Diário de 14 de setembro
A Estrada Nacional 2, àquela hora tardia da tarde, parecia quase silenciosa aquela pausa morna e expectante antes do pôr do sol mergulhar nos campos dourados do Alentejo. O céu brilhava num tom âmbar quente e a longa faixa de alcatrão estendia-se interminável, companhia habitual para mim, Álvaro Ribeiro, em cada curva e subida. O roncar regular da minha mota era há anos o meu refúgio como se aquele motor cadenciado me impedisse de ser apanhado pelo passado de vez.
De repente, no retrovisor, luzes a piscarem: vermelho, azul, vermelho, azul. Claras, insistentes era impossível ignorá-las.
Encostei calmamente à berma e desliguei o motor. Suspirei, já adivinhando a razão da paragem. O farolim traseiro tinha voltado a falhar. Pensei em arranjá-lo nessa manhã, mas, como tantas vezes já me tinha acontecido, o tempo escapou-me por entre os dedos. Há hábitos que vêm com a idade, outros com vidas passadas quase sempre na solidão.
Estava habituado à estrada mas nunca às surpresas capazes de abalar um coração já calejado.
Fiquei sentado, sem tirar o capacete, com as mãos pousadas no guiador. Passos no cascalho aproximavam-se firmes, controlados, de quem estava habituada àquele ofício.
Boa tarde, senhor.
A voz era calma. Feminina. Jovem, mas firme.
Sabe porque é que o mandei parar? perguntou a agente.
Abanei devagar a cabeça.
Suponho que seja pelo farolim respondi, rouco, como alguém que passou demasiados anos ao vento e na estrada.
Exatamente. Peço-lhe os seus documentos, por favor.
Estiquei a mão ao bolso interior do casaco. Os dedos tremiam ligeiramente ao puxar a carteira. Entreguei os documentos e só então levantei o olhar.
Nessa altura, parece que tudo à minha volta congelou.
Ela estava ali, mesmo à minha frente. A farda assente na perfeição, postura de quem sabe o que faz. O crachá brilhava no peito ao lusco-fusco do largo do entardecer. Na placa podia ler-se: Agente Mafalda Figueiredo.
Mafalda.
O nome acertou-me com mais força do que qualquer luz intermitente.
O peito apertou-se, o ar tornou-se escasso. Tentei convencer-me de que era apenas uma partida da memória, que a saudade era capaz de desenhar coincidências onde não existiam. Mas os olhos recusaram-se a enganar-me.
Aqueles olhos escuros, atentos, com uma doçura discreta eram os da avó dela; reconheceria onde fosse. E, junto ao lóbulo esquerdo, quase impercetível, mas impossível de negar para quem a procurou durante uma vida, estava uma pequena mancha em forma de lua minguante.
As mesmas feições atentas. Os mesmos gestos familiares que só a intimidade permite reconhecer.
As pernas ficaram-me bambas. Por um instante, estrada, mota e o carro da GNR pareceram afastar-se para uma dimensão longínqua.
Trinta e um anos.
Trinta e um anos à procura daquela marca.
A agente voltou a olhar para os meus documentos:
Álvaro Ribeiro Esta é a sua morada atual?
Sim, senhora agente, murmurei maquinalmente.
Pouca gente me chamava pelo nome próprio. Ao longo de anos e viagens, tinha ficado conhecido só por Fantasma aparecia e desaparecia onde menos se esperava, sem nunca ganhar raízes em lado nenhum.
O rosto dela mantinha-se imperturbável. Claro. Se a mãe mudara nomes e jamais olhou para trás, se esta filha cresceu afastada do apelido Ribeiro, por que haveria aquela agente de se abalar ao ouvirem-no?
E, no entanto, reparei nos detalhes: o jeito de balançar o peso para trás, de ajeitar uma mecha atrás da orelha, o modo como lia os papéis com concentração. Vi todos esses gestos em menina a minha filha sentada no chão entre lápis espalhados.
Senhor, a voz da Mafalda devolveu-me ao presente. Preciso que saia da mota.
O tom era calmo, formal: fazia o seu trabalho.
Acenei que sim e desci devagar. As articulações protestaram, mas nem lhes dei atenção. A cabeça girava, cheia de memórias: rajadas de vento do passado sobrepostas à realidade.
Lembrei-me da mão pequenina a agarrar-me o dedo, das promessas sussurradas: Vou sempre encontrar-te, seja onde for.
Recordava-me de a embalar em bebé, de lhe prometer noites seguidas que nunca desistiria. Recordava-me também do dia em que voltei a casa e encontrei o vazio: nenhum bilhete, nenhum rasto, apenas um silêncio que ecoou nos anos seguintes.
Procurei-a até cansar: papéis, telefonemas, pistas soltas, boatos. Depois, os fios cortaram-se. A vida continuou não havia alternativa. Mas dentro de mim, a busca nunca terminou.
Por favor, coloque as mãos atrás das costas, pediu Mafalda.
As palavras demoraram um instante a ter sentido. Depois, senti o frio metálico nas pulsos.
Ela colocou-me as algemas com cuidado, sem pressa, com a serenidade de quem segue o protocolo.
Tem uma multa não paga e já existe mandado de detenção. Tenho de o levar para a esquadra, explicou sem hesitação.
Uma multa. Um erro administrativo, provavelmente. Naquele momento, tudo isso era irrelevante.
Importava-me apenas uma coisa: a minha filha, há tanto desaparecida, estava ali e cumpria o seu dever sem saber quem eu era.
Ela deu um passo atrás e olhou-me nos olhos. Por breves segundos, algo no seu rosto deixou transparecer uma dúvida, faísca de reconhecimento, uma inquietação que nem o uniforme conseguia esconder.
Eu via o passado inteiro nela, o que persegui uma vida. Para ela, eu era apenas um estranho mas alguma coisa a impedia de desviar o olhar.
Agente Figueiredo, disse eu, baixo.
Ela ficou alerta, mas respondeu:
Sim?
Posso fazer-lhe uma pergunta?
Hesitou, depois anuiu.
Rápido.
Já se questionou sobre a pequena cicatriz por cima da sua sobrancelha?
A sua mão apertou levemente o cordão das algemas.
Como disse?
Tinha três anos, continuei suavemente. Caiu de um triciclo vermelho no quintal. Chorou cinco minutos e depois insistiu em gelado, como se nada tivesse acontecido.
O ar ficou denso.
Os olhos dela arregalaram-se só um pouco, mas o suficiente para eu saber que acertara no segredo.
Como sabe isso? sussurrou, a voz já a tremer.
Ao longe, um automóvel passou, mas o ruído parecia vir de outro mundo. O sol mergulhava, alongando sombras na estrada.
Engoli em seco.
Porque eu estava lá, disse. Fui eu que a levantei e a levei para casa.
Ela encarava-me, como quem tenta juntar as peças do que ouve com aquilo que vê. Entre nós, a distância de décadas parecia encolher num instante.
Durante um segundo que pareceu eterno, duas vidas que nunca se encontraram, finalmente cruzaram-se.
E para ambos, foi um começo totalmente novo.
Epílogo: Uma paragem comum na estrada acabou por ser uma descoberta que ninguém podia prever. Ganhei uma oportunidade para respostas que sempre procurei, e Mafalda pôde sentir, pela primeira vez, que há em si uma história em falta. Agora, já não são as luzes nem a burocracia que decidem o futuro mas sim a verdade, à qual finalmente chegámos frente a frente.







