No distante ano de 1943, numa aldeia portuguesa, ela usava o luto pelo marido combatente com tal elegância que fazia as vizinhas rangerem os dentes de inveja. O novo pretendente parecia bom demais para ser verdade, e todos aguardavam pelo momento em que a máscara cairia. Ela caiu, mas não foi dele, e sim da filha adulta do casal, quando esta tentou recuperar aquilo que julgava lhe pertencer.

Num distante 1943, numa aldeia do interior, ela vestiu luto pelo marido soldado com uma elegância tão serena que até as vizinhas não escondiam o ciúme. O seu novo companheiro parecia bom demais para ser verdade, e todos esperavam o dia em que a máscara cairia. Caiu mesmo, mas não dele, e sim da filha adulta, quando ela tentou recuperar aquilo que julgava seu por direito.

A vida tranquila, envolta num nevoeiro matinal e num frio brando ao entardecer, seguia devagarinho na aldeia de Vale do Sobreiro. Entre os seus habitantes, havia uma mulher que granjeara respeito incontestável: Leonor Madeira. Era uma estima sem alarde, sólida, como uma casa feita à antiga. Dela diziam: mulher de fibra, com palavra, não se queixa do labor. Casou-se com Manuel Madeira mal contava dezoito primaveras. Em 1937 nasceu a primogénita, Benedita, e logo em 1938 a segunda, Graça.

Viver juntos sob o mesmo teto estava longe de ser um fado feliz. A garrafa era visita assídua, dobrando o caráter do marido. Sair de casa, deixá-lo? Era impensável nem os pais, lavradores de mão cheia e firmes nos costumes, nem os vizinhos compreenderiam. Um marido bêbedo, diriam nada de mais, quantas não são as que fazem tudo: casa, filhos, e a horta da cooperativa. Ao menos esse, longe de perfeito, ainda era sustento e pilar, pelo menos a olhos do povo. Leonor nunca foi de lamúrias; carregava a sua cruz em silêncio, com uma dignidade herdada das mulheres da sua linhagem. O quintal florescia pelos seus cuidados, o soalheiro brilhava no chão limpo, e ninguém a escutava murmurar sobre o marido.

Parecia que Manuel a estimava: nunca a agrediu, falava dela com respeito perante os amigos da aldeia.
Tens sorte, Leonor! dizia-lhe a vizinha Rosalina, abismada. O teu homem trata-te que nem uma peça de cristal. Nem aos gritos nem de maus modos. Ao contrário dos nossos

Leonor não contradizia, mas o seu olhar não era de assentimento. Sabia bem: escolheu um caminho, avança sem hesitar. Agradece o que tens pensava. Valorizava as raras palavras meigas. Mas, de noite, quando o cheiro do álcool pairava, cerrava os dentes e fitava o escuro, tentando abafar a tristeza escorregadia que enchia o peito, ouvindo as filhas a respirar baixinho.

Em 1941 rebentou a guerra. Despediram-se dos homens da aldeia entre choros e lamentos. No íntimo, Leonor sentiu vergonha de não chorar como as outras. Em casa, já era tudo: mãe, pai e provedoras. Pelo marido, carente e quebrado pelo vinho, restava apenas uma ferida seca, sem lágrimas.

Mas também não era de pedra. Anos é anos e duas filhas são sempre filhas. Por isso, em 1943, quando chegou aquela carta, o fatídico telegrama, pareceu-lhe gelar o coração de leve mas firme crosta. Chorou baixinho na almofada, sem acordar as pequenas, e ao nascer do dia, a vida chamou por ela: acender o lume, tratar das galinhas, levar Benedita à escola. O luto ficou guardado.

Mal parece que o amavas murmurou a vizinha Guilhermina certa vez. O teu luto é tão manso… até já sorris.
Que me importam as lágrimas alheias? respondeu Leonor serena, olhando a horta já vazia no fim do verão. É preciso criar as miúdas, cuidar da casa. Falam que a cidade passa fome; em breve vêm cá todos trocar o resto. O luto é dentro; é para se carregar, não para exibir.
E o trabalho atrapalha o pesar? insistiu a vizinha.
Não há tempo para tristeza, disse Leonor já rígida. Quem planta batatas? Quem repara o telhado? O lamento pode esperar.

