Natasha não conseguia acreditar no que lhe estava a acontecer – o marido, aquele que sempre consider…

Leonor não conseguia acreditar no que se estava a passar consigo. O marido, o seu companheiro, aquele em quem confiava e encontrava apoio, hoje disse-lhe: «Já não te amo».
O choque foi tão grande que ficou paralisada, imóvel, sem qualquer reação, enquanto ele andava de um lado para o outro, a apanhar as coisas e a atirar as chaves em cima da mesa. Como se já não bastasse tudo o que lhe tinha acontecido ultimamente. O pai dela tinha falecido de repente há ainda pouco tempo, e, apesar da sua dor, teve de cuidar da mãe, já de cabelos brancos, e da irmã, que se tornou dependente aos 18 anos após um grave acidente. Viviam numa vila ali ao lado. O filho entrou agora na primeira classe. Em junho, a fábrica onde trabalhava fechou portas e Leonor ficou sem trabalho. E agora, o marido…
Leonor segurou a cabeça nas mãos, sentou-se à mesa e desatou a chorar.
Meu Deus, o que é que eu faço? Como vou viver? Ai, o Gonçalo! Tenho de ir buscá-lo à escola!
A rotina diária obrigou-a a levantar-se e seguir em frente, mesmo sem vontade.
Mãe, estiveste a chorar?
Não, Gonçalinho, não chorei.
Estás triste por causa do avô? Também sinto falta dele, mãe!
E eu, filho, ainda mais. Mas temos de ser fortes. O nosso avô era assim, sabes. Agora está descansado lá no céu, sempre mereceu um descanso, porque toda a vida trabalhou sem folgar.
E o pai?
O pai? Deve ter ido outra vez em trabalho. E tu, como correu a escola?
É preciso viver. Se não gosta de mim, não é possível obrigar ninguém ao amor. No meio da confusão, Leonor não se deu conta do que lhe escapou.
Enquanto Gonçalo almoçava e brincava com os seus bonecos, Leonor sentou-se diante do computador que o marido deixara para trás. Nunca tinha feito isso antes. O acesso ao email era simples, ali no canto esquerdo. Nem tempo teve o Vasco de apagar as mensagens do coração. Estava apaixonado realmente. E ela agora era a “desprezada”. Dez anos a ser chamada de meu raio de sol, e depois da longa luta para ter um filho, virou a nossa mãe.
Agora tudo mudara. Leonor sabia que tinha de se habituar.
Mas, antes de tudo, era preciso arranjar trabalho. A ninguém interessava o seu alto grau académico. Os poucos euros do subsídio de desemprego não resolviam nada.
O que terá acontecido, como foi possível que o marido tão sensato e responsável se tornasse um estranho num instante? Leonor só conseguia pensar que ele tinha perdido o juízo. A casa, construída aos poucos por eles, ainda estava inacabada. Felizmente, tinham teto, e havia um quarto decente.
Trabalho, preciso tanto de ti! Leonor estava quase a desabar outra vez, mas não tinha tempo nem para isso. Precisava de trabalho!
Procurou durante vários dias. Sem sucesso! O filho na primeira classe e o seu novo estado de solidão dificultavam tudo. Uma noite, ao fim de mais uma tentativa falhada, recebeu uma chamada do seu compadre, Rui:
Leonor, então olha, o teu não voltou?
Não.
E se fosses para armazém? Sexo feminino precisa-se.
Estás a falar a sério?
Olha que sei que depois do Vasco não andas para brincadeiras. Tem horários flexíveis. Podes ir buscar o rapaz à escola, ou meter na ocupação. O ordenado é 650 euros. Pouco, bem sei. Mas sempre é melhor que nada. Amanhã levo-vos batatas, cebolas e um frango.
Rui, ainda tenho algumas galinhas. São elas que nos mantêm, dão ovos.
Então deixa-as estar. Vão alimentando. Nada de abater galinhas, são preciosas.
Obrigada, Rui. E como está a Helena?
Aguenta-se, é uma guerreira. Não se queixa de nada apesar das provações.
Sempre foi assim. Sua mulher Helena sobreviveu a uma cirurgia difícil, fazia quimioterapia, e ele nunca se lamentou. Tudo estava bem nele. Leonor suspirou: ainda havia esperança. Só Deus nunca falha, e Ele vê tudo. Obrigada por tudo, Senhor, e pelo compadre.
