Não quero convidar os meus pais para o meu casamento.

Eu e a minha noiva, Filipa, somos apaixonadíssimos. Temos vinte anos e carregamos uma história digna de novela desde a quarta classe na sexta já éramos inseparáveis. Fomos pais ainda jovens e, para espanto geral, sobrevivemos sem virar meme no bairro.

Ora, claro que os nossos pais sonhavam com outros planos para nós provavelmente que estudássemos, arranjássemos empregos sérios e, quem sabe, que viajássemos à Madeira. Mas pronto, vida é vida. O nosso filho é o nosso tesouro! Faz hoje três anos de muita traquinice. Temos o nosso cantinho em Lisboa e decidi que, finalmente, chegou a hora de casar com a minha Filipa.

Convidei quase cem almas para o casamento, um verdadeiro festival de tios e tias de todos os cantos de Portugal, desde o Minho até ao Algarve. Uns nem sei bem quem são, mas não se perdoa faltar numa celebração destas.

Desde o anúncio da boda, a minha mãe transformou-se em conselheira das causas impossíveis: O menino não devia ir! Fica melhor com uma ama. Pensa no bem-estar dele, na paz de todos, nas dores de cabeça que evitamos. Toda a gente quer festa e uns copos, ninguém quer ficar de guarda à criança. Ele é pequeno, não vai perceber nada.

Quem diria que eu e a Filipa fôssemos os revolucionários que acham que o nosso filho tem de estar no evento mais importante das nossas vidas? Este momento não se repete aliás, espero bem que não! A minha tia Glória, a irmã da minha mãe (expert oficial em tomar conta da criançada), ofereceu-se para cuidar dele durante a cerimónia, portanto nada de dramas. Toda a família pode dançar o vira em paz.

Só a minha mãe continua com cara de quem comeu migas sem sal, sempre a lamentar que o neto não devia aparecer. Com o tempo, percebi o verdadeiro circo: os meus pais decidiram que ninguém da família devia saber da existência do nosso filho. Agora, parece-lhes estranho como vão explicar tal segredo a toda a gente. O embaraço é tão grande que nem um pastel de nata resolve.

A minha mãe diz que seria vergonhoso Vão descobrir que tiveste um filho antes do casamento, que horror! Ninguém faz isso por cá, ainda vais parar à capa do Correio da Manhã! Segundo ela, é melhor manter isso debaixo do tapete, porque não há necessidade de revelar tal segredo.

No fundo, ela tem mais medo do que os tios vão pensar do que de outra coisa. Queriam que tudo corresse sem suspeitas, mas com a família portuguesa nunca se sabe, uma tia da Covilhã descobre sempre tudo.

Fiquei chateado, claro. Ela igual – parecia brava como um cão rafeiro da aldeia. Agora até parece que fomos pais fora da lei, a evitar olhares e cochichos. Discutimos isto umas quantas vezes: eu mantenho a minha decisão, eles insistem com as suas ideias antiquadas de reputação.

Os mais próximos, só para variar, não nos apoiam lá muito. Mãe até diz: Se não obedeces, deixas de ser meu filho! Nunca imaginei que ia ouvir isso, ainda por cima só porque quero ter o meu filho a celebrar comigo quem me manda ser moderno?

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