No verão fui a uma clínica de jejum terapêutico para fazer uma limpeza ao organismo. Num desses dias, fui apanhar sol e, mesmo ao lado, numa espreguiçadeira, estava deitada uma rapariga lindíssima com ar de modelo.

No verão, decidi passar uns dias numa clínica de jejum terapêutico aqui em Portugal, para desintoxicar o corpo. Num desses dias, fui apanhar sol e lá, numa espreguiçadeira ao meu lado, estava uma rapariga lindíssima, com um ar de modelo. Pusemo-nos à conversa, a trocar impressões sobre o motivo de lá estarmos.

Só preciso de perder 400 gramas disse ela com toda a seriedade. Eu ri-me, achando que era brincadeira. Mas ela falava a sério.

Vivo assim há um ano, gorda. O meu namorado disse que me deixa se eu não emagrecer Estás a ver? apertou um pouco a pele da barriga com vergonha. Fico com vergonha de me sentar…

Fiquei a pensar nisso o resto do dia. Apelidei-a logo de Matilde 400 gramas.

Pelos vistos, segundo o namorado dela, mulheres como eu deviam ser atiradas de um penhasco, porque, na Esparta ideal dele, só há espaço para magrinhas e as mais cheiinhas não contam.

Há uns dias, fui a um jantar num restaurante de Lisboa, rodeada de caras desconhecidas para celebrar um aniversário. Havia lá uma mulher de ar sofisticado, sentada com distinção, pernas cruzadas, as meias a brilhar levemente nas pernas impecáveis, sapato pendurado no calcanhar e a beber água de um copo de vinho enquanto captava todos os olhares masculinos.

Até que aparece o marido. Aproxima-se, cumprimenta os homens com aperto de mão e, atravessando os dentes, diz-lhe: Cobre-te! Estás a mostrar as coxas!

Ela endireitou-se, corou, pediu de imediato uma manta ao empregado mesmo sentada ao lado da lareira , enrolou-se nela e passou o resto do jantar calada, como um pardalzinho assustado.

Um dia resolvi mergulhar nas biografias de grandes escritores portugueses à procura das suas rotinas de vida, para descobrir o segredo do sucesso. Mas desisti rapidamente: era impossível conciliar as fragilidades tão humanas dessas pessoas com as suas obras geniais.

Desisti definitivamente quando li sobre Eça de Queirós. Sou apaixonada pelo Os Maias, mas certas passagens da sua vida deixaram-me de rastos. Tinha certas obsessões, e quando a mulher, Maria Emília, debilitada depois de vários partos e avisada pelos médicos para não ter mais filhos, ouviu dele: Se não pode ter filhos, então para que me serve?

Ela teve sete filhos…

No Instagram vejo um mundo povoado de Barbies perfeitas. O dia delas é um ciclo de ginásio, solário, envolvimentos e spa. Dedicam-se a construir o corpo ideal, com a ajuda de uma indústria de beleza muito rentável e trabalhosa. São profissionais da beleza e respeito todo o trabalho honesto, mas acho que andamos uns passos trocados outra vez: as raparigas esforçam-se tanto para se tornarem escolhidas, para caberem numa ideia de perfeição que lhes disseram ser a única forma de serem amadas.

Dizem-lhes: perfeito é ser magra assim, sobrancelha fininha, boca preenchida, rabo empinado e elas aceitam, tentando adaptar-se ao padrão. E os rapazes? Perdem-se a escolher entre bonecas todas iguais…

Houve um sábado em que fui à feira com o meu marido, ele foi às compras para a quinta e eu vagueava sem rumo pelos corredores. Acabei por parar num expositor de figuras decorativas de jardim: candeeiros, regadores, girassóis, coelhos, raposas.

Ao lado de uns gnomos de jardim enormes, com chapéus vermelhos, estavam dois homens a tentar decidir qual era o gnomo mais bonito. Um apalpava-os, virava-os, olhava de todos os ângulos, e o outro ri-se e diz,

Anda lá, decide-te… Ontem escolhias raparigas com o mesmo ar crítico!

Achei genial.

Raparigas, queridas Matilde 400 gramas, Clara Cobre as Coxas, Maria dos 7 filhos Como é possível não gostarem de vocês próprias, não se valorizarem, não se respeitarem?

Em que altura passaram a aceitar que ser tratadas como produto com defeito é sinónimo de amor? Quem foi que vos convenceu que só um corpo perfeito vos garante felicidade nos afectos?

