Namorava um homem de 54 anos há um ano e meio. Ele dizia “és a minha família”. Fiquei internada no hospital durante três semanas — ele não foi visitar-me nenhuma vez

Namorei com um homem de 54 anos durante um ano e meio. Dizia és a minha família. Estive internada três semanasele não apareceu uma única vez

Tenho quarenta e oito anos, o nome dele é Francisco e tem cinquenta e quatro. Conhecemo-nos num site de encontros. Tudo começou de forma romântica: o primeiro encontro foi num café pequenino, e já no terceiro ele trouxe-me, no dia do meu aniversário, um bolo decorado por encomenda. Lá vinha escrito: Para Leonor, de alguém muito feliz por ela ter nascido. Nessa altura, só nos conhecíamos há três semanas.

Francisco era daqueles homens generosos, mas sem ostentação. Oferecia-me flores sem motivo. Sugeriu irmos até Sintra para mudar de ares. Houve um dia em que arranjou uma torneira lá em casa e, mais tarde, chegou a pagar as obras de renovação na casa da minha mãe. Tinha uma oficina própria de reparação de eletrodomésticos e morava sozinho.

És a minha família, Leonor disse-me um dia, pelos oito meses de namoro. O meu filho já é adulto, a minha ex-mulher mora no Porto há anos. Tu és o que tenho.

Eu acreditei. Como é que não haveria de acreditar num homem que não só dizia palavras bonitas, como me trazia bolos com dedicatórias dessas e pegava nas ferramentas para consertar os meus canos?

Três semanas de silêncio: como soa uma traição sem gritos

Quando fui parar ao hospital, na primeira semana nem me magoei com ele. Eu percebia: tinha a oficina, trabalho, mil reparações para fazer. Na segunda semana comecei a sentir ansiedade. Quando chegou a terceira, percebi de vez que ele não ia aparecer.

Na minha enfermaria estava a Dona Amélia, mulher já perto dos setenta. Todos os sábados, o marido vinha entregar-lhe um ramo de flores. Um dia perguntou-me:

Leonor, e o seu? Nunca o vi por cá.

Ele anda sem tempo, muito trabalho expliquei.

Ela olhou-me por cima dos óculos e murmurou baixinho:

Todos temos trabalho, querida. O meu Artur também, mas mesmo assim apanha três autocarros do Barreiro até aqui, com as costas feitas num oito porque ele não consegue não vir. Não é uma questão de quereré que é impossível não vir. Se um homem acha possível não aparecer talvez seja possível também não ficar.

Nunca mais me esqueci daquela frase. Valeu mais do que qualquer consulta de psicólogo.

Recebi alta numa quarta-feira. À noite, Francisco ligou-me.

Leonorzinha, já te deram alta? Que tal no sábado vou aí e conversamos um pouco?

No sábado. Daqui a três dias. Eu recém-operada, acabada de sair do hospital, e ele fala disso como se estivesse a sugerir irmos ao cinema.

Não, Francisco. Tem de ser hoje.

Ele apareceu duas horas depois, com flores, frutas e um ar de quem já se sente culpado. Sentámo-nos na cozinha. Fui direta ao assunto:

Francisco, porque é que não vieste uma única vez?

Leonor, liguei-te todos os dias.

Sim, ligaste. Mas não vieste. Três semanas. Vinte e um dias. Tive uma operação, pontos, febre quase a rondar os 39ºC. Estive num quarto do hospital à espera por ti. Tu só ligavas à noite a perguntar estás melhor?.

Juro que pensei em ir. Mas no trabalho foi o caos: dois grandes clientes, um empregado despediu-se, fiquei sozinho a dar conta do recado. Não tive mesmo tempo.

Em três semanas? Nem uma hora? O hospital fecha às oito. São quarenta minutos de carro. Um hora em vinte e um dias nem isso?

Leonor, não sabes como andei. Estava em sobressalto. Estava preocupado, acredita. Mas não podia abandonar a oficina.

Não podias ou não quiseste?

Ficou em silêncio. Foi ali, naquele espaço vazio, que finalmente vi a verdade que tentei ignorar durante o ano e meio: para o Francisco, preocupar-se e estar presente nunca foram a mesma coisa. Para ele, a primeira coisa vale pela segunda.

Sabes, Leonor disse ele por fim, com voz baixa eu não sei lidar com hospitais. Não consigo ficar ao pé de uma cama, ver tubos, caras pálidas. Fiquei assim depois da minha mãe ter morrido no hospital. Passei três anos sem conseguir entrar num. Quando disseste que tinhas ficado internada Quis ir, mas cada vez que tentava, ficava bloqueado. Ia dizendo a mim mesmo vou amanhã. E assim, os dias viraram semanas.

Esta é daquela frases que nos rebentam por dentro. Não disse não quis. Nem que não tinha tempo. Foi eu não sei estar ao lado quando é difícil.

Francisco disse-lhe devagar. Durante um ano e meio estiveste ao meu lado quando era tudo fácil: cafés, bolos, passeios. Quando era só mudar uma torneira ou ajudar com obras. Quando eu estava alegre e só precisava de companhia. Mas quando ficou mesmo difícil, tu já cá não estavas. Telefonaste. Mas ligar não é o mesmo que vir. Preocupar-se não é o mesmo que acompanhar.

Sei que estive mal.

Não estiveste mal, Francisco. És assim, simplesmente. E isso é pior que uma culpa. Porque culpa pode-se corrigir. O carácter é outra história.

O ramo de um marido alheioe a decisão feita na cama do hospital

Nessa noite ele foi-se embora. Fiquei sozinha a tomar chá, a lembrar-me da Dona Amélia e do seu Artur. Três autocarros, as costas em mau estado e um ramo de flores todos os sábados. Nunca ouviu dizer és a minha família. Apenas aparecia. Porque para ele, não aparecer era impossível.

Para Francisco, foi possível. Vinte e um dias seguidos possível. E é nisso, que está tudo dito sobre o nosso namoro.

Uma semana depois, Francisco enviou-me uma mensagem enorme. Desculpas, promessas de mudar, juras de amor, que o medo o traiu. Li tudo até ao fim e pela primeira vez não senti nada.

Palavras, sem atitudes, são como papel de parede sem parede: podem ser bonitas, mas ninguém vive bem nelas.

Não respondi. Não por mágoa, nem para magoar. Apenas porque finalmente entendi. Preciso de um homem que venha. Não de quem só liga. Daquele que atravessa Lisboa com um saco de laranjas, não daquele que liga às oito por rotina. Alguém para quem não vir é simplesmente impossível.

A cicatriz sarou aos poucos. A minha mãe diz que até pareço mais saudável do que antes da cirurgia. Talvez seja porque já não carrego certos pesos, quer no corpo, quer na alma.

Fica uma pergunta que aposto que inquieta muita gente.

Mulheres: já vos aconteceu um homem preocupar-se à distâncialigar, escrever, mas não aparecer quando mais precisavam? Conseguiram perdoar?

Homens: respondam com toda a franqueza são dos que não conseguem não aparecer, ou contentam-se com um telefonema a cumprir?

Não sei estar ao lado quando as coisas estão malserá uma justificação ou já é uma condenação para qualquer relação?

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Namorava um homem de 54 anos há um ano e meio. Ele dizia “és a minha família”. Fiquei internada no hospital durante três semanas — ele não foi visitar-me nenhuma vez