Inverno de 1943 Diário de Baltazar
O frio este ano é de cortar a alma. No hospital improvisado de Vila Franca, onde outrora se celebravam bailes nos ricos salões, hoje só se ouvem gemidos abafados e o cheiro a éter. Deste antigo solar, nacionalizado aos velhos condes, fizemos refúgio para os soldados feridos que nos chegam da frente. Eu, doutor António Mota, o chefe de cirurgia, olho da janela a neve cobrindo os pinheiros da lezíria e penso na minha vida podia agora estar em Coimbra, a lecionar na universidade e a escrever livros. Mas preferi estar aqui, perto dos que mais sofrem. Aos cinquenta e três anos, já não corro para heróis, mas não consigo abandonar os meus doentes.
Hoje, a nossa enfermeira, Dona Alzira, entrou no gabinete, soprando nuvens de vapor do frio.
Doutor António, encontraram um rapazinho quase gelado junto aos caminhos do monte. Os caseiros, Manuel e Joaquim, trouxeram-no à cocheira. Está mal, mesmo muito mal.
Olhei pela janela. Só se via neve e silêncio. Perguntei a idade do menino.
Sete ou oito anos, parece. Só pede pela mãe e por uma tal Laurinda, deve ser irmã.
Seguimos para a velha lavandaria, agora cheia de lenha e cobertores. No canto, junto à salamandra, vi a criança embrulhada num capote roto, agarrando um coelhinho de peluche já gasto. Toquei-lhe no rosto, era um picador de gelo.
Miúdo ouves-me? murmurei.
Ele abriu um olhar turvo, cansado.
Sou o Baltazar
Quantos anos tens, Baltazar?
Tenho sete e a voz dele sumiu. Não respondi mais; o olhar e a lágrima a descer-lhe pelo pó bastaram para perceber a tragédia.
Alzira, para a enfermaria pequena. Peço que aqueçam bem o quarto, ele está com dedos dos pés roxos e pele colada aos ossos. Vamos começar soro e caldo quente a pouco e pouco.
Durante semanas, Baltazar lutou para sobreviver. Eu próprio ia vê-lo muitas vezes até nas noites de urgência. Aos poucos, contou-me a sua história: vivia com a mãe e uma irmã pequena, Laurinda, numa aldeia que ardia com a guerra. Só ele escapou entre escombros. Vagueou até não aguentar mais. Não tinha ninguém, apenas aquele coelhinho de peluche, testemunha muda da desgraça.
Quando, finalmente, recuperou, sugeri que fosse para o orfanato em Santarém. Ao ouvir-me, largou a agulha e a linha (estava a ajudar as enfermeiras a remendar compressas) e virou-se para a parede, silencioso e trémulo.
Por favor, Doutor António, posso ficar aqui? Eu não dou trabalho, aprendo a cortar lenha, levo água. Por favor
Olhei para ele, para aquele pescoço magro e ombros angulosos e senti o coração vacilar.
Isto é um hospital, Baltazar. Não podemos
Fechei a porta a correr. Mas passei o dia inquieto. Por fim, à noite, entrei de novo na enfermaria. Mal me viu na porta, ele encolheu-se.
Vens comigo. Vais morar na minha sala anexa ao hospital. Por enquanto, é aqui que ficas. Vestes-te e vens.
Baltazar quase não acreditou. Pegou nas botas, pôs o casaco, agarrou minha mão com uma força que me tocou o fundo da alma.
Adaptou-se bem a esta vida humilde. Levantava-se cedo para ir buscar água ao poço, ajudava a trazer lenha, aprendia depressa a desinfetar instrumentos e cortar ligaduras. Todos lhe ganharam apreço. Quando eu chegava, depois de horas de operações, encontrava-o muitas vezes adormecido a meu lado, à espera para jantar.
Gostava das nossas noites juntos: eu explicava-lhe os mistérios do corpo humano como bate o coração, como se respira. Ele ouvia, fascinado, e disse-me um dia:
Ser médico é difícil?
Muito. Salvas vidas, carregas responsabilidades. Mas a felicidade de ouvir um obrigado de quem salvaste não tem preço.
Eu também quero ser como o senhor.
Sorri-lhe. Prometi ensinar-lhe as coisas da vida e da humanidade, não só ler e escrever. E assim passou um ano, rápido como um fio de vento polar.
Veio a primavera de 1944; o hospital ficou atolado de feridos. Eu já quase não descansava. Numa noite, Baltazar encontrou-me caído no chão da sala de operações, braços estendidos como se pedisse ajuda ao céu. Alzira tentou reanimar-me, mas o coração não resistiu. Morri ali mesmo, entre instrumentos e cheiros a álcool.
