Na casa dos Varela, o aroma de limpeza e perfume de luxo estava sempre presente. A dona da casa, Marina, era a personificação da perfeição: aos quarenta e cinco anos parecia ter trinta e cinco, mantinha um blog de culinária com um milhão de seguidores e era casada com Paulo — um arquiteto de sucesso.

Lá em casa dos Vasconcelos, aquele cheirinho a limpo misturado com perfume bom era sempre presença. A dona da casa, Matilde, era um exemplo. Com quarenta e cinco anos, parecia ter trinta e cinco, tinha um blogue de culinária com milhares a segui-la e era casada com o Rui arquiteto de sucesso.

Tinham dois filhos: o Diogo, capitão da equipa de futebol da escola, com dezasseis anos, e a Carlota, de doze, um verdadeiro génio nas notas. Visto de fora, parecia anúncio de seguro de saúde.

Matilde, não te esqueceste que hoje temos jantar com os meus sócios, pois não? O Rui metia os botões de punho, a olhar para o espelho do corredor. Leva aquele vestido azul. E, se faz favor, lembra o Diogo para não armar-se em esperto à mesa.

Matilde sorriu automaticamente enquanto lhe ajeitava o colarinho:

Não te preocupes, querido. Vai correr tudo bem.

Rui saiu, batendo a porta do SUV. Matilde ficou no hall, sorriso congelado, quase máscara de cera. Olhou para as mãos, a tremerem.

Ouvia-se uma porta do quarto a bater. A Carlota apareceu já de mochila às costas, com ar pálido.

Mãe, dói-me outra vez a cabeça. Posso faltar às aulas?

Ó filha, o pai não gosta disso… sabes que ele quer sempre as melhores notas. Toma uma pastilha e vai. És uma campeã.

A menina só olhou, daqueles olhares adultos em corpo de criança, e saiu calada.

Já perto da hora de almoço, liga-lhe a escola. O Diogo meteu-se numa briga. Outra vez. No gabinete da diretora o ambiente era pesado. Ele ali, com o lábio aberto, olhar frio.

Dona Matilde… O Diogo é inteligente, mas agressivo. Hoje bateu num colega, uma coisa de nada. Se voltar a acontecer, temos de falar em suspensão.

Levam o Diogo para casa no maior dos silêncios.

Porque fizeste isto, filho? Lá perguntou Matilde. O pai vai passar-se. Ainda por cima tem aquele contrato hoje…

O rapaz virou-se de repente:

O pai vai passar-se. O que vai dizer o pai?… Mãe, ouves-te a ti própria? Preocupa-te só com o post perfeito no blogue! Não interessa o porquê.

Eu só quero uma família como deve ser…

Mas família é coisa que não temos! Isto é um teatro, o pai manda e nós somos só figurantes. Sabes porque é que a Carlota não dorme? Tem medo de ouvir o pai a rondar, a espreitar os cadernos, a ralhar pelo menos borrão. E tu só fazes bolos e sorrisinhos!

Matilde agarrou com força o volante. As palavras do filho doíam mais do que as chapadas que por vezes o Rui lhe dava “só porque sim”.

À noite a casa parecia um postal. Tudo bonito, a mesa posta à portuguesa. O vestido azul a cair-lhe lindamente. Os sócios e as mulheres babavam-se com a decoração, com as entradas.

Apanhaste sorte com a Matilde! Ria-se um. Que dona de casa, que mulher! E os miúdos… um espetáculo.

Rui inchado de orgulho, braço demasiado apertado na cintura dela. Era assim que controlava.

Sempre disse que uma casa organizada é meio caminho para tudo correr bem.

A Carlota quietinha, a brincar com o garfo na salada. O Diogo nem uma palavra.

Carlota, conta ao tio Jorge da tua medalha na olimpíada de matemática ordenou em tom de mel com ferro.

Ela levantou o olhar. Os lábios a tremer.

Não ganhei, pai. Fiquei em terceiro.

Silêncio. O Rui pousou o copo de vinho devagar.

Terceiro?! Passaste o verão a estudar.

Deixa agora, Rui murmurou Matilde.