O trabalho não era complicado. Leonor até arranjava uns minutos para estar sozinha, pensar, chorar, tentar perceber o que lhe aconteceu.
Os dias, depois semanas, e meses passaram. Ao fim de um ano, Leonor sentiu que conseguia comer, dormir, rir e alegrar-se com os sucessos do Gonçalo. A tristeza da traição do marido reavivava-se quando ele aparecia para levar o filho aos fins de semana. Leonor não impedia, não queria que a mágoa prejudicasse o filho. Tinha vontade de perguntar porque não era suficiente, embora soubesse que o motivo estava noutra mulher. Recordou uma frase de um filme: O amor dura até à primeira curva, depois começa a vida. Para ela, amor e vida eram indissociáveis. E para ele?
O outono parecia prolongação do verão: folhas verdes nas árvores, vozes infantis ecoando na rua, um jardim salpicado de dálias e crisântemos. Nesse dia, Leonor cruzou um olhar com Miguel que, à partida, nada tinha de especial, talvez só um sol mais brilhante e música vindo de uma janela vizinha, ou talvez fosse apenas destino unir dois que viviam em solidão.
Minha senhora, posso ajudar? Não deve carregar tanta coisa sozinha!
Já estou habituada.
É uma pena quando uma mulher tão bonita acaba com o costume de pegar pesos.
Ajuda todas as bonitas que vê por aí? Fica aqui à porta à espera?
Pois, por acaso fico, à espera da bela que finalmente apareceu.
Não houve como conter o riso. Riram até às lágrimas.
Miguel, apresentou-se, olhos ainda cheios de graça.
Leonor.
Leonor, Leonor, mulher doutros, já ouviu essa cantiga?
Não. E já não sou mulher de ninguém.
Isso sim, uma sorte! Só podia sonhar encontrar uma mulher como você, e afinal está livre. Estão todos doidos ou cegos?
Vejo que não lhe falta o sentido de humor. E para assuntos sérios?
Também estou à altura. Leonor, e se fôssemos ao cinema hoje? Conversar um pouco.
Não posso. Tenho de ir buscar o Gonçalo à escola.
Não acredito. Um filho? Mas parece ter uns vinte anos… Que escola?
Tenho 35.
Eu também! Que coincidência! Mas a verdade é que parece mesmo muito jovem.
E agora?
Agora penso. Todo o homem sonha ser pai de um rapaz. Mas você diz, assim, sem drama, que está sozinha. E o pai do seu filho?
Prefiro não falar nisso.
Percebo. Não falamos mais. Então ao fim de semana há tempo? Levo o seu filho ao cinema para crianças.
Ao fim de semana está com o pai.
Leonor, não quero pressioná-la. Se tiver umas horas livres, telefone-me. Aqui está o meu cartão. Por sinal, sou médico, hematologista pediátrico.
Trabalho importante e séria, sem tempo para caçar belas mulheres.
Exato. Ligue-me, Leonor.
Eu telefono, prometo.
Estarei à espera.
Que lindo era aquele outono! Só podia ser um presente para eles. Raios de sol, folhas coloridas a pintar o chão, dias amenos a abrir todos os parques da cidade. E a ternura que nasceu, rompendo mágoas, embalando-os na dança leve daquela estação. Aproximaram-se com tanta delicadeza que Leonor sentiu uma inesperada vontade de se entregar a Miguel. Quase seis semanas depois daquele primeiro encontro, foi ela quem sugeriu, hesitante, Vamos lanchar juntos?
Leonor, não se zangue, mas não quero ir a sua casa. Isto é demasiado importante. Deixe que me organize. Confia?
No fim de semana seguinte, partiram para uma quinta perto de Sintra, onde Miguel alugou um chalé parecido com um pequeno castelo. No interior, tudo arrumado e confortável, mas Leonor só via aqueles olhos castanhos e sentia-se perdida nos seus braços. Não sabia que a intimidade entre homem e mulher podia ser tão doce.
Miguel, onde estou, o que me está a acontecer? Parece que morro. Amo-te tanto. Como vivi sem ti? É tão bom o que sinto!
És linda! Nem acredito na minha sorte!
Mais uns meses, e cada despedida custava muito.
Leonor, casa comigo.
Miguel, ainda falta o divórcio, no fim do mês.
Então vamos casar logo a seguir. Não quero perder-te para outro.
