Não era para ser
O comboio já ia no segundo dia de viagem. As pessoas já tinham tido tempo de se conhecer, beber umas quantas chávenas de chá, resolver meia dúzia de palavras cruzadas e, claro, começavam as conversas profundas sobre a vida. Há lá lugar mais propício ao desabafo do que um comboio? Conta-se de tudo, histórias que de outra forma nunca viriam à tona, só mesmo entre estações e apitos.
Eu estava sentada naquela cadeira lateral, enquanto, no compartimento ao lado, três comadres de idade trocavam receitas de bolos e dicas para tricotar meias de lã. De repente, atravessámos uma ponte com uma vista de cortar a respiração. Céu limpo, sol radiante, o Tejo a espraiar-se lá em baixo com as suas ondas preguiçosas. Do lado oposto, num monte coberto de erva fresquinha, destacava-se uma igreja branca de cúpulas douradas parecia postal ilustrado.
As senhoras calaram-se. Uma delas fez o sinal da cruz, com aquele respeito bem português.
Ai meninas, agora é que vos conto uma história, disse uma das comadres. Acreditam se quiserem, não se riam depois.
Isto aconteceu há uns anos, na primavera. Eu vivo sozinha, já enterrei marido há tanto tempo que nem sei bem há quantos anos, filhos nunca calhou. A aldeia é pequena, não chega a virar freguesia, mas fica repartida pelas duas margens do rio. Se quero ir comprar pão ou levantar a reforma à estação dos CTT, tenho de atravessar uma ponte de madeira, daquelas que abanam quando passa o vento.
Nesse dia, era ainda cedo, recebi uma chamada do meu irmão. Ia em trabalho para Vila Real de Santo António e fazia questão de dar uma voltinha maior para passar por minha casa. Há uns cinco anos que não nos víamos, ele anda sempre pelos confins do país.
Fiquei toda contente! Pensei logo: Tenho de ir ao minimercado buscar umas coisinhas, farinha e açúcar, faço um bolo para o receber como deve ser. Vesti o casaco em cima do pijama, nem fechei os botões, calcei logo as minhas pantufas e toca a andar.
Cheguei à beira do rio, e aquilo veio-me à cabeça: Ir até à ponte é um desvio E se passasse pelo gelo directo? Era primavera, sim, mas as noites, frias como tudo, ainda punham geada. E vi uns pescadores robustos lá longe, junto à ponte, sentados com todo o seu material e nada lhes acontecia. Pensei: Ora, se eles, que são quase o dobro do meu tamanho, aguentam, mais aguento eu.
Desci de mansinho até ao rio. Dei dois passos, três, e o gelo parecia seguro. Isto vai, é rapidinho, nem noto.
O que eu não esperava era cair na água, por baixo da camada de gelo. Demorei a perceber, parecia que me tinham passado um ferro em brasa pelas costas foi o susto da minha vida, nem gritei direito! Estava a tentar vir ao de cima, mas o casaco só me empurrava para baixo. Ainda bem que nem o fechei! Consegui livrar-me dele e nadar para cima. O medo era tanto, cada vez que agarrava o gelo, aquilo partia com um estalo arrepiante, e eu outra vez debaixo de água. A voz não me saía, parecia-me que tinha engolido um piropo.
Vejo nesse momento a minha vizinha, D. Idalina, de pé na margem, a olhar para mim com a maior das calmas. Levanto o braço, faço-lhe sinal, a pensar que vai chamar os pescadores. D. Idalina? Dá-me as costas e desanda!
Pronto, pensei eu, é o fim da linha. Vai o meu irmão chegar, e nem comer bolo, nem me encontrar vai. Já me via a boiar entre as rãs, uma tristeza.
À terceira tentativa, o gelo partiu outra vez. Mas eis que aparece um homem, do nada mesmo, a correr na minha direção! Não estava lá ninguém antes, que eu tinha bem visto Deita-se de barriga para baixo no gelo, estica o braço e grita:
Venha cá! Força, já está quase!
Nem sei onde fui arranjar energia, mas juro que cá estava, cheia de adrenalina. De repente, o gelo debaixo dele também começa a estalar. O homem corre para a margem, agarra uma pequena bétula que por ali havia e volta para mim. Atira a árvore, manda-me agarrar:
Segure no tronco, no tronco mesmo!
Eu tentava, mas as mãos escorregavam porque os ramos estavam cobertos de gelo. O homem puxou a árvore e, como num passe de mágica, lá me saltou do rio, feita beterraba, a tremer de emoção e frio. Olhei para ele, curvada no gelo, lágrimas a gelarem-me na cara.
Então, minha senhora, está viva? pergunta-me o salvador.
Abanei a cabeça, não me saía palavra.
Graças a Deus sorriu ele. Vá descansada para casa, que não vai ficar doente!
Limpei as lágrimas e pus-me de pé. Olhei para trás e o homem já não estava. Para onde foi? O rio ali era limpo de uma margem à outra, nenhum recanto, nenhum abrigo era impossível desaparecer assim. Vi então os pescadores a correr para mim.
Um deles ajudou-me a ir para casa. Vesti roupa seca, bebi um chá bem quente. Mas estava decidida: ainda tinha de ir ao minimercado, nada me tirava o propósito.
Desta vez, fui pela ponte, direita à mercearia. Cheguei lá e quem vejo? Pois claro, a D. Idalina, à porta, a fazer-me olhinhos redondos de assombro e a benzer-se como se visse um santo.
Ó Maria das Dores, tu não te afogaste, mulher?
E tu, não me chamaste os pescadores porquê? atirei-lhe, sempre com aquela mania de responder à letra.
Olha, pensei que se fosse ajudar ficávamos lá as duas, e nunca ia a tempo de buscar socorro. Se era para afogar, era porque estava destinado. Mas tu saíste da água, está tudo bem!
O meu irmão lá ficou só um dia, não lhe contei nada do sucedido. Quando ele se foi embora, andei de casa em casa a perguntar: afinal, quem era o misterioso homem? Na aldeia, toda a gente conhece toda a gente, raramente aparece alguém estranho
Ninguém sabia de nada, nem um primo de fora, nada! E o tal homem, com aquele casaco esquisito tipo capa, ou será que era uma batina?
Não me contive, fui à vila a seguir, à igreja, agradecer o milagre. Quando entrei, quase caí para o lado: no altar estava um painel com São Nicolau, igual ao meu salvador. Parei ali de joelhos, em comoção, a rezar baixinho. Depois, falei um bom pedaço com o senhor padre.
Pronto. Lá está. Coisas destas E sabem que mais? Nem uma constipação apanhei desde esse dia, nem uma febre, nem um ai de alergia ou espirro! terminou a senhora. Acreditem ou não, cada um sabe de si.







