Namorei quase um ano com uma mulher, nunca regateei nos gastos com ela e com o neto dela. Mas bastou que eu pedisse uns pastéis para levar, e logo entendi qual era realmente o meu lugar.
O empregado pousa diante de nós um recipiente de plástico onde já tinha colocado um pedaço quase intacto de bolo de chocolate. Lurdes aproxima a caixinha dela, satisfeita. Estamos sentados num café agradável no centro de Lisboa, música baixa tocando pelo espaço, mas dentro de mim cresce um incómodo abafado.
Estamos juntos há quase um ano. Tenho cinquenta e oito, ela cinquenta e quatro ambos adultos, depois de casamentos, divórcios, filhos já crescidos e, claro, netos. Tenho dois um rapaz e uma menina. Ela tem um único neto queridinho, o Xavier, um raio de sol de seis anos que só vi de passagem, mas de quem ouço falar tanto que quase conheço melhor do que aos meus próprios exames médicos.
Lurdes guarda a caixa na mala e sorri-me com aquele sorriso doce que um dia me conquistou.
O Xavier adora tudo o que é de chocolate diz ela. E eu já estou cheia, não me apetece mais. Não se desperdiça nada, não é?
Aceno em silêncio, chamo o empregado e pago a conta, já incluindo o bolo, o meu café e a salada dela. O dinheiro nunca foi problema não é por aí que fico mais pobre. Mas o caso não era do valor, era do que se fora criando nos últimos meses. Eu, teimoso, fingia não ver nada demais, atribuindo tudo ao amor de avó. Em qualquer oportunidade quase sempre à minha custa a Lurdes levava para casa o que podia, sempre para agradar ao neto adorável.
A primeira campainha soou há três meses, num dia em que fomos ao cinema para uma estreia muito falada. Comprei os bilhetes, aproximámo-nos do balcão e ela pediu o maior balde de pipocas de caramelo e uma Coca-Cola.
Fiquei surpreendido normalmente está de dieta, foge de doces. Pensei que lhe apetecia um mimo naquele dia. Sentámo-nos, apagaram as luzes. Estiquei a mão às pipocas, tirei um punhado e comecei a comer. Mas ela mantinha o balde no colo, tapado com a tampa que pedira de propósito ao funcionário, sem comer um único grão.
Não comes? murmurei. Estão ótimas.
Hoje não me apetecem responde, baixinho. Vou levar para o Xavier. Ele vai dormir na minha casa, adora pipocas do cinema. Os pais nunca lhe compram.
Quase que me engasguei com a Coca-Cola. Afinal, comprei aquilo para ele, nem por acaso nem combinado. Ela simplesmente decidiu. Durante o filme senti-me desconfortável: o balde parecia vigiado. No fim, deixei-a em casa e saiu do carro, radiante, balde na mão, enquanto eu só pensava que era um estafeta que ainda por cima pagou o serviço.
Dinheiro não lhe faltava. Lurdes tem bons rendimentos, está sempre impecável, com carro próprio. Não era por necessidade.
Mas foi no último sábado que caiu a ficha. Lurdes convidou-me para almoçar em casa dela, prometendo-me os famosos pastéis por que tanto aguardava. Cheguei, não de mãos a abanar: levei um bom vinho, fruta da época, uma tábua de salmão fumado queria dar um toque especial à mesa. Aquele cheirinho a forno pela casa fora quase que fazia rodar a cabeça.
Na cozinha, sobre a mesa, uma taça grande coberta por um pano. Debaixo, uma montanha de pastéis dourados e reluzentes. Sentámo-nos, Lurdes serviu o chá e pôs cinco pastéis num prato.
Come, António, aproveita enquanto estão quentes disse-me com carinho.
Eram maravilhosos. Comi três de carne e dois de espinafres e enchi-me por completo, contente da vida. A conversa fluía, o vinho ia-se bebendo, senti-me finalmente em casa, bem recebido.
Lurdes, estes pastéis são extraordinários! elogiei, recostando-me na cadeira. Mais logo vêm cá os meus netos. A minha filha traz os pequenos para passar o fim de semana. Levas-me alguns? Eles adoram e lembram-se de ti. Andam sempre a comer do supermercado, que a mãe não gosta de cozinhar.
