Shui na casa.

Nesse serão não desceu para jantar. Ficou na penumbra, a pensar. A casa era dela. Rui estava lá inscrito, mas a proprietário era ela. Deixou-os ficar para juntarem para um empréstimo três anos ali, sem guardarem nada: gastavam em telemóveis, férias ou obras. Viviam à conta dela, e até a água e luz pagava da pensão, a ajudar os filhos.

Ao início da manhã seguinte, Deolinda entrou na cozinha, rosto sereno, quase pétreo. Cátia preparava panquecas, cantarolando.

Bom dia! exclamou a nora, fingindo que nada se passara. Estou a fazer pequeno-almoço. Quer? Sem açúcar, só com stevia e farinha de arroz. Saudável!

Só um chá, obrigada, respondeu Deolinda. O Rui saiu?

Já foi trabalhar. Hoje tem relatório. Eu estou de folga, um dia para o meu bem-estar, vou ver um webinar sobre arrumações.

Muito bem, assentiu Deolinda. A organização é importante. Olha, Cátia, hoje vou passar uns dias com a minha irmã em Torres Novas, pôr os nervos em ordem.

Acho ótimo! soltou Cátia, com evidente alívio. Faz-lhe bem arejar, não se preocupe, cuido de tudo.

Deolinda preparou um saco pequeno. Antes de sair, hesitou à porta.

As chaves ficam convosco?

Claro, e com o Rui também. Só oleámos as fechaduras.

Bem. Fiquem bem.

De facto, viajou a Torres Novas mas só por umas horas. Precisava era de tempo para Cátia sair às compras ou ao ginásio, como fazia às quintas depois do almoço.

Voltou perto das quatro. A casa, vazia de gente. Cátia, como esperado, tinha ido cuidar-se.

Deolinda vestiu a bata de linho, atou um lenço e retirou do sótão (esquecido no alvoroço da limpeza) sacos de entulho daqueles usados para obras, sobras do remodelação da nora.

Entrou no quarto do filho e da mulher, espaço até então respeitado fronteiras agora abolidas. Fora Cátia quem as destruíra primeiro, esbanjando a sua história pelo lixo.

O quarto era um altar ao consumismo. Cátia era viciada em compras e tratamentos estéticos. O toucador rebentava de boiões caros, ampolas de séruns e máscaras. Cremes de oitenta euros, bases de cento e vinte. Uma luz de anel para selfies tinha lugar de destaque.

Deolinda pegou num saco.

Poluição visual, murmurou, saboreando a expressão. Demasiado ruído visual…

Frascos de Chanel, Dior, e marcas coreanas que nem sabia ler: tudo enfiado apressadamente em sacos, sem distinguir o novo do velho. Só queria organizar o espaço.

Abriu o armário, um mar de tecidos, mal haviam comprido entre eles: vestidos, blusas, calças praticamente iguais, alguns ainda com etiquetas.

Ninhos de pó… ecologia em risco! murmurou Deolinda.

Vestidos, camisolas, carteiras de marca, tudo para o saco. Sapatos dos mais variados tipos seguiram também.

Trabalhou metódica, fria, uma cirurgiã a extirpar um tumor. Não tocou nas roupas de Rui: camisas, um casaco, uns sapatos. Mas Cátia… foi esvaziada de bens supérfluos.

Depois virou-se para o decoração: estatuetas de Buda, velas aromáticas, quadros de frases em inglês, apanhadores de sonhos. Tudo para o saco.

Trecos, decretou Deolinda. Doença de velhos, sim senhora. Mas a tua também não fica atrás…

Duas horas e o quarto parecia outro. Ficou ecoante e limpo. Só a cama e um guarda-fato vazio restaram.

Levantou quinze grandes sacos para o corredor. Não os levou ao lixo não era selvagem. Chamou um furgão e mandou depositar tudo na garagem do irmão, em Almada. Lá ficariam, no pó e na humidade.

Limpou a casa. O ar estava limpo, mesmo que restassem vestígios do perfume de Cátia, embebido nas paredes. Fez um chá, sentou-se com um livro comprado à irmã (daqueles a cheirar a tipografia!), e esperou.

Cátia chegou primeiro. Entrou cantarolando, sacos do Continente nas mãos.

Dona Deolinda?! Voltou tão cedo? Precisou de alguma coisa?

Precisei, sim, Cátia. Decidi seguir o seu conselho e organizar o espaço.

Cátia fitou a sogra, desconfiada, mas nada disse. Foi pentear-se, mas do quarto saiu um grito agudo, capaz de partir vidros.

Onde?! irrompeu pelo corredor, pálida, rosto torcido. As minhas coisas?! A maquilhagem?! O casaco de peles?!

Deolinda tomou um gole de chá.

Calma, Cátia. Arrumei tudo. Tirei a poluição visual. Tinha razão: tanta tralha, tanto pó! Pra quê vinte malas? Também isso é doença. Só quis libertar as energias!

