Não gostas que eu queira ter a minha própria família? Fugi de vocês, comecei a construir a minha vida, e lá vêm vocês de novo com as velhas manias!
Calma, Zita, não cries casos! Eu sei que vais estranhar morar na aldeia, vindo da cidade, mas eu ajudo-te! tentava convencer a rapariga o Duarte. Eu dou conta do recado. Só preciso que estejas ao meu lado!
Zita estava num turbilhão de emoções.
Mas por que raio é que ela foi apaixonar-se logo por um rapaz da aldeia? E logo à séria… com direito a suores frios nos joelhos!
Já tinha vinte e oito anos e uma carreira sólida, e o Duarte, trintão, tinha era muita família e uma casa arejada na aldeia, perto de Coimbra.
Conheceram-se, como se esperava, num parque de diversões, para onde Duarte tinha ido por engano, enquanto a mãe fazia compras no mercado, e Zita foi arrastada pelas amigas.
Trocaram contactos, começaram a falar, e pronto, foi a desgraça do coração. Ele fazia questão de surpreender, vinha à cidade visitá-la, era atencioso e prestável, e Zita foi derretendo aos poucos.
Além disso, ao contrário dos outros rapazes que conhecia, Duarte era genuíno, transparente e tinha um bom coração.
Depois, ele lá criou coragem, pediu-a em casamento, e Zita aceitou.
Então, filha? Olha, experimenta. O Duarte é rapaz da terra, trabalhador, honesto. aprovou a mãe, dona Luísa. Se não der, voltas para casa, à cidade.
Zita não tinha muito a perder. Até podia trabalhar à distância, modalidade que agora se usava muito no trabalho dela. Os tempos de dezoito anos já lá iam, e na aldeia, diziam, o ar era puro! Só que…
Duarte, vou para lá como quê, exatamente? Zita quis saber.
Como minha noiva. Daqui a um ano fazemos o casamento e vamos de férias. Eu até lá já junto uns trocos, para não pensarmos em euros, só em diversão disse ele, de repente atrapalhado.
Eu sei que tu estás habituada a outras mordomias…
Parecia tudo certo, tudo bonito, mas havia ali qualquer coisa a inquietar-lhe o espírito. Vá, que se lixe, decidiu arriscar!
Assim, tirou uma semana de férias, enfiou meia vida na mala, fechou com uma chave de ouro o seu modesto T2 que tinha suado tanto para pagar, e lá foi de carro para a aldeia, onde Duarte a esperava ansioso.
A primeira noite até foi agradável.
Era verão, daqueles mesmo quentes, regaram juntos o pequeno quintal e fizeram jantar a meias. Em equipa tudo se fazia mais leve.
Amor, os meus pais vêm cá este fim de semana! avisou Duarte, chegado cedo do trabalho nessa sexta.
Para quê? Zita apanhou um susto.
Para nos conhecerem e ajudar aqui em casa. E trazem o meu irmão Hugo e a cunhada, a Soraia. Duarte andava nervoso de um lado para o outro.
Ficam cá muito tempo? perguntou Zita, desconfiada.
Espero que não! Duarte olhou-a com um misto de ternura e receio. Não stresses, juntos desenrascamo-nos.
Estas palavras de Duarte fizeram Zita entrar em parafuso.
Não te preocupes, filha. Vê isto como um teste. Corra mal, voltas para o teu canto. Mais importante é lembrares-te que casa, tens sempre. gracejou a mãe ao telefone. Faz como sabes, eles que se habituem. Ou não. Problema do Duarte!
Olha, é verdade, caramba! Ainda nem sou esposa, sequer, pensou Zita, acalmando-se num instante. Eles não a iam comer!
Zita ainda estava a pôr a mesa quando ouviu uma carrinha estacionar.
Chegaram! entrou Duarte na cozinha.
Foram os dois receber a família.
Ora viva, nora! exclamou uma senhora volumosa, de vestido largo e colorido, cabelo curto e escuro e pestanas de meter inveja a qualquer rímel, enquanto dava um abraço apertado ao filho.
Um senhor bem constituído, com uma barriga de meia idade, cumprimentou Duarte e acenou a Zita.
Um rapaz alto, Hugo, fez-lhe uma piada logo para quebrar o gelo. Já a mulher dele, Soraia, loira com ar de quem não anda a dormir na forma, lançou um olhar morno à vistosa Zita e virou-se para o marido.