O grito do rapaz ecoou pela casa: não o deixaram aproximar-se da despedida, com medo que enlouquecesse. Alzira levou-o para o seu quarto, cuidou dele, como eu uma vez fiz. Ele ardeu em febre três dias, vencido pelo luto.
Meses depois, a guerra acabou para nós. O hospital fechou, Alzira recebeu carta do marido que a chamava para Estremoz. Levaram Baltazar consigo.
O reencontro com a vida em Estremoz foi gradual, pontuado por pomares de maçãs e tardes de escola. Alzira era como mãe; o seu marido, senhor Jorge, aceitou o rapaz como filho. Baltazar teve dificuldades na escola, mas estudou como poucos, empurrado pela promessa íntima feita ao doutor António. Era bom aluno, finalmente saudável, e acabou por ir estudar medicina em Lisboa, depois de receber prémio de mérito.
Já formado, pediu colocação perto da terra onde tudo começou. Voltou à vila, encontrou o antigo solar já demolido, no lugar havia um hospital novo. Aceitou vaga de médico lá, com Alzira a seu lado, agora já idosa.
Na primeira folga, foi até ao cemitério. Encontrou a lápide humilde de António Mota, suja de lama mas ainda com o nome legível. Ajoelhou-se e agradeceu tudo. Passava anos a tentar encontrar notícias da família do doutor, mas foi impossível tinham partido, perdido o rasto no tempo e na distância.
Lance do Destino
Anos passaram; Baltazar era agora um médico respeitado, principalmente entre as crianças. Numa enfermaria, encontrou uma miúda loura, olhos grandes e tristes, agarrada a um coelho de peluche velho.
Como te chamas, menina?
Mafalda. O coelhinho está doente, senhor doutor.
Ele examinou a boneca para a sossegar. Mal soube que era órfã, sem família como ele fora, há décadas.
Naquela noite não pregou olho. Falou com Alzira: Mãe, quero levar a Mafalda para casa. Ela precisa tanto… Lembras-te de como era comigo?
Amanhã vamos vê-la confirmou Alzira.
No dia seguinte, apareceram juntas, levando bolinhos e roupa. Mafalda entrou logo nos seus corações. Decidiram avançar com a adoção, apesar de toda a burocracia.
Então, apareceu a educadora do lar, dona Filomena, uma mulher jovem e de fado nos olhos.
Quer mesmo adotar Mafalda? perguntou-lhe quase a chorar.
Quero. Sei o que ela sente. Eu também fui assim.
Sabe… eu também tenho um carinho especial por ela, mas não posso adotá-la. Não tenho condições. Promete que vai cuidar bem dela?
Baltazar contou-lhe então tudo sobre o doutor António, a guerra, o hospital, o milagre das segundas famílias. Filomena ficou calada, ouvindo. Por fim, murmurou:
O senhor disse António Mota? Era o nome do meu pai. Eu sou Filomena Mota.
Baltazar sentiu o chão desaparecer. Abraçaram-se, emocionados. Ela contou-lhe que a mãe morrera há poucos anos, que nunca conseguiram encontrar o miúdo chamado Baltazar sobre quem o pai lhe falava, o filho adoptivo do coração.
Parece impossível, mas não podia ser de outra maneira disse Baltazar. Afinal, estás em minha casa outra vez.
Filomena sorriu. Mafalda, dali em diante, foi filha deles de um e de outro, da família do coração, não do sangue.
Celebraram casamento na pequena igreja. Mafalda foi a menina das alianças, Alzira orgulhosa como nunca. O coelho de peluche ganhou novo nome: Doutor António, para nunca mais esquecer de quem acendeu aquela luz na outra guerra fria.
Os anos passaram. Baltazar dirigiu o hospital, o coelho de peluche continuou exposto no gabinete, ao lado do bisturi antigo de António. Mafalda tornou-se professora de música, visitava-os ao domingo. Nos dias santos, a família inteira ia juntos ao cemitério, levar flores ao “avô” António.
E assim, de um pequeno gesto de bondade naquele inverno, se acendeu um fogo que ainda aquece a nossa família por três gerações já, unidos não pelo sangue, mas pelo fio invisível da compaixão. Enquanto houver alguém a lembrar, a contar e a ajudar, a luz de António Mota nunca se apagará.
Hoje sento-me ao entardecer a escrever estas memórias, rodeado dos risos dos netos, do cheiro a café vindo da cozinha, da esperança simples que aprendi a não deixar morrer: que um gesto, por mais pequeno, pode transformar tudo. E talvez, de vez em quando, ainda consiga escutar na brisa uma voz antiga a dizer: Obrigado.