A… atirou tudo fora?! Sabe quanto custava aquilo?! Só o sérum é mais que a sua reforma! Ficou doida? Roubo! Vou chamar a polícia!

Chamem, anuiu Deolinda com calma. Talvez expliquem que nome se dá ao que fizeram aos meus pertences às memórias do Manuel, aos livros raros, à máquina de costura. Disseram que era lixo. Olhei para os seus frascos e trapos… igual.

Ouve-se então a porta: Rui entra, pálido com o ambiente. Cátia já soluçava, desfeita.

Rui! Ela deitou tudo fora! Os meus vestidos! O meu creme! Mãe louca!

O filho olhou Deolinda, aturdido.

Mãe… fizeste mesmo isso?

Fiz, sim. De surpresa. Chama-se minimalismo do coração. Agora o vosso quarto é amplo, como querem. Meditem à vontade.

Não tinha esse direito! gritou Cátia. As minhas coisas eram minhas!

E a biblioteca era minha, a voz de Deolinda era gelada agora. O aparador, a máquina, tudo meu. Perguntaram-me? Não. Entraram na minha casa e decidiram o que me servia e o que não me servia, apagando a minha vida. Ficamos quites.

Onde está tudo? sibilou a nora. Se foi para o lixo, não lhe perdoo!

Não foi, sorriu Deolinda. Está bem guardado. Mas não vou dizer onde. Pelo menos… para já.

Como assim? estranhou Rui.

Assim mesmo. Agora pegam no que vos resta documentos, carregadores, o básico e saem. Para onde quiserem: casa da mãe da Cátia, pensão, emigrem, que me importa.

Vai-nos mandar embora? quase chorou Cátia.

Da minha casa, sim. São hóspedes que se esqueceram do respeito e pensaram que a dona da casa já perdeu juízo. Têm uma hora até eu mudar as fechaduras. O senhor Joaquim já está ali em baixo, avisei-o.

Oh, mãe… Agora onde vamos ficar? Os planos da entrada na casa…

Pois, agora têm o incentivo necessário. E as tuas coisas, Cátia, só as devolvo se me devolveres as minhas.

Mas as tuas foram para o lixo! Já desapareceram!

Então as tuas terão o mesmo destino. Ou procura: faz por merecê-las. A mim é-me igual. Só quando me devolveres ao menos o que podias, terás as tuas malas e sapatos.

Era bluff, claro. As coisas da nora estavam bem guardadas. Mas Deolinda viu, satisfeita, o medo e a ganância tomar conta de Cátia.

És uma bruxa! gritou Cátia. Rui, vamos embora! Juro, nunca mais cá volto. Alugamos algo decente! E fique sozinha, velhota!

Foram-se em quarenta minutos. Arrastaram malas, Cátia chorava impropérios, Rui de cabeça baixa.

Quando fecharam a porta, Deolinda olhou pela janela. O senhor Joaquim subiu e trocou o canhão da porta.

Ficou sozinha, enfim, naquela casa nua e estrangeira. Mas não sentiu vazio. Sentiu alívio, como quem larga de vez um fardo de batatas podres dos ombros.

No dia seguinte, pôs mãos à obra: Procuro ou compro barato móveis portugueses antigos, livros, máquina de costura. Em poucos dias percebeu quantas pessoas deixavam coisas assim por aí, apenas querendo quem as levasse.

Ao fim de um mês, o lar readquire vida. Não era igual era outro aparador, outros livros, uma PFAFF diferente, mas igual no coração. Deolinda mudou as paredes para tons quentes, pôs uma alcatifa portuguesa a condizer.

Devolveu as coisas a Cátia quinze dias depois: telefonou ao filho, deu-lhe a morada da garagem.

Tomem lá, já não quero nada vosso.

Rui apareceu sozinho. Mirrado, cansado.

Mãe, desculpa. Estamos a alugar, é caro, a Cátia está histérica, falta-nos dinheiro.

Assim é a vida adulta, filho. Custa.

Podemos voltar? Cátia… prometeu portar-se melhor…

Não, filho. Gosto muito de ti, mas é no meu espaço que quero estar. E um dia, quero morrer entre as minhas coisas, aquelas que estimo. Construam o vosso lar ao vosso gosto.

Rui levou os sacos e saiu.

Deolinda voltou à sua casa simples, aconchegada. Sentou-se à máquina de costura, colocou a bobina e carregou no pedal. O trepidar familiar recheou o espaço estava a fazer novas cortinas, coloridas, para a sala. Não havia poluição visual agora. Só alegria.

Às vezes, só conseguimos dar valor a algo depois de o perder ou de perder quem não nos valoriza. E então, finalmente, dá-se espaço à felicidade. Isso sim, é o verdadeiro feng shui à portuguesa.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Nora deitou fora as minhas velharias enquanto eu estava na casa de campo – a minha resposta não tard…