Não vou mais viver convosco! Nunca nada está bem para vocês! – Joana olhava para a mãe com raiva e mágoa. – Uma coisa era quando era criança: não vás ali, não faças isto, mas agora tenho vinte anos, mãe!

Não aguento mais viver com vocês! Está sempre tudo errado! Mafalda fitava a mãe, zangada e magoada. Uma coisa é em criança: não vás para ali, não faças isto, mas agora tenho vinte anos, mãe! Vinte! Já sou maior de idade há dois anos!

Se já és maior de idade e não queres mais viver cá em casa, então arranja trabalho, aluga uma casa e paga as tuas contas. Esta é a minha resposta, filha.

Engraçado! bufou Mafalda. Passa a vida a dizer: estuda, filha, não penses em festas, mas agora queres é que eu arranje trabalho. E os estudos, não interessam? Pensaste em ajudar a tua filha?

Sempre foste independente nas tuas escolhas. O pai apoiou a mãe. Não pedes conselho a ninguém. Então, se não queres que nos metamos na tua vida e que te digamos o que deves fazer, está na altura de viveres por tua conta.

Claro que aquela situação não agradava totalmente à Mafalda. A mãe não a obrigava a limpar nem cozinhar, o pai pagava as contas da casa, comprava mantimentos e ainda lhe depositava uns euros na conta quando podia. Aquela vida era fácil e sem chatices. Se ao menos os pais não se intrometessem tanto

Mas a teimosia típica da família não a deixava recuar. Dizem até que uma das trisavós da Mafalda tinha sido revolucionária ferrenha e sempre que alguém reclamava da rebeldia da miúda, lembravam-se dessa história.

Conseguiu arranjar trabalho e alugou um pequeno T1 perto da universidade. Só então percebeu na pele o que era ter falta de dinheiro. Antes, ouvia estas coisas só de passagem: conversas no autocarro, nas discussões dos amigos dos pais ou naqueles programas da televisão em que se dizia Nem chega para o básico.

A renda da casa comia quase todo o seu ordenado e nem era lá grande coisa para começar , e depois ainda tinha de comprar comida, pagar o passe e tantas outras despesas. As festas barulhentas com que tanto sonhara passaram logo para segundo plano. Sem se aperceber, Mafalda começou a dar valor ao que ganhava e a ver as implicâncias dos pais de outro modo.

Numa dessas noites, voltava do trabalho. À frente iam dois jovens, rindo alto e fazendo trocadilhos ordinários. Mafalda só abanou a cabeça: será que têm algum juízo?

Mais adiante, numa escada ao lado de uma lojeca fechada e decadente, estava sentada uma idosa que via muitas vezes ali. A senhora, de olhar pensativo, murmurava baixinho, difícil de perceber, e aos pés tinha uma latinha de conserva onde, de quando em vez, alguém punha umas moedas. Com os pagamentos digitais, já raros são os que andam com moedas nos bolsos. Mesmo assim, Mafalda fazia sempre um esforço para guardar umas moedas para a senhora. Nem sabia bem porquê. Antes, nunca teria olhado para uma pedinte sequer.

Mas nem era correto chamá-la pedinte. Apesar da roupa gasta e da lata, havia dignidade naquela mulher. Agradecia sempre com um aceno a quem lhe dava qualquer coisa, e continuava ali, tranquila, no seu lugar.

Os rapazes, ao passar por ela, torceram o nariz. Um deles deu um pontapé na lata, que foi a rebolar, espalhando as moedas pelo chão. A idosa esforçou-se por se levantar e, com dificuldade, pôs-se a apanhar uma a uma. Os dedos tremiam-lhe, mas não desistia.

Mas o que fazem vocês, seus parvos?! exclamou Mafalda, correndo logo a ajudar a senhora.

Os rapazes riram-se, gritaram qualquer coisa feia e seguiram o caminho.

Aqui tem Mafalda entregou as moedas à mulher, e ainda lhe deu uma nota do que trazia na carteira.

Obrigada, minha querida respondeu, em voz baixa, e olhou-a de frente. Surpreendia ver como os olhos se mantinham jovens e atentos. Já te tinha reconhecido és tu que de vez em quando pões aqui dinheiro, não és?

A idosa passou a mão pela lata amolgada.

Ficou toda amassada. Vai ser preciso arranjar outra.

Mafalda reparou que a senhora parecia mesmo pouco bem.

