Na noite de Natal, pus a mesa para dois, mesmo sabendo que ia jantar sozinha. Tirei do armário os dois copos de cristal, aqueles que só usávamos em dias muito especiais. Coloquei-os na mesa com todo o cuidado e dei uns passos atrás para ver como tinham ficado.
Dois talheres.
Dois pratos.
Duas guardanapos bem engomados, ainda a cheirar a ferro e lavanda.
Parecia mesmo que a qualquer momento ele ia entrar pela porta, dizer-me que já era hora de nos sentarmos, que lá fora estava um frio de rachar e que o Natal não espera por ninguém.
Mas ele não ia entrar.
Já fazia um ano que ele se tinha ido embora.
O telefone caladinho, sem uma única chamada.
A minha filha, a Mariana, não vinha este ano. Os meus netos também não ligaram.
Passei a mão pela toalha branca bordada com flores. Fui eu que a bordei ainda jovem, cheia de sonhos. Ele adorava-a, dizia sempre que lhe fazia lembrar o brilho dos meus olhos de antigamente.
Sorri, pela primeira vez o dia inteiro.
Cozinhei-lhe os pratos de que mais gostava, não porque estivesse à espera de alguém, mas porque foi assim que vivi toda a vida. Porque o meu coração ainda não aceita que o lugar à minha frente vai ficar vazio.
Sentei-me e olhei para a mesa. Estava linda, como sempre esteve na noite de Natal.
Veio-me à cabeça o nosso último Natal juntos. Estava já magro, frágil, mas fez questão de se sentar à minha frente, sorriu-me e pediu-me para não me fechar quando ele já lá não estivesse. Para viver. Para não desistir.
Prometi-lhe naquele momento.
O relógio lá na sala ia marcando as horas. Lá fora as luzes brilhavam, ouvia-se o riso das pessoas na rua e as crianças corriam atrás umas das outras, felizes, mesmo com o frio do inverno lisboeta. Havia festa em todo o lado. Só não naquele cantinho silencioso.
Já era tarde quando o telefone tocou, finalmente. Uma chamada rápida, a voz animada mas apressada da Mariana. Sem perguntas, sem tempo. Depois, ficou de novo um silêncio pesado.
Peguei no copo onde ele costumava sentar-se, levantei-o devagar e murmurei um obrigado pelos anos, pelo amor, por ter sido de alguém.
Depois fui arrumando a mesa com calma, sem pressas. Como quem guarda algo raro, sabendo que talvez não volte a haver outra ocasião assim.
Sentei-me junto à janela, fechada ao frio mas aberta ao Mundo. Lá fora o Natal continuava, cá dentro só restava a memória.
A mesa ficou posta para dois.
Mas um dos lugares ficou vazio.
Já te aconteceu preparares um lugar para alguém que já cá não está? Não porque esperes que volte, mas porque o coração ainda não consegue deixar ir.







