Olha, tenho de te contar uma coisa que me deixou mesmo mexido, parece cena de filme. Então, imagina o Rui, um empresário daqueles que dá cartas em Lisboa, finalmente regressa a casa depois de três meses a correr mundo em negócios. O voo de volta parecia não ter fim, mas a adrenalina não o largava. Noventa dias de contratos, reuniões atrás de reuniões, e decisões gigantescas que encheram ainda mais a conta bancária dele mas também lhe roubaram a coisa mais valiosa: tempo com a filha.
Nem pensava nos negócios, nem nos jornais que andavam sempre atrás dos seus feitos. Só pensava na Leonor, a filhota. Dava por si a imaginar o sorriso dela, aqueles passinhos apressados pelo corredor de mármore, braços esticados a correr para ele. No aeroporto, comprou-lhe logo um urso de peluche enorme, só de imaginar o brilho que ia ver nos olhos dela.
Senhor Mendes, já chegámos, disse-lhe o motorista, interrompendo os pensamentos.
Os portões da quinta abriram-se, mas era como se faltasse qualquer coisa no ar não se ouvia nem um brinquedo, não se sentia aquela alegria típica. A Leonor não estava por ali.
Por dentro, a casa parecia fria, diferente. O retrato da família tinha desaparecido da parede; no lugar dele, uma imensa pintura da Patrícia.
Isabel?, chamou Rui.
A empregada, com olhos vermelhos de quem andou a chorar, apareceu a medo: Está lá fora, senhor
O coração dele disparou, e foi logo à procura. Assim que chegou à porta de vidro do terraço e a abriu, quase caiu para trás. O mundo dele desabou.
Debaixo do sol, no meio do jardim, lá estava a Leonor a arrastar um saco preto do lixo, maior do que ela própria. Os bracinhos tremiam, a roupa suja e tudo. A uns metros, a Patrícia indiferente bebia café gelado como se nada fosse.
Leonor!
A menina caiu de joelhos, os olhos cheios de medo. Pai desculpa já estou quase a acabar não fiques zangado
O Rui correu e abraçou-a com tanta força, de coração partido. O que te fizeram, meu amor
E, acredita, o que a rapariga lhe respondeu, fez-lhe o chão desaparecer.
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A Leonor agarrou-se à camisa do pai como se o mundo dela dependesse disso, com aquela vozinha a tremer.
Patrícia disse que eu tinha de ajudar que crianças mimadas não merecem viver aqui. E que se trabalhasse bem, talvez tu ficasses orgulhoso de mim
O Rui ficou sem ar, como se o tivessem socado no estômago.
Trabalhar? Desde quando é que uma criança tem de merecer o carinho do pai?
Leonor baixou ainda mais a cabeça.
Ela também disse que tu não voltavas por minha causa. Que eu era um peso. Por isso, tentei ser útil para tu voltares.
Olha, essas palavras doeram-lhe mais que qualquer perda financeira. Pegou nela ao colo, como fazia quando ela era só um bébé.
Tu és tudo para mim, Leonor. Ouves? Nada, nada neste mundo é mais importante do que tu.
De olhar sério, Rui entrou em casa. A Patrícia levantou-se, apanhada de surpresa pela raiva dele mas aquela calma gélida assustava qualquer um.
Pega nas tuas coisas. Agora.
A voz dele foi fria, certeira.
Depois virou-se para a Isabel: Nunca mais voltas a abrir aquela porta para ela.
Nessa noite, o Rui cancelou todas as viagens que tinha marcadas. Sentado ao lado da cama da Leonor, percebeu que a verdadeira riqueza não estava no saldo do banco estava ali, nos braços dele.