Mora longe daqui? perguntou.

A idosa abanou a cabeça:

Não. Vês ali aqueles prédios? Moro num deles.

Se quiser, eu acompanho-a. Vejo que está com dificuldades Mafalda esticou o braço.

O coração apertou-se-me suspirou a mulher, apoiando-se na rapariga. Não te vou demorar.

Logo à entrada do pequeno apartamento, no terceiro andar, foram recebidas por uma verdadeira multidão de gatos. Mafalda até perdeu a conta.

Doze comentou a idosa, percebendo a surpresa. Nunca pensei ter tantos na vida.

Para quê tantos?

Não são para mim, querida. Sou eu que lhes faço falta. Sem mim, já estavam todos mortos. A Capucha e a Lúcia largaram-nas junto ao lixo num inverno terrível. Fui deitar o saco fora e deparei-me com as pobres. A Lúcia ainda miava, a Capucha já mal respirava. A Pompom veio-me parar às mãos depois de lho tirar a uns miúdos; o Romeu apareceu por cá abandonado. A Fénix deu à luz na cave. Tive de a trazer com os gatinhos para cima, antes que alguém lhes fizesse mal Achas que perdi o juízo?

Não, claro que não Mafalda corou. São mesmo muitos. Dá trabalho alimentá-los.

Por isso vou pedir à rua assentiu a idosa.

Daquele dia em diante, tornaram-se amigas improváveis. Mafalda já não conseguia ignorar o que acontecia à sua volta. Passou a visitar a Dona Helena Vilarinho, como soube chamar-se a idosa. Partilhou a história dela nas redes sociais. E, para sua surpresa, no meio de comentários maus, começaram a aparecer mensagens de carinho e ofertas de ajuda. Depois, vieram ainda mais.

Filha perguntou o pai, com um ar desconfiado para que é isso tudo? Nunca foste grande fã de bichos

Papá, não tem a ver com gostar ou não de animais. Em casa nunca se falou disto, nem sequer imaginei que vocês deixassem ter um cão ou um gato cá. Por isso nunca perguntei. Agora penso: porquê?

Mafalda ficou calada antes de acrescentar:

A Dona Helena ela disse-me que não são os gatos que precisam dela, é ela que precisa deles. E tem razão, papá. Sem ela, já tinham morrido todos.

E agora, o que vais fazer? Encher a tua casa de gatos e ficares para tia velha? irritou-se o pai. Antigamente chamava-se velha dos gatos a quem fazia isso.

Não vou encher casa nenhuma respondeu Mafalda, secamente. Queria ajudar, talvez ficar com um, mas a senhoria não deixa animais. O que faço é só o que posso.

Tu não fazes nada de mal suspirou o pai. Mas desperdiçar a vida assim Filha, nós só temos pena de ti.

Não tenham pena, estou bem respondeu ela, com simplicidade.

Continuou a ajudar Dona Helena. Com a divulgação online, conseguiu encontrar donos para quatro gatos novos os filhotes da Fénix, antes ameaçados de morte. Mas os restantes ficaram com a Dona Helena. Quase todos já velhos e ninguém os queria. E a senhora, pelo tempo, afeiçoara-se ainda mais.

Mafaldinha, se me acontecer alguma coisa, não lhes faças mal. Por favor. Não tenho a quem mais confiar. És a mais próxima que tenho.

Mafalda nunca perguntara porque ela vivia só, até ao dia em que Helena, sem conseguir esconder a dor, contou: seu único filho se divorciara e fora diagnosticado como incapaz de ter filhos. Depois morreu em serviço. Ficou completamente só. Só ela e os gatos. Nunca deixou para trás quem precisasse.

Um fim de tarde, Mafalda foi vê-la, mas ninguém abriu a porta. Preocupada, chamou a vizinha do lado.

Olá! Por acaso viu a Dona Helena hoje?

Mafalda? Não, não a vi sair. Senti-a indisposta esta manhã. Ai, que não me cheira bem Espera, tenho uma chave.

Dentro do apartamento, Dona Helena estava deitada, rosto sereno como nunca, já sem vida. As rugas suavizadas, os gatos em silêncio, cercando-a.

Que Deus a tenha, a nossa Dona Helena murmurou a vizinha, fazendo o sinal da cruz. Mafalda chorou era a primeira vez que perdia alguém assim.

E agora? O que é suposto fazer? repetia, perdida.

