Amiga, deixa-me contar-te o que me aconteceu, porque ainda hoje penso nisto com um sorriso sereno. Imagina: sete anos a viver sozinha. Quer dizer, sozinha, sozinha… só se não contares o meu gato Tobias e as amigas que vinham cá a casa para beber um chá e pôr a conversa em dia. A vida corria calma: sem dramas, sem pressas, sem ninguém a meter o bedelho na minha rotina. E o mais estranho para muita gente era que eu, com 63 anos, estava mesmo feliz assim.
Até que, num daqueles fins de tarde em Lisboa, a minha amiga Carmo resolve dizer:
Olha, Aurora, não tens medo de te acostumares tanto à tua própria companhia que depois já não consigas deixar ninguém entrar?
E eu só me ri:
Mas para quê, se eu estou mesmo bem assim?
Mas a verdade é que aquela frase ficou a ecoar algures cá dentro. Vais acostumar-te demais…. Como se estar sozinha fosse uma coisa má, uma doença que fosse urgente tratar.
E, não há de quê, cerca de um mês depois, outros amigos apresentaram-me ao João. Ele com 65, eu com 63 gente madura, cada um já com a sua bagagem. Pensei: Ora, porque não? Talvez esteja na hora de sair da minha concha….
Três meses depois, percebi: às vezes, a solidão é mais acolhedora do que uma relação onde te sentes invisível.
Quando a paz faz mais companhia do que alguém ao teu lado
Ao longo destes sete anos, nunca me senti realmente só. Claro, logo a seguir ao fim do meu casamento foi doloroso: mágoa, desapontamento, aquele vazio por dentro. Mas, com o tempo, equilibrei-me.
Adotei o Tobias. Aprendi a fazer café à moda antiga, na cafeteira. Deixei de acordar com aquela angústia no peito. Passei a ler mais, a passear pelo Bairro Alto, a fazer coisas só para mim.
No início foi estranho, claro. Mas aprendi a gostar de estar comigo. E um dia, à mesa da cozinha, disse à Carmo:
Olha, estou mesmo bem.
Ela riu-se:
Só não abuses, que depois ninguém te entra no coração.
Mas eu não queria alguém só para não estar sozinha. Queria carinho, respeito, conversa decente. Como vim a perceber, alguns homens ouvem apenas: Ela está só, vai aceitar tudo.
Apareceu com flores e elogios
O João entrou na minha vida por amigos comuns. Viúvo, simpático, um daqueles homens com o tal feitio de ouro que toda a gente fala. E diziam ainda que era um verdadeiro faz-tudo.
Começou logo a mostrar-se: trazia flores, convidava-me para tomar café num sítio giro, fazia piadas. E aqueles elogios que adoçam o ego: Parece que tens uns dez anos a menos. Nem pareces da tua idade.
Sabe sempre bem, mas não deixava de ter aquele cuidado. Era como abrir uma porta que esteve fechada anos: tudo parecia estranho, desconfortável. Mas dizias a ti mesma: Deixa-te ir, experimenta.
O primeiro mês foi, pronto, jeitoso. Dávamos passeios ao fim da tarde, víamos um filme juntos ali no meu sofá, jantávamos às vezes. Ele tão atencioso que até pensei: Se calhar nem todos são iguais….
Só que, logo ali, apareceram os primeiros sinais de alarme.
Pequenos avisos, grandes sinais
Um dia, incomodou-se porque não quis logo ir viver com ele:
Oh Aurora, para quê complicar? Já temos uma certa idade… disse ele, a sorrir.
Mas olha que não me vou atirar assim de cabeça, não faz parte da minha natureza, respondi-lhe, tranquila.
Então fica lá no teu cantinho…
Achei graça, pensei que era só brincadeira. Mas registei.
Depois vieram outros comentários:
Tantas amigas, estás sempre com elas.
Ainda perdes tempo nas redes sociais? Para quê isso agora?
Olha que estás a comer muito sal, isso à tua idade dá problemas…
Falava sempre assim, como quem dá ordens. Não era nós, era tudo tu. Bem diferente, não achas?
