Olha, deixa-me contar-te o que me aconteceu outro dia no autocarro aqui em Lisboa. Estava a chover a potes lá fora, aquele céu tão cinzento típico, o pessoal ia todo sossegado, cada um no seu canto, absorto nos seus pensamentos, como acontece sempre. Numa das paragens, entra um senhor sem-abrigo. Devia ter uns cinquenta anos, mas parecia ter bem mais, todo magro e com as roupas sujas, o cabelo desalinhado. O cheiro dele espalhou-se rapidamente por todo o autocarro, foi impossível não reparar.
E ele, com aquela voz já cansada, pede:
Minhas senhoras e meus senhores, se faz favor, podem ajudar-me com umas moedas para o pão? Já não como há três dias.
A maioria fingiu que nem o ouviu, outros remexeram nas carteiras, à procura de algumas moedas.
De repente, um homem lá do fundo levanta a voz:
Tá sem dinheiro para comer? Trabalhe, homem! Até quando vais viver à custa dos outros? Eu próprio fui despedido hoje, não me vês de mão estendida. E ainda por cima ando a pagar prestações do apartamento aqui em Odivelas!
Olha, o homem até estava bem vestido claramente a passar um mau bocado, mas nota-se que não lhe falta dignidade. O sem-abrigo baixou os olhos, envergonhado, e enfiou as mãos sujas nos bolsos. De repente, tira de lá umas moedas, provavelmente todos os seus trocos, e estende-as ao outro.
Fica com isto, amigo, tu precisas delas mais do que eu. Gente de bom coração há muita, há-de aparecer alguém para me ajudar, vais ver.
Disse isto e ia já sair do autocarro. O outro homem levantou-se num salto, foi atrás dele, querendo devolver-lhe as moedas. Ficaram todos ali calados, o autocarro inteiro a assistir sem saber bem o que fazer.
O homem alcançou-o ao pé da porta, ainda a tentar explicar-se, mas o sem-abrigo sorriu-lhe e recusou as moedas.
A vida é uma coisa incrível, sabes? E ainda há muita gente boa neste mundo. O importante é sabermos tirar prazer de cada momento, mesmo dos maus, disse ele, pensativo.
O passageiro ficou ali parado, com as lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto. Percebi que aquilo lhe tinha tocado mesmo, deixou-lhe uma marca profunda. Ficou a abraçar aquelas moedas, que afinal valiam muito mais do que simples euros.







