Nina Patrícia lembra-se bem do dia em que teve de decidir o destino de uma criança que não era sua. Era quarta-feira, o marido chegou mais cedo do trabalho, com um olhar carregado. Sem dizer uma palavra, o Victor estendeu-lhe um envelope.

Dona Mariana Fernandes lembra-se bem do dia em que precisou decidir o destino de uma criança que não era dela. Era uma tarde de quarta-feira em Lisboa, e o marido, Manuel, chegou do trabalho mais cedo do que o habitual, com um ar mais sombrio do que as nuvens de outono. Sem dizer palavra, estendeu-lhe um envelope.

O que se passa?
A Filipa já cá não está. Sem o meu acordo, não podem enviar o Tomás para a Casa dos Rapazes.

Que Manuel tinha um filho, Mariana soubera antes mesmo do casamento. História banal: durante o serviço militar, Manuel apaixonou-se por uma moça algarvia. Depois da tropa, levou-a consigo para Lisboa, alugaram um pequeno apartamento na Amadora. Mas a rapariga rapidamente fez as malas e voltou à terra natal.

Depois, mandou-lhe um telegrama: parabéns, tens um filho. O que não resultou entre eles, Manuel não quis partilhar, e Mariana nunca fez questão de saber em pormenor. O que passou, passou. Para quê remexer feridas antigas?

Quando Mariana estava de quatro meses de gravidez, a ex-namorada apareceu inesperadamente com o pequeno Tomás, já com um ano feito. Fez uma cena, quis regressar à vida do Manuel. Mas ele, firme, fechou-lhe a porta e ficou ao lado da esposa. Mariana não guardou ressentimento: como poderia zangar-se por algo que se passou antes de se encontrarem?

Filipa pediu pensão de alimentos, Manuel pagava sem falhar, depois ela nunca mais deu notícias. Só mais tarde souberam que a mulher casara duas vezes mais, não resistira ao último divórcio e, em desespero, pôs fim à vida.

Nessa altura, Mariana e Manuel já tinham dois filhos: o João, um ano mais novo que Tomás, e a pequena Mafalda, que tinha acabado de fazer o seu primeiro aniversário. Decidiram trazer ao mundo a Mafalda depois de comprarem finalmente a sua casa nos arredores de Setúbal.

Uma casa térrea, feita de madeira, sem grandes luxos, mas com quatro quartos, quintal, uma pequena horta e até um anexo para arrumos. Depois de anos em apartamentos apertados, aquela casa foi uma bênção! O João, eufórico, passou uma semana aos saltos pela casa e a correr pelo quintal.

Criar um filho de outro Mariana, claro, nunca pensara nisso. Do rapaz só tinha a vaga lembrança de há uns anos atrás, sem saber quem era, o que vivera, que histórias trazia. Com o seu João travesso, já era difícil, quanto mais com dois miúdos quase da mesma idade. Iriam dar-se bem? Manuel estava sempre fora, a trabalhar que nem mouro; os filhos ficariam praticamente só à sua responsabilidade.

Estas ideias passaram-lhe pela cabeça num instante. Manuel continuava calado, sentado no corredor, transfigurado pela dor. O coração de Mariana apertou-se pensou como agiria ela se o destino batesse à porta do seu João. Como seria negar-se a ajudar uma criança órfã do próprio sangue? Tudo fez sentido:

Manuel, claro que o Tomás vem connosco. É teu filho, é irmão dos nossos meninos. Não podíamos recusar, nem nos perdoaríamos. Onde comem dois, comem três. Havemos de dar conta do recado!

Um mês depois, Tomás chegou. Era um menino entregue, calmo, muito bem comportado. Estava longe de ser igual ao inquieto e traquinas João. Talvez tenha sido essa diferença que salvou a convivência: o novo irmão não ambicionou liderar, e logo encontrou lugar ao lado do mais novo. E a Mafalda, sempre divertida e meiga, era um anjinho que unia todos. Parecia gostar do mundo inteiro.

No outono seguinte, Tomás entrou para a escola primária. Revelou-se bom aluno; parecia que a mãe o tinha preparado bem para aprender. Financeiramente, custava a chegar ao fim do mês, mas Manuel esforçava-se, e logo depois Mariana também arranjou emprego. Os filhos cresceram, tornaram-se verdadeiros companheiros nos trabalhos da casa e do quintal. Viveram unidos, sem nunca separar os filhos de sangue dos de coração.

Quando Tomás entrou para a Faculdade de Ciências em Lisboa, Mariana adoeceu gravemente. Passou longos meses no hospital, submeteu-se a uma operação delicada. Teve medo, claro, mas nunca deixou que o desânimo a tomasse: pensava nos filhos, ainda a iniciar a vida, e prometeu a si mesma que iria recuperar para vê-los crescer e encontrar a própria felicidade. Queria tê-los consigo, ver netos a correr pela quinta. Manuel, contudo, não aguentou o desgosto e deixou-se cair no vinho.

Com dezoito anos, Tomás tornou-se o pilar da família. Passou a estudar à noite, arranjou trabalho onde pôde. Foi ele quem mais se chegou à mãe visitava-a quase todos os dias no hospital, lia-lhe os livros que ela gostava, perguntava como se cozinhavam os pratos preferidos do João e da Mafalda, e depois tentava reproduzi-los para ela provar. Sempre poupou Mariana às aflições, ocultando que o João se envolveria com más companhias e quase foi preso; a justiça acabou por dar-lhe pena suspensa.

Mariana recuperou. O casamento, porém, nunca mais foi o mesmo; não conseguiu perdoar as fraquezas e ausências do marido nos momentos mais difíceis. A casa era grande, foram ficando como vizinhos sob o mesmo teto. Manuel, por vezes, tentava melhorar, mas recaía de novo.

Há um ano, Tomás trouxe para casa uma nora. Era a mesma Inês, por quem estava apaixonado desde o infantário. Estuda Psicologia e logo assumiu a tarefa de tentar resgatar o sogro da bebida. A vida seguiu em frente. E agora, em breve, a risada dos netos vai ecoar pelo quintal pois há pouco, os jovens casados descobriram que vêm gémeos a caminho.

Mariana agradece todos os dias a Deus pelo filho mais velho e sente, no fundo do coração, que só está viva porque um dia encontrou espaço para o filho de outra mulher dentro do seu próprio peito.

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Nina Patrícia lembra-se bem do dia em que teve de decidir o destino de uma criança que não era sua. Era quarta-feira, o marido chegou mais cedo do trabalho, com um olhar carregado. Sem dizer uma palavra, o Victor estendeu-lhe um envelope.