Guilhermina encolheu os ombros. Mas não julgou. Quem conseguiria julgar uma mulher assim, que sustinha o seu pequeno mundo como rochedo? Não causava mal a ninguém, apoiava os pais, criava as filhas com rigor e amor velado. E ambas cresciam bem, a ajudar, mãos calejadas desde cedo.

Leonor trabalhava nos correios, pelo seu balcão passavam todas as notícias da região. Na guerra, eram sobretudo cartas de más notícias. Com o fim do conflito, vieram homens regressados do serviço militar. E começou a correr palavra: pretendentes rondavam Leonor Madeira, e de um género que nem as raparigas novas tinham.

Ouvi dizer que o Joaquim Pacheco, o carpinteiro, anda de olho em ti, partilhou Guilhermina junto à porta dos correios. As cartas e encomendinhas são só pretexto.
Haja paciência para tanta fruta seca e mel a embarcar para longe só por desculpa troçou Leonor, atando jornais. Patranhas, Guilhermina.
Ai que não! contou a vizinha. Disse-me a tia dele: O meu Joaquim, parece que cuida da Leonor como de uma candeia que o vento ameaça.

Para que quero eu um homem que mal tem coragem de falar? retorquiu Leonor. Não tenho tempo para romances.

Insistiram noutros candidatos. Uma rapariga queria arranjar ali o padrinho com bom pretexto para lhe arranjar mulher. Leonor sorria com indulgência, desfeita de ilusões.
O que esperas, minha amiga? resmungou Guilhermina. As viúvas suspiram por qualquer braço masculino. Tu és exigente que nem princesa.
Não espero nada, respondia Leonor. Não quero um homem só para ocupar lugar na casa. Já me basta o que vivi; não quero trabalhar por todos. Os homens de hoje querem ser servidos, não dar nada.
E as raparigas? insistiu a vizinha. Estão sem um pai.
Por elas penso eu sempre. Melhor só do que mal acompanhadas.

Leonor olhou a vizinha ausente. Não era das que dão graças a quem aparecer. Talvez foi o mau início do primeiro casamento, ou talvez era por saber fazer sozinha qualquer trabalho da aldeia, e o que não podia, um vizinho ajudava por uns escudos. Mais valeu-lhe a liberdade, dura mas limpa.

1948.

Benedita tinha doze anos, Graça onze. Eram estudiosas e arrumadas, habituadas à discrição da mãe, o afeto não em carícias mas na roupa lavada, na cama bem feita, no olhar firme. Não desejavam mais.

Num dia, porém, apareceu o tio Estevão, como o primeiro raio de sol depois de tanta chuva. As miúdas notaram: a mãe cantarolava, sorria de mansinho, e era mais paciente, até capaz de um abraço. Um calor discreto enchia a casa.

Estevão veio do Entroncamento visitar a avó e ajudar na lida. Soube que Leonor precisava de arranjar o alpendre ofereceu os seus préstimos.

Leonor estava acostumada aos homens que só trabalham se tiverem ordens. Não era a primeira vez, e sempre ouvira protestos. Mas Estevão, sorrindo com um brilho brincalhão nos olhos, disse:
Entendido, patroa. Vou já à obra, não te atrapalho.
Se te deixar sozinho, deitas isto tudo abaixo, bufou Leonor, disfarçando o nervosismo.
Faço por merecer uma visita tão bonita, respondeu ele.

Leonor corou e ficou a ver como o novo soalho assentava perfeito, o martelo certeiro e não tinha que dizer nada. O serviço saía melhor do que pedira.

Pronto, já está, sorriu Estevão. O alpendre parecia novo.

Leonor estendeu as notas, mas ele recusou.
Patroa, paga-me com chá, isso é melhor do que papel. Não cobro nada destas pequenas coisas.
Não faças fitas disse Leonor, sem rigidez. Mas para o chá, claro, nisso tens razão.

À mesa, conversaram sobre telhados, custos, a colheita. Ele não puxava pelo preço, não se queixava das dificuldades ao contrário, elogiava a capacidade dela em gerir tudo. Benedita, chegando da escola, cumprimentou e recuou. Já Graça, curiosa, logo se apresentou.
Eu sou a Graça!
Sou o Estevão, um gosto.