Mafalda, olha, ela deixou-te um bilhete em cima da mesa.

Entre lágrimas, leu as letras trémulas: Helena deixava-lhe a casa e pedia que não abandonasse os gatos.

Só a ti posso pedir isto, minha menina

Jamais imaginara quanta burocracia envolvia um testamento. Tê-la-ia custado bem mais não fosse o Salvador.

Salvador fora o primeiro a comentar o seu post sobre os gatos, oferecendo encorajamento. Trocaram mensagens, encontraram-se. Na família dele sempre houve bichos de estimação, ao contrário dos pais de Mafalda. Ele era voluntário num canil e participava ativamente em campanhas. Graças à sua ajuda conseguiram adotar os quatro gatinhos da Fénix.

Salvador estudava direito um apoio precioso nos dias difíceis que se seguiram.

Mafalda, que maravilha! exclamou a amiga Leonor. Tens um apartamento só teu! Agora pede ao Salvador para pôr os gatos num abrigo, e está feito.

Leonor, não posso! assustou-se Mafalda. Prometi à Dona Helena que não os deixaria.

Ela já morreu, não vai saber respondeu Leonor. A casa já é tua. Vais dar cabo da tua vida a tomar conta desses bichos? E se vivem muitos anos ainda?

Se viverem, viveram. Prometi a ela. E gosto deles. São tão meigos.

Falas como uma velha riu-se a amiga. Até o teu pai te chamou tia dos gatos! Qualquer dia ficas sozinha, ninguém te vai querer.

Leonor, não tenho ninguém, sabes bem

E não vais ter! sentenciou a outra. Mas faz como quiseres.

Os pais também não aprovaram:

Uma casa é coisa boa, mas isto tudo é estranho demais resmungou a mãe, inquieta. Uma desconhecida deixar um apartamento à filha dos vizinhos.

O que esperavas? atalhou o pai. A velhota era maluca. Enganou a rapariga. Deixou-lhe um encargo impossível.

Não foi impossível nenhum! atalhou Mafalda. Ela só quis fazer o melhor!

Para os gatos, não para ti!

Saiu de casa dos pais de coração apertado. Todos contra ela. Sugeriam sempre abandonar os gatos na rua.

Mafalda, espera! Salvador apanhou-a perto do prédio. Olá! Estás em baixo porquê?

Também achas que sou tola? perguntou ela, direta.

Porquê?

Por causa dos gatos. Toda a gente diz que destruí a minha vida ao aceitar a casa. Que devia era correr com eles. Salvador, ainda vou a tempo de rejeitar a herança, não vou?

Rejeitar? Salvador olhou-a sem julgamento. A Dona Helena confiou em ti porque percebeu que és uma boa pessoa. Noutra situação, já estavam todos na rua, ou pior.

Não achas estranho o que fiz?

Não. Hoje em dia raramente se encontra quem seja mesmo honesto e preocupe-se com os outros. Até tenho novidades alguém respondeu ao meu post sobre a Dona Helena, quer adotar mais dois gatos! Vim cá precisamente para te contar.

A sério? Mas e se não cuidarem bem deles?

Vêm cá, conhecemo-las não te preocupes.

Quando casaram, ficaram com quatro dos doze gatos. O Romeu ficou com a vizinha:

Sempre gostei desse gato. É meigo, e vocês não vão longe.

Outro ficou com os pais de Salvador:

A minha mãe e o meu pai estão habituados dizia ele, a rir-se , sempre cresci com bichos.

Quando Mafalda regressou da maternidade com o pequeno Mateus nos braços, os gatos Capucha, Lúcia, Pompom e Fénix formavam fila no corredor.

Já temos as ama-gatas à espera! brincou Salvador. Ou são as nossas gato-avós?

Olá, meus queridos cumprimentou Mafalda, enternecida , sentiram a minha falta? Assim que o Mateus adormecer, já aí vou. Vocês são mesmo o meu melhor legado.

Aprendi, naquele tempo todo, que aquilo de que as pessoas realmente precisam não é bonito nem fácil, mas quem tem coragem de cuidar dos outros humanos ou animais sabe, por fim, o que significa fazer a diferença.

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Não vou mais viver convosco! Nunca nada está bem para vocês! – Joana olhava para a mãe com raiva e mágoa. – Uma coisa era quando era criança: não vás ali, não faças isto, mas agora tenho vinte anos, mãe!