E o pior: estava sempre a tentar corrigir-me, a ensinar-me qualquer coisa, como se eu fosse uma adolescente sem rumo e não uma mulher que já tinha vivido tanta coisa.
O segundo mês: um desgaste silencioso
Comecei a ficar cansada. Não era um cansaço do corpo, era ali, na alma.
Sentia que ele me via sempre à lupa, à procura de defeitos, sempre a apontar: Aqui estás errada. Ali também. Fazes tudo mal.
Até ficou com ciúmes do meu ritual matinal aquele café sozinha, em silêncio.
Se não quis ir de fim de semana a uma aldeia dele porque já tinha marcado um jantar com amigas, ficava meia hora sentido. Repetia que eu mantinha distância, e só tinham passado seis semanas!
Houve um dia em que não aguentei e disse-lhe:
Sabes, às vezes tenho a sensação de que não me aceitas como sou.
Ele sorriu e disse:
Estou só a tentar ensinar-te a seres uma mulher normal.
Foi como se deixasse cair um peso cá dentro e pensei, ali mesmo: Aurora, faz-te à vida.
O episódio final, na minha casa
A gota de água foi quando apareceu à minha porta sem avisar, a tocar no intercomunicador:
Estou aqui à porta, abre lá.
Respondi-lhe que estava de roupão, ocupada.
Ele irritou-se logo:
O que é que podes estar a fazer numa manhã de sábado? Não consegues receber-me? Não queres mesmo é ver-me.
Ficou ali a falar mais alto, para todo o prédio ouvir. Depois veio com essa de querer a chave de minha casa, por segurança. E, por fim, silêncio daqueles frios e cheios de acusações.
Nessa noite dormi como há muito não dormia. Em paz. Sem chamadas, sem pressões nem aquela ansiedade constante de ter de corresponder a expectativas que nunca são as minhas.
O que fiz depois: voltei a encontrar-me
Não chorei. Não fiquei pela noite fora a olhar para o telemóvel, nem fui perguntar às amigas se fui eu que estraguei tudo.
Sentei-me numa cadeira, peguei num caderno e escrevi uma frase para mim mesma:
Aurora, não deves nada a ninguém. O teu silêncio não é vazio. É o teu espaço, onde há respeito.
Depois preparei um café, fui para a varanda com um livro. No dia seguinte fui ao teatro com a Carmo. Inscrevi-me em aulas de yoga.
Devagarinho, voltei ao meu ritmo. À minha vida, onde não preciso de me justificar a ninguém.
As lições destes três meses
Sabe-se lá quantos dizem: Depois dos sessenta, convém agarrar o que vier. Não é nada assim. Não é o que vier, é quem vale a pena.
Primeira lição: se um homem fala da tua casa como se fosse uma toca, não é piada está só a desvalorizar o teu mundo.
Segunda: quem quer ensinar-te a ser uma mulher normal nunca te vai aceitar com os teus defeitos e feitios.
Terceira: aparecer sem avisar e exigir a tua presença não é carinho, é controlo.
Quarta: se a separação te alivia em vez de magoar, é porque estar juntos só fazia sentido para um para chegar ao fim.
Quinta: estar sozinha não significa vazio, é espaço para ti. Não tens de o preencher com o primeiro que aparece.
O desfecho: escolho a minha paz
Tenho 63 anos. Não espero já nenhum príncipe ou amores de novela. Nem ando à procura da metade da laranja.
Se alguém aparecer na minha vida, já sei muito bem: quero respeito, aceitação, poder ser eu própria. Não preciso de grandes palavras, flores ou elogios.
Quero só isso: respeito. Se não houver, prefiro o meu silêncio. Tranquilo, confortável, só meu.
Porque uma solidão com respeito sabe melhor do que uma relação que nos apaga.
Estou bem sozinha. E está tudo certo. Não é fraqueza, é liberdade é maturidade, finalmente. E sabes que mais? É tão bom.