Ficaram a falar, leve e espontâneo: ela do herbário da escola, ele de folhas raras do jardim botânico da cidade. Ela da gata Mimi, exímia caçadora de ratos, ele do seu cão Nelo, que em miúdo trouxe um coelho à boca.

Estevão começou a vir com frequência, a ajudar, sempre sem troco. Com Graça logo criou amizade; Benedita, de início reservada, acabou por abrir o coração. Um dia apareceu sem motivo, com um raminho de malmequeres.
O meu tempo de férias acaba, confessou, entregando as flores. Agora vou embora, Leonor.
Vais quando voltas? arriscou ela, sentindo um aperto no peito.
Quem sabe talvez dentro de meses, talvez anos. Adeus.

Quando a porta se fechou, Leonor encostou-se, sentindo uma lágrima traíra a descer-lhe pela face. A solidão antes costume pacífico tornou-se súbita e funda.

A mãe anda diferente disse Benedita à irmã. Boazinha e ao mesmo tempo triste.
Também reparei murmurou Graça. Até quando entornei a sopa me perdoou sem refilar.

Leonor não percebia o que lhe batia no peito. Vivera muito tempo com o vazio; por que doía agora?

Veio então o desgosto morreu a velha avó de Estevão. Sabia-se que ele voltaria para o funeral. Leonor esperava entre esperança e medo.

Não aguento mais assim disse ele um dia, encarando-a sem vacilar. As mãos, tão próximas, quase se tocavam. Ou tu vais comigo, ou eu fico aqui.

Dois anos Estevão fez as visitas em folgas e férias; Leonor, três vezes, foi à cidade. Soube que ele tivera esposa antes da guerra. Mas voltando, encontrara a casa vazia, mulher e promessas levadas para um gerente de empresa.
Não culpo ninguém, disse Estevão, calmo. Vivi longe, era dado como morto. O outro estava presente.

Não tiveram filhos, e depois da guerra disseram-lhe os médicos que seria difícil. Talvez por isso, as suas filhas tornaram-se também filhas dele, recebendo todo o carinho que lhe sobrava.

Ir-me embora da aldeia é difícil, os papéis ainda no registo rural disse Leonor, cansada de despedidas. Fica tu. Vais trabalhar para a Cooperativa; precisamos de motorista para o camião do leite.

Assim foi. Estevão ficou em Vale do Sobreiro, e Leonor floresceu como uma rosa tardia, ainda mais bela pela demora. Ele tornou-se sua âncora, companheiro, amigo atento. Anos passaram. Benedita terminou o liceu e quis estudar enfermagem em Lisboa.
Podias não deixar ir, angustiava-se Leonor. É criança.
Deixa-a, sossegou Estevão. Cabeça firme, aprende um ofício. Se quiser, volta; se não, faz a vida lá.

Leonor confiou. Benedita estudava bem, só vinha no verão. Após o primeiro ano, voltou e chorou à porta.
Estou grávida, murmurou, tapando o rosto.

A mãe olhou a filha: franzina, pálida, e o ventre já ligeiramente arredondado. Ia bradar, mas Estevão agarrou-lhe o braço.
Deixa-me falar, pediu ele. Encheu um copo de água, sentou-se com a jovem. Nunca fui pai, mas avô vou ser, parece. Vai correr tudo bem. Pode ser que o soldado apareça e tenha um pai o nosso Francisco.
Francisco? sorriu entre lágrimas Benedita.
O que há-de nascer. Sinto que será rapaz. Se não for, tu lhe pões nome bonito.

A tranquilidade e alegria desmancharam a angústia. A vida retomou o compasso. Decidiram que Benedita interromperia o curso, teria ali o bebé, e depois regressaria. E quem ficava com o bebé se ela voltasse a estudar?
Nós, disse Estevão, simplesmente.

Benedita olhou-o com gratidão imensa. Leonor sentiu-lhe crescer uma esperança antiga.

Dá cá o nosso Francisco murmurava Estevão, pegando ao colo a bebé, que afinal era Francisca. Mas ele manteve o nome: logo todos usavam Francisco ou Chico e Leonor, entre resmungos e sorrisos, não o contrariava.
É uma Francisca, não um Francisco! ralhava, mas os olhos brilhavam.
Fica Francisco, já está decidido dizia Estevão, embalando, cantando uma cantiga inventada.