E foi aí que tudo mudou, e eu não estava, de todo, à espera.
O rosto de Lurdes alterou-se de imediato. Ainda agora sorria doce e aberta, mas de repente gelou: fechou o olhar, ficou dura, quase defensiva.
Ai, António disse naquele tom esquisito, a soar a desculpa, mas com firmeza. Gostava muito, mas não posso dar muitos. Daqui a pouco vem o Xavier, fiz quase tudo para ele.
Levantou-se, foi à taça enorme (onde, juro, estavam pelo menos trinta pastéis), vasculhou um pouco, pegou num saco transparente e pôs três pastéis. Dois de espinafres e um de carne.
Toma, disse, estendendo o saquinho ridículo. Assim levas para eles provarem. Senão o Xavier fica sem nada para o jantar.
Olhei para aquilo, ardiam-me as faces de desconforto. Uma montanha de pastéis na taça. Tinha acabado de lhe levar vinho, fruta, salmão. Nunca poupei com ela. E agora ela, a contar os pastéis para os meus netos?
Lurdes, aquilo chega e sobra tentei amenizar, já a ferver por dentro. O Xavier não vai comer aquilo tudo. Dá ao menos dois para cada, são dois.
Ela fechou ainda mais o rosto, tirou o pano para cobrir bem a taça parecia um escudo e respondeu com frieza:
António, contei para as doses certas. Prometi ao Xavier os pastéis. Não leves a mal, mas não posso andar a distribuir tudo. Tu comeste, gostaste? Fico contente. Estes são para o neto.
Chamou-lhe distribuir. Como se eu fosse um estranho à procura de esmola, não o homem com quem ela constrói um futuro, que meia hora antes lhe enriqueceu a mesa.
Porque é que na hierarquia dela fico abaixo de um miúdo de seis anos?
Meia hora depois, inventei uma saída e fui-me embora. Os três pastéis foram comigo no banco do carro. O cheiro, que antes parecia caseiro e tão reconfortante, agora enjoava, era como se me trouxesse recordações falsas. Tentei perceber o que se passava na cabeça dela, mas a resposta não era meiga.
Sempre achei que num namoro saudável, os adultos vêm primeiro. Somos prioridade um do outro. Os filhos, os netos claro que são importantes, mas primeiro estamos nós. Para ela não: tudo gira em volta do Xavier. Ele é o centro, a prioridade. E eu, então? Um patrocinador? O tipo que paga cafés, cinemas e ainda leva pipocas para casa que não come?
Quando pago o bolo para o neto dela, é normalíssimo, somos família, diz ela apesar de só namorarmos há um ano. Quando peço uns pastéis para os meus netos, aí já é não posso andar a distribuir. É tudo numa direção só. O neto dela é o príncipe, os meus quase que pedem favor para três pastéis e ela nem repara no ridículo que é dar a um avô um saquinho minúsculo enquanto esconde a taça grande.
Cheguei a casa, os meus netos saltavam em alegria. A minha filha, cansada do trabalho, a arrumar sacos de compras.
Cheira a pastéis, pai!
Tirei o saquinho e senti um leve embaraço.
Foi a dona Lurdes que mandou, disse, evitando olhar nos olhos da minha filha. Aproveitem.
Os pastéis desapareceram num instante. Eram bons, claro.
Não há mais, avô? perguntou a neta, a lamber os dedos.
Não, querida, só havia esses. fui até à varanda fumar.
No ar fresco da noite, olhando para as luzes sob o Tejo, veio-me a pergunta: preciso disto para quê? Para quê uma mulher que trata o dinheiro em comum se é para o neto, mas os pastéis são reserva privada? Não é a comida, posso encomendar já tudo o que quiser. É a atitude.
Ela nem percebeu que me magoou. Mais tarde ainda ligou, animada: O Xavier chegou, já jantou, está deliciado, a ver bonecos. Eu ouvi calado. Apeteceu-me dizer: Os meus pediram mais e eu tive de dizer que não havia. Mas calei-me.
Já vos aconteceu este duplo critério? Tudo o melhor, para ela; de mim, só expectativas e despesas. Acham que devo abrir o tema? Ou será mesmo apenas poupança e eu é que começo a resmungar com tudo?