Quando? Quando ela for como os outros? Matilde, devias controlar melhor os estudos. A cozinha anda a roubar-te tempo…

O Diogo levantou-se com estrondo.

Acaba! Chega de humilhares a Carlota. De nos humilhares a todos.

Senta-te, rapaz Rui sibilou.

Não. Mãe, diz-lhe tu. Ou vamos continuar a mastigar salada até ele nos engolir aos bocadinhos?

Matilde olhou para eles. O Diogo, capaz de se atirar ao pai para proteger o pouco que sentia seu. A Carlota, encolhida, à espera de ser castigada. E, de repente, viu-se outra vez miúda, assustada, há tantos anos atrás, a pensar que o aspeto era mais importante que o coração.

Ergueu-se devagar. Os convidados gelaram, sem saber para onde olhar.

Rui disse, enfim, com voz firme. Os miúdos têm razão. O jantar acabou.

Estás doida? Senta-te e pede desculpa.

Ela foi à mesa, pegou no famoso bolo de frutos secos e meteu-o ao contrário, espalhando creme pela toalha branca.

O bolo está salgado, Rui. Como a nossa vida. Meus senhores, desculpem. A noite terminou. O meu marido precisa de perceber que já não manda na nossa prisão.

Perdeste a cabeça… Rui levantou-se, braço lançado. Os convidados saltaram assustados.

Mas o Diogo meteu-se entre eles.

Tenta lá, murmurou, voz baixa.

Por favor, saiam pediu Matilde aos convidados.

Quando a última porta se fechou, Rui partiu quase tudo. Queixou-se da ingratidão, que lhes dava tudo, que eram ninguém sem os euros dele.

Tens razão disse Matilde enquanto tirava os brincos. Aqui não somos ninguém. Lá fora, somos pessoas. Miúdos, vão buscar as coisas. Vamos ficara na avó.

Não sais daqui! É tudo meu! A casa, o carro, o dinheiro! Ficas sem nada!

Ó Rui… Depois de tantos anos a viver com medo, nada é quase tudo. É um mundo de possibilidades.

Saíram naquela noite, dentro do Fiat velho da Matilde, sempre desdenhado e chamado de “charuto”. O porta-bagagens cheinho de malas, livros, a bola do Diogo.

Pelas estradas fora, a Carlota adormecida no banco de trás, cabeça encostada ao irmão. Diogo a olhar pela janela, sem os punhos fechados, finalmente.

Matilde conduzia. Sentia os pedais, o volante, o ar… há anos que não respirava assim.

Mãe? sussurrou o rapaz.

Sim, filho?

E amanhã?

Matilde deu um sorriso torto, cansado, real.

Amanhã, queimo o raio da receita do bolo. Compramos a pizza mais barata que houver no bairro. E depois… aprendemos a viver sem precisar do espelho para provar que existimos.

Meio ano depois, Matilde era cozinheira num café acolhedor. Transformou o blogue: agora já não era sobre vida perfeita, mas sobre remendar corações partidos com receitas simples. Tinha menos seguidores, mas sabia o nome de quem a apoiava.

A Carlota entrou para a escola de artes. Descobriu-se que odiava matemática mas pintava quadros intensos, escuros, profundos. As dores de cabeça desapareceram.

O Diogo deixou de andar à pancada. Dava o tempo livre a ajudar na proteção civil como voluntário.

Moravam num T2 pequeno, nem sempre impecável, nas paredes desenhos da Carlota em vez de impressões caríssimas. Mas medo, esse, já não se sentia ali.

O Rui ainda tentou que voltassem ameaçou, depois pediu, mandou flores, prometeu mudança. Até que um dia, ao telefone, a Matilde foi clara.

Ó Rui, não percebes. Nós não fugimos de ti. Só voltámos para nós próprios. E para esse nosso lugar, só entras quando aprenderes a ser homem, não arquiteto da vida alheia.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Na casa dos Varela, o aroma de limpeza e perfume de luxo estava sempre presente. A dona da casa, Marina, era a personificação da perfeição: aos quarenta e cinco anos parecia ter trinta e cinco, mantinha um blog de culinária com um milhão de seguidores e era casada com Paulo — um arquiteto de sucesso.