Eu não sou de qualquer um. Tenho o meu amor. E, Miguel, sem grandes festas, só o registo e leva-me para esse castelo, onde sou e quero sempre ser tua mulher.
Vai ser como quiseres, meu amor.
O Rui e a Helena foram as únicas testemunhas. A mãe e a irmã enviaram uma mensagem carinhosa. Logo mudaram-se para um T2 alugado por Miguel, onde juntos fizeram obras e criaram um lar confortável. Miguel dedicou especial atenção ao quarto do Gonçalo. Já se conheciam bem, mas Gonçalo via a mãe e o pai como duas metades inseparáveis, e a relação com Miguel foi difícil.
Leonor, não te assustes, mas queria pedir análises ao Gonçalo. Parece demasiado pálido.
Miguel, não dramatizes. Ele sofre com tudo isto. Custou-lhe aceitar a separação, achou sempre que ainda podíamos voltar. Li que para uma criança o divórcio é pior que perder um dos pais.
É verdade. Eu próprio vivi isso em pequeno. Mas vamos fazer a análise, pode ser?
Nesse dia Miguel chegou a casa cabisbaixo. Leonor percebeu logo que havia problema.
Leonor, acalma-te. As análises do Gonçalo mostram alterações. Eu tinha razão para desconfiar, infelizmente. Amanhã levo-o comigo.
Parece que, por cada felicidade, tínhamos de pagar preço alto. E que preço! Leucemia. Uma palavra terrível!
E começou outra vida. Leonor pediu licença sem vencimento. Imaginava Gonçalo a tentar aguentar agulhas, análises, soro nem pensava em deixá-lo sozinho. Segurava a mão do filho, dizia-lhe: Aguenta, meu querido! És forte! És sempre o meu melhor amigo! Nunca estivemos separados, e juntos ficaremos!
Quando Leonor já não aguentava, Miguel mandava-a descansar e ficava ele com Gonçalo. Nem sempre conseguia dormir, só ficava deitada a olhar o teto.
O ex-marido ligou a exigir que saísse da casa inacabada.
O rapaz passa a vir ter comigo à minha casa.
Devias antes ir vê-lo.
Não posso. Estou de viagem em trabalho.
Miguel ouviu e acariciou-lhe o ombro:
Leonor, juntos vamos conseguir tudo. Não fiques fixada no passado.
Dói. Investi tudo ali, e bem ganhei. Mas agora não importa. É mesmo sobre isso que ele quer falar, a tirar-me de casa?
Nem penses nisso. Investe todo o pensamento no Gonçalo. Eu trato do resto. Sempre quis família, Deus bem sabe. E não nos vai deixar.
Miguel, e os exames?
Fazemos tudo, mas continuam preocupantes.
Leonor chorou sem som. Era preciso não deixar Gonçalo perceber que havia problemas.
Tio Miguel, o que se passa com o meu sangue?
Olha, no nosso sangue há navios brancos e navios vermelhos. Os teus andam numa batalha.
Quem vai ganhar?
De momento, os brancos.
E depois?
Ajuda os vermelhos.
Mãe, leva-me para longe. Estou tão cansado.
Leonor, também acho boa ideia. Vamos com Gonçalo para o nosso castelo. O tempo está bom, passeamos pelo bosque, ele recupera.
A primavera chegou, cheia de arbustos floridos e árvores em botão. Os três passearam na floresta, celebraram cada flor, cada folha. Mas havia momentos em que Gonçalo parava com olhar longínquo.
Que tens, filho, sentes-te mal?
Mãe, não interrompas. Estou numa batalha naval.
O tempo de descanso passou depressa. O rapaz mudou: estava mais fresco, até corado.
Mãe, onde está o pai?
Em trabalho, filho.
Outra vez? Pronto.
Na clínica, refizeram análises. A chefe do laboratório foi ela mesma falar com Miguel.
Doutor Miguel, onde levou o seu filho?
Fomos aqui perto, para junto do bosque. Porquê? O que se passa com o sangue?
Tudo ótimo. Está em remissão. Análises excelentes.
Miguel entrou a correr no quarto.
Gonçalo, que fizeste, rapaz? Vais ficar bom! Leonor, não chores, ele está a recuperar. Como brincaste, filho?
Pai, lembras-te dos navios que me contaste? Ganhei sempre as batalhas com os vermelhos.

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