Vais ficar a babar? Anda antes ajudar-me! e meteu-se junto da carrinha a buscar as malas.
Zita convidou todos para a mesa, na esperança de que o ambiente se soltasse e aquele clima de tensão baixasse. Tem talento na cozinha, ao menos nisso não lhe podiam dizer nada!
Ora bem, isto está uma maravilha! Nota-se que se esforçaram. aprovou Maria da Luz.
Hum. Isto é frango? Quem é que decide fazer isto assim? implicava Soraia, empurrando a comida com o garfo. Cada invenção…
Ó pá, está ótimo! defendeu Hugo, lançando um olhar de censura à mulher.
Tu só queres é comer, nem que seja palha! resmungou Soraia, largando o garfo à mesa como se o prato lhe tivesse ofendido a infância.
Duarte lançou um olhar desesperado a Zita.
Soraia, mostra um bocadinho de educação, sim? E nem te atrevas a rosnar! A Zita esteve a dar o litro! meteu-se ele.
Olha lá, quem é que se lembrou deste nome? Parece o nome da nossa cabra. Também se chama Zita atirou Soraia, venenosa.
Zita soltou um risinho abafado.
Que foi? sussurrou Duarte.
É que a minha amiga tem um porquinho-da-índia chamado Soraia, também sussurrou Zita de volta, mas toda a gente ouviu.
Maria da Luz lançou-lhe um olhar de desagrado, os homens esforçaram-se para não rir, mas Soraia ficou fulminada.
Mas quem te julgas tu? Como te atreves?! fulminou ela Zita com o olhar.
Tu pareces gostar, por isso achei que contigo era à vontade veio Zita, encolhendo os ombros.
Hugo ficou de sorriso de orelha a orelha.
Olha que eu sou mulher legítima do Hugo! Tu és só… enfiada! saiu Soraia disparada da mesa. Maria da Luz acenou com aprovação.
Pelo menos, sei estar quando sou convidada, não ando aí feita peixeira! resmungou Zita.
Não fui eu que te convidei! disse Soraia, vitoriosa.
Nem eu, já agora respondeu calmamente Duarte, bastante aborrecido. Ficam cá muito tempo?
A sala ficou num silêncio de igreja. Todos olharam incrédulos para o anfitrião.
Vamos só ensinar essa menina a ser gente de aldeia, depois já se pode ir embora resolveu a mãe dele.
Não precisam, mãe. A gente desenrasca-se bem.
Pois sim, arranjaste aí uma calaceira e estás todo contente. Quero ver quanto tempo duras bufou Soraia.
Calaceira aqui só há uma. E não é a Zita disparou Duarte. Agora, estimados convidados, obrigada pelo jantar, agora podem descansar.
Duarte segurou na mão de Zita e, sob os olhares reprovadores da família, começaram juntos a levantar a mesa.
Zita pensou que, sim senhora, ter apoio é outra coisa, e que ali não a iam pôr de parte. No limite, podia sempre voltar para a cidade.
O sábado não começou com beijinhos.
Então?! Isso é hora de dormir? Na aldeia não se fica na ronha até ao almoço! estourou Maria da Luz, porta dentro. E está na hora de preparar o pequeno-almoço!
Zita consultou o telefone, incrédula.
Oito da manhã!
Dona Maria, tem tudo o que precisa no frigorífico. e enrolou-se mais nos lençóis. Posso vestir-me ao menos?
Olha a senhora! Vejam-me só! fez-se sinais Maria da Luz. As coisas não se cozinham sozinhas! Vá, despacha-te!
Saiu, batendo a porta como quem fecha um castelo.
Zita vestiu-se, respirou fundo e foi à cozinha.
Já acordaste, amor? recebeu-a Duarte junto ao fogão.
Se dependesse de mim, ainda hoje dormia! bufou a sogra.
Zita mordeu a língua.
Mãe, para que é que invadiu o nosso quarto mesmo? Duarte estava perplexo. Pedi-lhe para não o fazer!
Temos aqui não só uma donzelita, como também uma preguiçosa? riu-se Soraia.
Ninguém pediu tua opinião! ripostou Zita.
É a vida no campo! Aqui toda a gente se levanta cedo. Quando tiveres uma vaca, às seis da manhã já lá tens de estar com o balde! disse Soraia, sarcástica.
