Na casa dos Vares, o aroma de limpeza e de perfumes sofisticados estava sempre presente. A anfitriã, Marina, era o retrato da perfeição: aos quarenta e cinco anos parecia ter trinta e cinco, comandava um blog de culinária com um milhão de seguidores e era casada com Paulo — um arquiteto de sucesso.

O diário da Margarida Rodrigues

A nossa casa sempre cheirava a limpeza e a perfumes caros. Era como se cada esquina tivesse sido cuidadosamente preparada para agradar. Eu, Margarida, aos quarenta e cinco sentia que parecia ter dez anos menos. Mantenho um blog de culinária popular, daqueles que parece que só mostram vidas perfeitas, e sou casada com Ricardo arquiteto de renome que toda Lisboa inveja.
Temos dois filhos: o João, com dezasseis, capitão da equipa de futebol do liceu, e a Leonor, que acabou de fazer doze e só tira notas de se invejar. Quem nos visse de fora, diria que éramos o folheto de uma companhia de seguros.

Margarida, não te esqueceste que hoje temos o jantar com os meus colegas, pois não? perguntou Ricardo, enquanto ajustava os botões de punho no espelho enorme da entrada. Veste o teu vestido azul, aquele que te fica tão bem. E avisa o João para não armar-se em esperto à mesa, por favor.
Ajeitei-lhe o colarinho do casaco e sorri no automático.
Claro, querido. Vai correr tudo lindamente.
Ricardo saiu apressado e fechou a porta do seu SUV da BMW com aquele estrondo habitual. Fiquei sozinha no hall, o sorriso suspenso como uma máscara de cera. Reparando nas minhas mãos, vi-as a tremer discretamente.

Na sala, ouvi a porta do quarto da Leonor a bater. Apareceu com a mochila nos ombros, o rosto apagado.
Mãe, dói-me tanto a cabeça outra vez Posso faltar à escola hoje?
Leonor, filha, o pai ficaria triste. Sabes bem que ele só quer que alcances os máximos. Toma um comprimido e vai. Vá, sê uma menina aplicada.
Olhou para mim com aquele olhar adulto demais para os seus doze anos. E saiu, em silêncio, em direção ao portão.

Ao meio-dia chegou uma chamada da escola. O João meteu-se noutra briga. Outra vez.
No gabinete da diretora o ambiente era pesado. Ele estava lá sentado, perna sobre perna, lábio inchado, olhar de aço.
Dona Margarida, disse a diretora, tentando ser diplomática, o João é muito talentoso, mas estas atitudes Ele magoou a sério um colega, por nada. Se isto continuar, teremos de pensar na suspensão.
Levei o João para casa sem dizer uma palavra.
Porquê, filho? Para quê? O teu pai vai ficar furioso. E ele hoje tem uma apresentação importantíssima.
Ele virou-se de repente:
O pai vai ficar furioso, O pai vai ficar triste, O que dirá o pai Tu ouves-te quando falas? Nem te interessa o motivo! Só te interessa se a fachada resiste. Só queres que no teu blog tudo seja perfeito!
Só quero que sejamos uma família normal
Nós não somos família, mãe! Isto é uma peça de teatro com o pai a diretor. Nós somos adereços! Sabes porque a Leonor não dorme? Tem medo de ouvir os passos dele no corredor, medo que ele volte a inspecionar-lhe os cadernos e gritar se o o sai torto! E tu? Ficas aí a fazer bolos e a sorrir
Agarrei o volante com uma força que doía. As palavras do João fizeram mais estragos do que os gritos do Ricardo, que raras vezes levantava a mão, só para mostrar quem manda.

De noite, a casa brilhava limpa. A mesa posta ao milímetro. O vestido azul assenta-me sem pregas. Os convidados, colegas do Ricardo com suas esposas, falavam maravilhas da casa e das entradas.
Ricardo, que sorte a tua, pá! gracejou um deles. Tão dedicada, bela anfitriã. E filhos são uns diamantes!
O Ricardo sorria vaidoso, apertando-me a cintura com mais força do que devia, para que eu me lembrasse que estava sob controlo.
Sempre disse: só há ordem no trabalho se houver ordem em casa!
A Leonor calada, a mexer na salada com o garfo. O João, outra estátua muda.
Leonor, conta ao Tio Manuel sobre a medalha da Matemática, ordenou Ricardo num daqueles tons doces cheios de veneno.
A Leonor levantou o olhar, lábios a tremer.
Eu eu não ganhei, pai. Fiquei em terceiro.
O silêncio caiu sobre a mesa. Ricardo pousou lentamente o copo de vinho.
Terceiro? Passaste as férias todas a estudar.
Ricardo, deixa agora isso, tentei intervir suavemente.
Quando, então? Quando fores só mais uma como as outras todas? Margarida, andas distraída demais com culinária para educares a miúda.
O João levantou-se de rompante, fazendo ranger a cadeira.
Chega. Basta de humilhar. Basta de pisar em toda a gente aqui.
Senta-te, rapaz disparou o Ricardo por entre dentes.
Não. O João encarou-me. Mãe, vais ficar calada? Ou vamos comer esta salada a fingir que nada se passa?

