Nessa noite, em vez de limpar o caldo de beterraba entornado, passei por cima da poça, abri o portátil e reservei a última vaga disponível para um retiro termal de 21 dias.

Amiga, deixa-me contar-te o que me aconteceu e, olha, nunca pensei que fosse capaz disto. Houve um dia cá em casa que foi mesmo o cúmulo: o jantar estava quase pronto, o João (meu filho de catorze anos) agarrado ao telemóvel, e o Miguel lá do quarto a perguntar-me pela terceira vez pelas meias azuis. Estava a aquecer um prato de caldo-verde quando, num descuido, deixei cair a concha e aquilo esparramou-se todo pelo chão da cozinha parecia a cena do crime, só faltava a fita da polícia.

Fiquei ali parada, olhar fixo para a sopa espalhada. Senti uma espécie de estalo cá dentro. Sabes aquela sensação de apagares um interruptor? Percebi, naquele instante, que eu própria me tinha apagado. Era só máquinas e tarefas automáticas: há máquina de lavar, há micro-ondas, há mãe-GPS que sabe onde estão as meias, mas Filipa desapareceu. Já não restava nada de mim.

Nessa noite nem tentei limpar a sopa. Pisquei por cima da poça, abri o portátil e, sem pensar duas vezes, comprei a última vaga para um termal no Algarve. Vinte e um dias, minha querida, vinte e um! Desliguei o som do telemóvel e só respondia às mensagens ao fim do dia: Estou em tratamentos. Vejam vocês. Beijinhos.

No dia seguinte, à mesa, disse em tom firme, entre talheres e arroz de frango comprado feito (primeira vez em cinco anos que não cozinhei), Depois de amanhã vou para um termal. O Miguel quase deixou cair o garfo, Como assim? E a escola? E as refeições? Quem faz? E eu disse-lhes, Vocês dão conta do recado. São crescidos. E eu não sou vossa funcionária.”

Sabes o que é curioso? Vistos de fora éramos a típica família normal: ele trabalha, eu também, mas o meu horário era diferente. Às seis deixava a empresa e, em casa, começava o turno dois aquele trabalho invisível de mulher, que os sociólogos já têm nome pomposo: carga mental. Não é só lavar a loiça, é saber se a Mariana precisa de ténis novos, se o João vai começar as alergias e precisa de medicação, lembrar o aniversário da minha sogra e as reuniões na escola. Mulher-orquestra, amiga, sempre a girar pratos sem cair um no chão.

Estatísticas? Nem preciso de as ler. A verdade é simples: nós cá em casa passamos, em média, mais duas ou três horas por dia na lida e nos miúdos do que os homens. No fim do ano, é como se tivesses trabalhado um mês sem parar dia e noite.

Mas eles não davam por nada, achavam que a camisola lavada aparecia magicamente na gaveta, que a comida nascia no frigorífico e a sanita brilhava porque sim. O meu trabalho era como o ar só se nota quando falta.

Os primeiros dias no termal foram de cortar o coração. A vista para o mar do Algarve era linda, massagens maravilhosas, mas o telemóvel nunca calava. Como é o programa delicado na máquina de lavar?, Onde está o seguro de saúde?, Mãe, o gato fez asneira, e agora?, Encomendámos pizza mas o MB está vazio, transfere dinheiro.

Lutei para não largar tudo e salvar a tropa. Estava tão habituada a controlar tudo que parecia que me faltava o ar. Achava mesmo, juro-te, que iam morrer à fome, afogar-se na sujidade ou deitar a casa a baixo.

No quarto dia sentei-me à mesa com uma senhora de sessenta e tal, parecia ter cinquenta. Ela, com ar sábio, disse assim ao mexer o chá: Filha, ninguém morre a comer esparguete três dias seguidos. Agora, muitas mães morrem de exaustão e responsabilidade. Dá-lhes espaço para crescer. Não lhes tires essa parte.

Nesse dia baixei o volume do telemóvel. Só lia as mensagens ao fim da tarde: Estou ocupada. Tratem das coisas. Adoro-vos.

Ao fim da segunda semana, comecei a lembrar-me de quem era. Lembrei-me de que adoro livros densos, sair sozinha, e até o sabor da comida feita pelos outros. Percebi também que fui eu que os habituei a isso. Joguei a heroína, a que resolve tudo, e facilitei-lhes tanto a vida que os deixei inúteis. Só havia uma solução: mudar radicalmente.

E assim foi. Quando voltei, estava nervosa. Subi até ao terceiro andar com o coração em bicos de pés. Abro a porta e, olha, não era casa era guerra! Cheiro a lixo, lixívia, arroz queimado, tudo misturado. Um caos de sapatos na entrada, casaco do João virado do avesso, mesa da cozinha a colar, um monte de loiça no lava-louça quase a tombar, restos de massa pregados na frigideira. Cesto da roupa espatifado, loiça e toalhas pelo chão, espelho da casa de banho todo manchado de pasta de dentes.

E na sala: Miguel, com cara de quem lutou na Batalha de Aljubarrota, olheiras até ao queixo, camisa amarrotada. Os miúdos sentados, derrotados, quase a pedir desculpa só com o olhar.

Olá disse ele, baixinho.

Esperei ouvir Como pudeste deixar-nos?, mas ele simplesmente levantou-se, veio até mim e encostou a testa ao meu ombro:

Filipa, não fazia ideia de como é que aguentavas isto tudo. É insano.

Nesse serão falámos de verdade pela primeira vez em anos. Descobri que pôr uma máquina implica pensar cores, tecidos, temperaturas (lá se foi o camisolão de lã novo do Miguel, ficou tamanho bebé), que a comida não aparece sozinha, que limpar é uma luta constante, quase sem vitória.

Pensei que enlouquecia. Chegava do trabalho e era só mais um turno: trabalhos de casa, fogão, panos Ia para a cama às tantas. Não percebo como aguentavas.

Não descansava, respondi-lhe. Nunca descansei.

O João, sempre resmungão, nem disse palavra. Levantou-se e foi esvaziar a máquina da loiça (provavelmente tinham ligado à pressa antes de eu chegar para mascarar o caos).

Esta minha fuga foi o crash test da família. Viveram real, sem rede. Viram o quão difícil é manter o básico todos os dias. Perceberam que o lar requer planeamento, esforço e que não é magia.

Nesse serão não limpei nada. Fui tomar banho, pus o meu creme e deitei-me de consciência tranquila.

De manhã, juntámo-nos na sala e decidimos, de vez, que cá em casa não há mais ajuda à mãe. Não é ajudar, é viver juntos. A casa é de todos. As responsabilidades também. E sabes que mais? Já estava na altura de todos crescerem.

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Nessa noite, em vez de limpar o caldo de beterraba entornado, passei por cima da poça, abri o portátil e reservei a última vaga disponível para um retiro termal de 21 dias.