Não está nos nossos planos arranjar uma vaca atalhou Duarte.
Claro, claro. Não sabes ordenhar, levantas-te tarde… gozou Soraia.
Tu também não sabes e não te falta nada ripostou Duarte, divertido.
Desde que ela está contigo, ficaste um trombudo! intrometeu-se Maria da Luz, em defesa da nora.
Duarte, vou-me embora. Quando este circo for à vida, liga-me se quiseres decidiu Zita, já só com meio pingo de paciência.
O quê? Como apareceste, o meu filho esqueceu a família! Já nem liga, não vem ajudar! Só me dás cabo do juízo! esperneava Maria da Luz. Achas mesmo que te vamos aceitar? Andas a desmoronar-nos!
Já chega! gritou Duarte. Silêncio absoluto.
Não gostam que eu queira ter a minha própria família? Fui-me embora, comecei do zero, e vocês vêm cá para estragar tudo outra vez!
Filho, estás obcecado! Só gastas o que ganhas com esta rapariga! Ela só quer o teu dinheiro! dramatizava Maria da Luz. Está-te a explorar e tu, feito burro de carga! Nós é que te queremos ver feliz!
Mãe! A Zita paga as contas dela, e eu ando a juntar para o casamento. Duarte travou Zita que já ia sair. Querem ver-me contente? Então, façam-se à estrada! Venham só quando forem convidados! Especialmente tu, Soraia!
Enquanto tentavam arranjar palavras com o choque, Duarte aconchegou Zita no quarto e voltou para a sala, onde já se arrumavam malas à pressa.
Filho, ou ela ou eu! lançou a mãe, dramática.
Mas aceitaram logo a Soraia comentou Duarte, desiludido.
Olha quem tu vais comparar, meu rico filho! interveio Soraia.
O pai e Hugo olhavam satisfeitos para a cena.
E então? apressou a mãe.
Eu escolho a felicidade! declarou Duarte, olhando desafiante para a mãe.
Então, não tenho mais filho! apregoou Maria da Luz, saindo porta fora, deixando as malas para o marido. Soraia não ficou atrás.
Se precisares, estamos aqui! piscou o olho o pai. A tua mãe fica ao meu encargo!
Hugo deu-lhe um abraço apertado.
Agarra a tua felicidade! Cá em casa temos que mudar muita coisa!
E lá foram eles, de malas e tudo.
Zita sentia-se um pouco embaraçada, mas ao mesmo tempo percebeu que Duarte estava mesmo do lado dela.
Juntos retomaram as tarefas e Zita tentou apoiar o noivo ao máximo, ciente de como era difícil para ele.
E na casa do Duarte… a festa continuava.
Mãe, Soraia! Comprámos-vos uma vaca! anunciou Hugo, todo sorrisos.
O quê?! Perdeste o juízo? reagiu Maria da Luz.
Não, mãe. Agora de manhã é a Soraia a ordenhar e a levar a vaca ao pasto respondeu Hugo, bastante sério.
Hugo, cala-te com isso! Não tem graça! Soraia estava à beira de um ataque de nervos.
Vocês tanto insistiram na Zita, que achámos que era mesmo o que vos faltava! disse o pai, de ombros encolhidos. E, mãe, ao sábado e domingo, pequeno-almoço às 7h! Nada de torradas secas, queremos coisa quente e reforçada. Gente da aldeia é firme!
Começou assim a reeducação das mulheres!
Não lhes faltou animação.
Tudo o que atiraram à cara da Zita, caiu-lhes agora do céu.
Maria da Luz percebeu que tinha exagerado: agora exigiam delas render tanto quanto Zita no trabalho e na lida coisa para a qual não estavam preparadas.
Isto de ser para todos não era para qualquer uma!
A mãe reconciliou-se com o filho, mas as visitas continuavam espaçadas. Vai que a Zita ainda sabia fazer mais umas coisas?
Duarte, finalmente, fez o pedido de casamento como deve ser.
No casamento, fez-se a festa rija!
Maria da Luz e Soraia nunca chegaram a idolatrar Zita, mas aprenderam a guardar a língua. Afinal, nunca se sabe.
E Zita? Zita estava felicíssima! Continuavam a fazer tudo juntos, a cuidar um do outro e, acima de tudo, sem mais medo de visitas surpresa.







