– Não tem problema, Zé! Não fiques triste! Pelo menos recebeste o Ano Novo com grande estilo!

Não importa, Zé! Não fiques triste! Pelo menos recebeste o Ano Novo em grande estilo!

Eis a cidade natal. José desceu do comboio, saiu para a praça da estação e dirigiu-se à paragem de autocarro. Não avisara a mulher que chegaria naquele dia.

O humor de José não era dos melhores, pois sabia que teria uma discussão desagradável com Joana. A mulher recriminá-lo-ia outra vez, queixar-se-ia, diria que ele era um egoísta indiferente.

Mas indiferente porquê? Ele, aliás, queria cumprimentá-la pelo Ano Novo, mas ela desligara o telefone. Ofendera-se!

Três dias tentara ligar-lhe, sem resposta. Bem, então ele também se ofendeu e deixou de tentar.

E, já agora, ela nem sequer se lembrou de cumprimentar os pais e a irmã dele, quanto mais a ele. Iria dizer-lhe isso assim que entrasse em casa.

Ela não era a única com culpastambém tinha os seus defeitos, por isso que respondesse! Como se diz? A melhor defesa é o ataque.

José animou-se e entrou no prédio com um espírito combativo.

O apartamento recebeu-o em silêncio.

Olá! Há alguém vivo aqui? Joaninha, cheguei! gritou, mas ninguém respondeu.

Olhou para a cozinhavazia. Depois para um quartovazio. Para outroo mesmo. Mas de repente notou as mudanças: o berço junto à parede desaparecera, assim como a cómoda com o trocador em cima e o carrinho que os pais de Joana lhes tinham dado.

José apressou-se para o armário: o lado onde as roupas dela costumavam estar também estava vazio.

Ela enlouqueceu? Abandonou-me? pensou.

Ligou para a sogra, mas ninguém atendeu. Tentou Catarina, a amiga de Joana. Silêncio. Finalmente, conseguiu falar com Miguel, o marido de Catarina.

Miguel, olá! Põe a Catarina ao telefone, não consigo contactá-la.

A Catarina está com o miúdo na terra delapassámos lá o Ano Novo. O sinal é fraco por lá.

Eu vim ontem porque tinha de trabalhar hoje. Eles ainda estão de folgaexplicou Miguel.Porque queres falar com a Catarina?

Pensei que ela soubesse onde está a Joana. Cheguei da casa dos meus pais e ela não está. E tudo o que comprámos para o bebé também desapareceu.

Ouve lá, a tua mulher estava prestes a ser mãe. Foste passar as festas sozinho e deixaste-a em casa? espantou-se Miguel.

Ela é que não quis vir. O parto estava marcado para entre o dia dez e onze de janeiro. Dava tempo.

Parabéns, Zé, és um palermari-se o amigo.

Porquê? não entendeu José.

Porque, muito provavelmente, já estás divorciado. Burro! Liga para o hospital, ela deve estar láaconselhou Miguel.

Dez dias antes

Não percebo, Zédizia a mãe ao telefoneporque tens de ficar em casa nas festas? Se a Joana não quer vir, vem sozinho. O parto é só daqui a duas semanas, ainda tens tempo.

E ainda por cima quase toda a família vai estar junta: a tia Maria e o tio Carlos vêm, a Natália e o Vítor também, a Olívia e o Paulo. E nós, com o teu pai, e a Vera com o Guilherme.

A Vera reservou quartos numa pousada no campono meio do bosque. Quatro dias, de trinta de dezembro a dois de janeiro.

No dia trinta e um, haverá um banquete no restaurante com artistas convidados. Paguei por ti, depois acertamos. Ficas até ao Dia de Reis e depois voltas. Ainda chegas a tempo do parto.

Joana recusara-se a ir:

Zé, posso entrar em trabalho de parto a qualquer momento. Imagina como seria: todos a divertirem-se e eu de repente com as dores. Além disso, a pousada é longea ambulância chegaria a tempo?

Não, não vou a lado nenhum.

A tua mãe tem razão quando diz que hoje em dia as mulheres tratam a gravidez como doença e o parto como um feito heroico. Ela teve três filhos, mal ficou de licença e sempre fez tudo.

Claro que José entendia que Joana tinha alguma razão. Mas imaginou como seria aborrecido passar a noite de Ano Novo em casa, só os dois, com uma ceia modestaJoana já avisara que não iria cozinhar muito. E sentiu-se triste.

Enquanto isso, a família estaria no restaurante, a cantar, dançar e festejar. No fim, foi sozinho.

Na pousada, divertiu-se. Por volta da meia-noite, saiu para ligar a Joana, mas ela não atendeu.

Bem, fazes-te de difícil, mas a culpa é tua. Podias estar aqui a divertir-te como todospensou ele.

No dia seguinte, a mãe queixou-se da nora:

A Joana nem sequer ligou para nos dar os parabéns. Vês como é orgulhosa? Deixaste-a ficar muito à vontade, filho.

Ela não percebe o que é uma família a sério. Por isso estamos todos aqui juntos, e ela sozinha. Que fique a pensar.

Mas Joana tinha outras preocupações naquela noite. Se pensou em alguém, foi em José, certamente não nos sogros e na sua numerosa família.

Os pais dela, sabendo que a filha ficara sozinha, chamaram-na para passar as festas com eles. Não havia grande banquete planeado.

O irmão de Joana vivia em Lisboa, trabalhava numa fábrica com turnos contínuos e não tinha folgas prolongadas. Os pais iam receber o Ano Novo sozinhos.

Na noite de trinta e um, às nove, Joana e a mãe punham a mesa quando as dores começaram.

Chamaram a ambulância. A mãe foi com Joana, o pai seguiu no carro.

Desta vez, Joana recebeu o Ano Novo no hospital, e os pais na recepção. Tornara-se mãe de um menino

José decidiu seguir o conselho do amigo e ligou para o hospital.

Silveira? Teve alta onteminformaram-no.

Como assim? não acreditou. Já teve o bebé?

Sim. Primeiro de janeiro, à meia-noite e meia.

Quem a foi buscar? perguntou José.

Meu caro, essa informação não consta no registo!

José percebeu que só os pais a poderiam ter buscado. Estariam na casa deles.

Comprou um ramo de rosas e foi para lá.

Bateu à porta. O sogro abriu.

Diga.

Boa tarde, vim ver a Joanadisse José.

Para quê? perguntou o pai dela.

Eu sou o marido delarespondeu o genro.

Joanachamou o sogro alto. Está aqui um homem a dizer que é teu marido. Queres falar com ele?

Não, que se vá emborarespondeu Joana de dentro de casa.

O sogro encolheu os ombros:

Não quer. Adeus, jovem! e fechou a porta.

José esperou alguns minutos e tornou a bater.

Desta vez, a sogra abriualta, robusta, voz forte. Para ser sincero, José tinha algum receio dela.

Não percebeste? perguntou ela.

Deixe-me entrarcomeçou José, corajoso. Tenho direito

Não terminou. A mulher arrancou-lhe o ramo das mãos e bateu-lhe com ele na cara várias

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