Hoje, enquanto organizava umas gavetas, acabei por encontrar o caderno do meu marido, onde estavam anotadas todas as despesas que ele teve com o meu filho de sete anos… O meu filho está agora no primeiro ano da escola. Eu e o pai dele divorciámo-nos há muito tempo. Quando o meu filho tinha quatro anos, conheci o António. Ele disse-me que me amava e que iria amar o meu filho como se fosse dele. Para mim, naquele momento, isso foi tudo aquilo que eu pensei precisar.
Na realidade, o António nunca quis ser um verdadeiro pai para o meu filho. Mas, na altura, a atenção e o respeito que ele demonstrava eram suficientes para mim. Assim que passou um ano de casamento, nasceu a nossa filha, Matilde. E com isso, o António começou realmente a dedicar toda a sua atenção à menina, afinal, era filha dele.
Estou de licença de maternidade, por isso, atualmente o sustento da família está todo a cargo do António. Sempre que saímos para passear no jardim ou no parque, o António compra brinquedos ou gelados para o meu filho. Achava eu que era um gesto de carinho.
Mas encontrar aquele caderno deixou-me em choque e cheia de inquietação. Ao abrir, deparei-me com uma tabela dividida em três secções. Todas as colunas estavam identificadas: data, nome, quantia. Brinquedos 40, gelados 40, baloiços 30, tudo contabilizado ao cêntimo.
Perguntei ao António como é que ele via aquilo. Ele mal mudou o semblante ao ver o caderno. Para ele, aquilo era algo natural, quase óbvio. Resumiu, sem hesitar, que sim, quando o meu período de licença terminar, terei de lhe devolver todas as despesas que ele teve com o meu filho. Ainda sugeriu que deveria tratar rapidamente do pedido de pensão de alimentos junto do meu ex-marido, pois assim seria mais fácil pagar-lhe essa dívida. Acrescentou também que, neste momento, o que lhe interessa é o bem-estar e sustento da própria filha.
Desatei a chorar. Não consigo imaginar um divórcio nesta altura temos uma filha em comum e amo-o profundamente. Mas esta atitude tão mesquinha não consigo perdoar. Fico sem saber o que o futuro nos reserva.







