Naquela manhã, Miguel ficou pior. Mal conseguia respirar. — Nuno, não quero nada. Nenhum daqueles …

De manhã, o Manuel Sérgio estava pior. Mal conseguia respirar.

Tiago, não me tragas nada, está bem? Nada de medicamentos. Só te peço um favor, deixa-me despedir do Amigo. Por favor. Desliga-me isto tudo

Ele olhou para os soros com tristeza.

Não consigo partir assim. Percebes? Não consigo

Uma lágrima desceu-lhe pela face. O Tiago sabia: se o desligasse, Manuel provavelmente nem teria forças para chegar à porta.

Juntaram-se alguns homens do quarto à volta deles.

Tiago, não há mesmo maneira de dar a volta? Não se faz isto

Eu sei Mas isto aqui é o hospital, está tudo esterilizado.

Que se lixe Olha para o homem, não consegue ir em paz.

Tiago compreendia tudo. Mas que podia ele fazer? Depois levantou-se. Podia fazer tudo sim. Que se lixe a discussão, que se lixe aquela empresa do pai. Se era para o despedirem, que o despedissem. Virou-se para sair e viu o olhar da Inês havia admiração nos olhos dela.

Tiago saiu disparado para o exterior.

Amigo, vais ter de ser muito discreto. Pode ser que ninguém dê por nada. Anda cá, vamos ao Manuel.

Quando ia abrir a porta, apareceu a Dona Catarina, a diretora.

O que é isto, Tiago?

Dona Catarina Por favor, só cinco minutos. Deixe-os despedirem-se. Eu sei que me pode despedir mas por favor.

Ela ficou calada um momento. Quem sabe o que lhe passou pela cabeça, mas acabou por dar um passo para o lado.

Está bem. Que me despeçam a mim também, se quiserem.

Amigo, anda!

Tiago correu pelo corredor do hospital, o cão atrás dele. Lá ao fundo, a Inês abriu a porta. O Amigo, percebendo alguma coisa, deu dois saltos e já estava ao lado da cama do Manuel, de patas dianteiras apoiadas no colchão. No quarto, um silêncio sepulcral. O Manuel abriu os olhos, tentou levantar a mão, mas os cabos não deixavam. Na outra mão, tirou-os todos num gesto só.

Amigo! Vieste

O cão pousou a cabeça no peito do Manuel. Ele conseguiu acariciá-lo uma vez, outra vez Sorriu. O sorriso ficou-lhe preso nos lábios. A mão caiu a escorregar. Alguém murmurou:

O cão está a chorar

Tiago aproximou-se. E sim o Amigo chorava mesmo.

Pronto. Anda Vamos

***

Tiago sentou-se num murinho, enquanto o Amigo se foi deitar aos seus pés junto aos arbustos. Aproximou-se o senhor do quarto, aquele que em tempos lhe tinha dado os croquetes do almoço. Estendeu-lhe um maço de cigarros. Tiago olhou para ele, ia dizer que não fumava, mas desistiu. Acendeu um.

A Inês sentou-se ao lado. Os olhos vermelhos, o nariz inchado.

Inês Hoje é o meu último dia.

Porquê?

Olha, primeiro vim para aqui como castigo, depois porque queria provar ao meu pai que era capaz Ele ia-me passar a empresa. Mas não é isso que importa. Não consigo continuar. Vou para casa. Vou encarar o meu pai, dizer-lhe o teu filho não presta. Desculpa, Inês

Tiago foi-se embora. Fez o pedido formal, arrumou as coisas. Inês ficou a vê-lo pela janela, parar o seu Mercedes à porta, sair, abrir a porta do pendura e dirigir-se aos arbustos. Conversou com o Amigo, depois voltou ao carro, encostou-se à capota e esperou. O cão chegou passado uns minutos, olhou nos olhos dele, saltou para dentro do carro.

Inês chorou de novo.

Tu não és inútil! És o melhor!

***

Passaram uns dias e a Inês viu o diretor do hospital a atravessar o corredor com um homem muito parecido com o Tiago. Desceu as escadas a correr e saiu.

O senhor é o pai do Tiago?

O diretor olhou-a admirado.

Inês, o que se passa?

Espere aqui, Dr. António, pode despedir-me depois! O senhor é o pai dele?

O Engenheiro Vasco também olhou surpreendido para aquela rapariga cheia de sardas.

Sou.

Não tem o direito, ouviu? Não tem! O Tiago é o melhor de todos. Foi o único que teve coragem de deixar um homem despedir-se do seu melhor amigo antes de morrer. O Tiago tem coração e tem alma!

Virou costas e entrou no edifício. O Engenheiro Vasco sorriu.

Viu bem?

O Dr. António respondeu:

E o que se faz a uma miúda destas? É boa rapariga, mas quer sempre a verdade!

Isso é mau?

Não é sempre bom

***

Três anos depois.

Da porta de uma casa bonita saiu uma família. Tiago empurrava o carrinho do bebé, a Inês levava ao lado o enorme, brilhante Amigo na trela. Foram até ao rio, onde ela soltou o cão.

Amigo, não vás longe!

O cão correu em direção à água. Passados dois minutos, o bebé começou a choramingar e o Amigo voltou em grandes saltos direto ao carrinho.

A Inês riu-se.

Tiago, acho que não precisamos de ama. O que é que foi, Amigo? A Sónia só perdeu a chupeta.

O bebé voltou a adormecer, o Amigo espreitou o carrinho, certificou-se de que estava tudo bem e foi correr atrás das borboletasTiago ajoelhou-se ao lado do carrinho, pegou na chupeta e colocou-a de volta. O Amigo, satisfeito, deitou-se na relva, vigiando cada movimento da pequena Sónia. O sol refletia-se nas águas calmas, brilhos dourados dançavam pelo campo.

Sabes, Inês disse Tiago, nunca pensei que iria ser feliz assim.

Ela encostou a cabeça no ombro dele, sorrindo.

Afinal, foi o hospital que nos curou a todos.

O Amigo levantou-se num salto alegre, sacudiu-se, e latiu para as nuvens, como se também ele entendesse que cada despedida no passado era só o começo de coisas novas.

Na margem do rio, com o mundo em paz à volta deles, Tiago fechou os olhos e sentiu que, pela primeira vez, estava inteiro.

A Sónia agarrou o dedo do pai com força. O Amigo veio encostar o focinho à perna dele. Inês deu a mão ao Tiago e, juntos, permaneceram ali, sem pressa, a ver o tempo passar certos de que, enquanto houvesse coragem para fazer o que era certo, nenhum adeus seria definitivo. E o amor, esse, encontraria sempre forma de ficar.

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Naquela manhã, Miguel ficou pior. Mal conseguia respirar. — Nuno, não quero nada. Nenhum daqueles …