Olhei para os meus filhos. Para o João, que estava pronto para enfrentar o próprio pai por dignidade. Para a Leonor, encolhida, à espera do próximo ataque fosse de palavras ou pior. Ali, vi quem era realmente: não a mulher elegante do vestido azul, mas a menina de há trinta anos que decidiu que, afinal, a aparência era tudo.
Levantei-me devagar, sentindo todos os olhos presos em mim.
Ricardo, os miúdos têm razão. O jantar acabou, não faz sentido continuar.
Margarida, estás louca? Senta-te e pede desculpa aos nossos convidados!
Fui à mesa, agarrei o meu famoso bolo o orgulho do blog e virei-o, devagar, na toalha branca de linho. O creme escorreu, manchando tudo.
O bolo está salgado, Ricardo. Como a nossa vida. Meus senhores, peço desculpa. A noite acabou. O meu marido precisa perceber que já não governa a nossa prisão.
Perdestes o juízo, mulher! Ricardo levantou-se, ameaçador. Os convidados, chocados, começaram a sair.
Mas o João já estava à frente dele.
Faz só o teste, murmurou o meu filho no ar tenso.
Saíam todos. Pedi aos convidados, calma. Por favor.
Quando a última porta bateu, o Ricardo virou-se contra tudo e todos, explodindo sobre dinheiro, ingratidão, que sem ele não éramos nada.
Tens razão, respondi enquanto tirava os brincos e deixava-os sobre a mesa. Dentro desta casa somos nada. Lá fora, somos pessoas. Miúdos, vão buscar as coisas, vamos dormir a casa da avó. Agora.
Não vás! barrou-me a passagem. Isto é meu! O carro, a conta, a casa, tudo meu!
Sabes, Ricardo olhei para ele com a calma do esgotamento , depois de anos de medo, nada é imenso. É um mundo inteiro de possibilidades.

Fomos naquela noite, num Peugeot velho que ele gozava sempre e apelidava de lata. No porta-bagagens, malas, livros da escola e a bola de futebol do João.
Seguimos pela Marginal, noite fora. A Leonor adormeceu no banco de trás, a cabeça no ombro do João. O João, pela primeira vez em muito tempo, relaxava as mãos.
Eu estava ao volante. Senti-me livre, finalmente a respirar.
Mãe? ouvi o João, baixinho.
Sim, meu filho?
E amanhã?
Sorri. Desta vez, o sorriso era imperfeito, cansado, mas autêntico.
Amanhã, João, destruo o bolo da receita. Compramos a pizza mais barata do bairro. E depois vamos aprender a viver sem precisar do espelho para confirmarmos que existimos.

Meio ano passou. Trago o coração remendado a trabalhar numa pastelaria pequenina do bairro. O blog agora é sobre recomeços e conselhos sinceros, não fingimentos. Tenho poucos seguidores, mas sei o nome de cada um que me escreve.
A Leonor segue nas Belas-Artes. Odiava Matemática, mas pinta quadros sombrios e profundos lindíssimos. As enxaquecas desapareceram.
O João deixou as brigas e investe tudo como voluntário, ajudando no bombeiros.
Vivemos num T2 simples onde nem sempre há ordem, mas em vez de arte cara nas paredes, há desenhos da Leonor.
Já não cheira a medo. Cheira a pão quente e novas oportunidades.
O Ricardo tentou recuperar-nos: primeiro a ameaçar, depois com ramos de flores e promessas. Um dia, ao telefone, fui direta:
Ricardo Não entendes. Não fugimos de ti. Voltámos foi a ser nós. E nesse nosso refúgio, não há lugar para ti. Enquanto não aprenderes a ser pessoa, não podes voltar.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Na casa dos Vares, o aroma de limpeza e de perfumes sofisticados estava sempre presente. A anfitriã, Marina, era o retrato da perfeição: aos quarenta e cinco anos parecia ter trinta e cinco, comandava um blog de culinária com um milhão de seguidores e era casada com Paulo — um arquiteto de sucesso.