No escritório, a secretária sentiu-se estranha, por isso decidiu sair para a rua: sentou-se no banco de um pequeno jardim e fechou os olhos, procurando algum tempo de repouso. Quando voltou a si, percebeu que um velho tentava retirar o seu bracelete dourado do pulso, sem qualquer cerimónia.
O que está a fazer? Este bracelete é presente do meu marido! protestou ela, com voz trémula. O homem olhou-a assustado, murmurando: Fiquei preocupado, menina. Você desmaiou por causa deste bracelete. Veja bem.
A secretária, chamada Madalena, sentiu um frio a percorrer-lhe o corpo. Os olhos ficaram arregalados de susto, sem compreender ao certo se tudo aquilo era real ou sonho.
Madalena perdera os sentidos no meio da reunião. Sentada ao lado do diretor, registava cada palavra, esforçando-se para esconder o cansaço. O ar estava pesado, como se pairasse um nevoeiro espesso. As têmporas latejavam, o coração batia fora de ritmo. Inspirou fundo, mas o peito só apertou mais: um peso gelado, como se alguém a coberto com pedras.
De repente, a sala derreteu diante dos seus olhos. Madalena agarrou-se à mesa, sussurrando um pedido de desculpas, e saiu cambaleando. O diretor perguntou algo, mas as palavras já se dissolviam no ar.
Lá fora, o ar fresco de Lisboa batia-lhe no rosto, mas não trouxe alívio. A fraqueza crescia. Deu uns passos vacilantes e sentou-se no banco do jardim, perto das magnólias. Fechou os olhos, tentando regressar a si.
O coração disparava como um tambor descontrolado.
Quando Madalena abriu um pouco os olhos, viu um velho curvado sobre ela. Teria cerca de setenta anos, vestido de forma modesta, chapéu gasto, olhar atento. Segurava-lhe o pulso com cuidado, como se procurasse algo.
O que está a fazer? conseguiu balbuciar Madalena, puxando a mão. Não toque, este bracelete foi o meu marido que me deu.
O velho não contestou. Falou devagar, quase como um segredo:
Está mal por causa dele. Veja atentamente.
O bracelete, de ouro amarelo, que Madalena nunca tirava, estava manchado na parte encostada à pele. Não totalmente, mas pontilhado, como se uma sombra tivesse passado.
Quem é você? sussurrou Madalena, sentindo um nó no peito.
Fui ourives quarenta anos, disse o velho. Trabalhei com ouro toda a vida. Vi que estava mal, reparei na sua mão. Gente comum não nota.
O que significa? a voz dela quase não vinha.
São marcas de tálio, explicou em tom grave. Veneno traiçoeiro, invisível. Aplicam só uma camada fina, entra pela pele, destrói devagar. O ouro revela: escurece.
Está a dizer que…
O velho assentiu.
Quem lhe deu esse bracelete sabia muito bem. Queria que ficasse doente, que perdesse as forças, que um dia não acordasse mais.
Madalena olhou para o bracelete, para as próprias mãos. A imagem do marido veio-lhe à cabeça: olhares frios, cuidados estranhos, e aquela insistência: “Usa, não tires. É meu presente.”
Naquele instante, o sonho tornou-se pesadelo e Madalena percebeu tudo.
O velho envolveu o bracelete num lenço, devagar.
Precisa de ir imediatamente ao hospital e à polícia, avisou. Nunca mais use isto.
Madalena assentiu sem palavras. Ficou sentada no banco, tremendo, com os dedos apertados, sentindo que, por um fio, escapou da morte no coração surreal de Lisboa.






