Olha, tenho de te contar como foi levarmos o nosso gato Sebastião connosco para passar férias na aldeia. Este Sebastião é um gato da cidade, muito fino, e fomos todos atrás, já sabes, para a terra da família lá no interior de Portugal. Acontece que, lá na aldeia, vive o irmão gémeo do Sebastião chama-se Dinis, mas toda a gente lhe chama Bugalho por causa daqueles olhos grandes, sempre arregalados, que parecem saltar das órbitas. Na aldeia ninguém tem papas na língua, é tudo à portuguesa mesmo.
Ao princípio, coitado do Sebastião, não teve vida fácil. Apesar de não ser lá muito grande, o Bugalho decidiu meter respeito afastava o irmão da comida e bufava que nem um gato no veterinário, parecia aqueles convidados maldispostos num programa da manhã da SIC.
Um dia, o Bugalho cometeu aquele erro clássico de pensar que mandava em tudo e tentou atacar o Sebastião à descarada. O Sebastião, com aquele ar meio blasé, abanou uma patinha como se estivesse a afastar um fã importuno, mas de repente acerta-lhe com um safanão de direita. O Bugalho foi parar dentro do balde do lixo, parecia mentira! Sem querer, como tudo na vida do Sebastião, acabou por passar a ser o rei do pedaço ali na aldeia.
Ali pelas terras, os gatos são tratados de forma muito prática, percebes? São para caçar ratos só não mandaram o Sebastião para as leiras porque estava um frio de rachar, já em pleno inverno. A comida aos gatos cá é à portuguesa: criativa, mas sem horários certos. O Sebastião, habituado a comer sempre à mesma hora, servido num pratinho bonito pelo empregado, ficou logo tonto. O stress foi tanto que começou a recuperar logo aquele instinto selvagem. Apanhei-o várias noites com a cabeça enfiada na panela, em cima do fogão.
O Bugalho ficava sentado no banco da cozinha, todo tenso, sempre alerta, e bufava, para avisar o irmão se eu me aproximava. O Sebastião olhava para mim, miava baixinho, tipo: “Não te preocupes com este, é dos nossos devias ver como ele anda à noite enfiado no frigorífico à procura de qualquer coisa para petiscar”.
Um dia achámos que o Sebastião já estava preparado e levámo-lo cá fora, sentámo-lo na neve sim, tinha mesmo nevado naquela semana, acredita que acontece e quando ele se virou para nós, só se via a carinha branca e uns olhos de um desgosto tão grande, que parecia mesmo o Al Pacino naquela cena famosa do “Scarface”. Não tivemos coragem de o meter lá fora outra vez.
Numa noite, estava eu na sala com o meu filho António e os amigos dele lá da terra. Sentámo-nos todos à volta da lareira e eu estava a ler-lhes “A Noite de São João”, do Almeida Garrett. Quando cheguei à parte em que a madrasta se transforma numa gata preta e arranha o soalho, de repente ouvimos aquele ranger estranho da porta do nada, aparece o Bugalho a entrar de peito feito.
O pior é que o Sebastião tinha ensinado ao irmão o truque supremo dele: abrir qualquer porta com a pata. A sala era minúscula, mas conseguimos todos fugir aos tropeções. Um dos miúdos ficou enfiado na janela, ficou só agarrado porque a avó que o alimenta tão bem o puxou antes de cair cá para fora.
Ah, pois, esqueci-me de dizer: o Bugalho é absolutamente preto, um preto que mete respeito! Diz lá que não é de admirar que, até hoje, os miúdos ainda se lembrem daquela noite como uma verdadeira história de terror feita à nossa moda até parece mentira que um clássico tenha tanto impacto assim nesta geração.