Leonor via o seu marido, forte de mãos mas manso de tom, mais ternurento do que alguma vez julgou possível. A raiva contra a filha por se afastar dissipava-se ao vê-lo tão carinhoso.
Não lhe leves a mal disse-lhe Estevão. Ela deu-nos este tesouro. Já não consigo imaginar a vida sem a nossa pequena Francisco.
Por vezes penso que é nossa filha suspirava Leonor, aninhando-se no ombro do marido.
Sinto o mesmo; aceitei que era tarde para ser pai. E, de súbito, um novo presente no fim da vida.

Benedita voltou ao curso quando a bebé tinha oito meses. Leonor passou a trabalhar por turnos, Estevão ajustou o horário. Ambos criavam a menina, felizes com o cansaço. O avô era uma ama nata sabia de tudo, até de dar banho e dormir.

Mãe, eras assim connosco? perguntou Graça, vendo-a afagar a neta ferverosamente.
Não. Antes era só trabalho, e estava amarga. Agora, com ele olhando Estevão a construir uma casinha para pássaros sinto-me mãe de novo.

Graça não guardava ressentimentos e adorava a sobrinha. O que não entendia era como a irmã deixara aquele milagre para trás com tamanha facilidade.

Os anos passaram. Francisca cresceu entre carinho e atenção. Sabia que a mãe, Benedita, estava na cidade, trabalhava. Os avós faziam questão de manter a imagem dela presente, mas era com eles que a menina se sentia segura.

As tentativas de Benedita para trazer a filha consigo, ora antes da escola ora mais tarde, para tomar conta dos gémeos que entretanto teve, encontraram resistência sólida. Pela primeira vez, Leonor disse à filha tudo o que guardara. Estevão, ao lado, declarou: Pela minha neta, luto até ao fim.
Benedita desistiu, resignada. Francisca nem chorou na despedida.

O local das raízes.

Francisca acabou a escola em Vale do Sobreiro e foi para a universidade. A mãe e ela tornaram-se quase estranhas, sem mágoa. A rapariga sabia o que tinha.

Tinha aquela casa antiga, sólida, o cheiro a pão quente e maçãs assadas. Tinha uma avó de mãos firmes e calorosas, e o avô Estevão, que a tratava sempre por minha Chicazinha querida.

Nas férias, Francisca regressava; o tempo ali era diferente, parado e denso. Ajudava na horta, sentava-se ao entardecer no alpendre que Estevão fizera, escutando histórias. Via os avós olharem-se num entendimento silencioso, cúmplices de uma vida inteira.

Numa noite, fitando o pôr-do-sol, Francisca perguntou:
Avô, nunca te arrependeste de ficar nesta aldeia e deixar a cidade?
Estevão abraçou Leonor.
Aldeia? Não, minha Chica. Não vim para aqui perder; vim para aqui encontrar o meu lar. As raízes não estão onde nasceste, mas onde encontraste quem te esperava, mesmo sem saber.

Leonor pôs a mão na dele e sorriu, iluminando o rosto austero.
E a flor disse, encarando um grande girassol encostado ao muro encontra o seu sol quando pensa já não poder florir.

Francisca contemplava aqueles dois, vidas entrelaçadas tão tarde mas de modo inabalável, e entendia: a verdadeira herança era aquele laço indestrutível. A força do amor que vence o tempo, a paciência de quem sabe esperar, e o sentido de lar não feito de paredes, mas de fidelidade, cuidado e perdão.

E percebeu que, não importa onde a vida a levasse, as suas raízes estariam sempre ali, naquele lar, debaixo daquele céu, junto àqueles dois girassóis envelhecidos que finalmente encontraram o verdadeiro sol. Um lar feito de calor, esperança e amor a mais firme fundação de todas.

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No distante ano de 1943, numa aldeia portuguesa, ela usava o luto pelo marido combatente com tal elegância que fazia as vizinhas rangerem os dentes de inveja. O novo pretendente parecia bom demais para ser verdade, e todos aguardavam pelo momento em que a máscara cairia. Ela caiu, mas não foi dele, e sim da filha adulta do casal, quando esta tentou recuperar aquilo que julgava lhe pertencer.