O homem cuidava sozinho da sua filha, Mariana. O único desejo dele era que ela se tornasse uma pessoa verdadeiramente digna e honrada. Nunca poupou esforços nem euros para isso, trabalhando arduamente todos os dias para lhe dar tudo o que precisava. A vida de Mariana nunca foi fácil, pois perdeu a mãe muito cedo.
Mariana ressentia-se da ausência materna, e o modo como era obrigada a viver. As outras crianças, insensíveis, gozavam com ela na escola, a ponto de a fazer chorar e alimentar preocupações sobre o seu futuro. O pai tranquilizava-a sempre, tentando mostrar-lhe que a vida tem formas imprevisíveis de se desenrolar. Amava-a com todo o coração e, nesses momentos de dor, mostrava-lhe esse amor com uma intensidade comovente.
O momento mais mágico do ano para Mariana era sempre a véspera de Ano Novo. Antecipava a data como quem espera por milagres, sonhando que todos os seus desejos seriam realizados. Na escola davam presentes aos alunos e organizavam festas de mascarada, em que todos vestiam trajes bonitos ou disfarces criativos. O pai, António, enfrentava sérias dificuldades financeiras, mas nem assim deixava de fazer tudo o que podia para que Mariana brilhasse nesse dia. Numa dessas ocasiões, conseguiu comprar-lhe um vestido tão encantador que ela virou estrela na festa; os colegas de turma não pouparam elogios, admirados com a sua aparência. Mariana estava radiante, enchendo o pai de agradecimentos e alegria.
O tempo passou e Mariana cresceu. Terminou o secundário e partiu para Lisboa, onde ingressou na universidade. Sempre fora uma jovem inteligente, determinada, e tudo correu conforme planeara. Na capital, a nova vida tocou-a profundamente: começou a dar valor ao dinheiro e tornou-se calculista, preocupada com posses e conforto. Conheceu homens que a bajulavam, dispostos a gastar euros em restaurantes caros, presentes e luxos.
Quando Mariana engravidou, preparou o casamento sem hesitar, feliz por ter escolhido um companheiro abastado. Contudo, não cogitou sequer convidar António nem outros familiares para a cerimónia. Ao invés, enviou-lhe uma mensagem curta, explicando que o evento seria exclusivo para gente rica e, de forma cruel, sugerindo que ele não pertencia a esse mundo.
António ficou devastado com a atitude da filha. Durante anos sacrificara tudo, oferecendo-lhe apoio, amor e esperança. Era justo receber tal desprezo? Depois de muito ponderar, decidiu ir à cidade.
No final da cerimónia, chegou a vez das felicitações. António aproximou-se de Mariana, entregou-lhe um pequeno ramo de flores campestres, beijou-lhe a testa e desejou-lhe sorte. Sem dizer mais nada, virou costas e saiu.
Mariana ficou paralisada, como tomada por um frio súbito. Sentiu um profundo remorso pela forma injusta e ingrata como tratara o próprio pai, a pessoa mais próxima e importante da sua vida. Incapaz de suportar o peso da culpa, correu atrás dele pelas ruas de Lisboa, chorou e pediu perdão, garantindo que nunca mais voltaria a repetir gesto tão cruel.