Tenho mais de cem exemplos que provam que o aspeto físico nada tem a ver com o amor.

Tenho uma amiga que conheceu o marido no hospital, numa enfermaria de nefrologia, e ele apaixonou-se por ela de bata, pálida, desgrenhada, e com um saco de urina a espreitar por debaixo da camisa de dormir.

E a Frida Kahlo? Já viram? E as sobrancelhas? Mesmo assim disputavam-lhe a atenção homens incríveis do seu tempo.

Há uns anos, depois de tirarem um dente do siso, fiquei com a boca rebentada, febre altíssima, gengiva rebentada, cara inchada.

Deitada em casa, cuspindo sangue, com a bochecha do tamanho de uma almofada, eu chorava ao ver-me assim ao espelho, aterrorizada. O meu marido, porém, trouxe-me um iogurte líquido e, ao ver os meus bigodes de leite, disse:

Tu és mesmo a mulher mais linda deste mundo, ouviste? Mesmo agora! Casas comigo? Sim?

Depois, quando melhorei, houve jantar, houve anel, houve joelho no chão, palmas de todos e flores. Mas é aquele primeiro pedido, o verdadeiro, o que mais me marcou. Acreditava-lhe. Porque beleza não é aparência e amor não é perfeição.

Os nossos defeitos é que nos fazem únicos. São por eles que gostam de nós. Fazem-nos ser quem somos! Perfeição? Isso é ilusão cada um tem a sua.

Agora, decidi colocar aparelho nos meus dentes tortos. O meu marido disse apenas:

Adoro o teu sorriso. Só faz sentido usares aparelho se fores mesmo tu a querer. Se fosse eu, deixava tudo como está.

Depois de ter o primeiro filho, cheguei aos 118 quilos e o meu marido só me dizia elogios, tirando-me qualquer motivação para emagrecer. Acabei por perder peso quando eu própria quis.

Vimos há pouco fotografias minhas, recém-mamã, desfeita num sofá, e perguntei-lhe:

Porque nunca me disseste para emagrecer? Olha bem para mim…

Eras uma fofinha deliciosa. Emagrece quando tu quiseres. Eu gosto de ti sempre.

E naquele verão, com um surto brutal de psoríase pelo corpo todo, recusei-me a despir-me na praia. Ele pergunta: O que se passa? e então entendi: ele não vê as placas de psoríase. Só me vê a mim, sempre bonita.

Isto não é publicidade ao meu marido, é a demonstração do que são relações de verdade. Se um homem vos exige serem o reflexo dos padrões dele, não é amor. É dominação.

Se ele só vê imperfeições em si, não quer uma fruta saborosa, só quer controlar.

Podem segui-lo por medo de perder. Mas pensem: perder o quê? Um tirano? Como se fossem um gnomo de jardim?

Todo o homem quer sentir-se importante. Mas respeito constrói-se com admiração, não com medo.

A submissão só deve surgir como escolha, não como obrigação entregamo-nos a quem merece a nossa confiança, a quem inspira a seguir, porque é seguro, estável, carinhoso. Só damos a mão a quem soube conquistá-la.

Esse direito, esse privilégio, é para quem o merece conquistarPor isso, ao lembrar-me da Matilde 400 gramas e das outras, apetece-me dizer-lhes, e a todas nós: chega de medir a vida em balanças alheias. Sejamos a versão mais genuína de quem queremos ser, mesmo quando ficamos desalinhadas dos moldes do momentohá liberdade e um certo encanto em saber que a nossa beleza é feita à nossa maneira, cheia de sinais, curvas e história.

Da próxima vez que passares ao lado de um expositor de gnomos ou vires alguém espelhar uma perfeição impossível, sorri. Pensa: Sou única. Não vim ao mundo para ser escolhida, vim para me escolher todos os dias. Porque a felicidade nunca pesou 400 gramas, nem algum vestido foi casa para o coração.

Afinal, quem se apaixona de verdade, não te pede para te esconderes nem no amor, nem à mesa da vida. Segue assim, inteira, porque a felicidade, tal como o amor, não precisa de permissão nem de licença. Só precisa de verdade, e de um bocadinho de coragem para sermos nós mesmas de corpo inteiro, imperfeitas e autênticas, sempre.

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No verão fui a uma clínica de jejum terapêutico para fazer uma limpeza ao organismo. Num desses dias, fui apanhar sol e, mesmo ao lado, numa espreguiçadeira, estava deitada uma rapariga lindíssima com ar de modelo.