O empresário rico viu a sua empregada a dançar com o filho na cadeira de rodas e ao início, expulsou-a de casa.
Miguel já ouvia a música ainda na escada. Era alto, popular, a tocar numa rádio local. Ele empurrou a porta e ficou parado, surpreendido.
No centro da sala estava Catarina, a empregada, a segurar Tomás sob os braços, levantando-o suavemente da cadeira de rodas. Girava com ele, marcando o compasso do rádio com os pés. O filho atirava a cabeça para trás e ria, agitando as mãos.
Pára! gritou Miguel tão alto que Catarina quase deixou cair o menino.
Ela apressou-se a colocar Tomás na cadeira, ajeitou-lhe o cobertor. A música continuava a tocar. Miguel avançou até ao aparelho e desligou-o abruptamente.
O que é que estás a fazer? Ele não é nenhum brinquedo! Tem a coluna danificada, sabes disso ou não?
Eu tive cuidado, segurei-o bem
Cuidado?! Miguel tirou dinheiro da carteira e atirou para cima da mesa. Aqui está o teu pagamento da semana. Arruma as tuas coisas e desaparece daqui. Não quero voltar a ver-te.
Catarina recolheu as notas, guardou-as no bolso do casaco. Olhou para Tomás ele virou-se de costas para a janela, com a cara aterrorizada. Catarina saiu sem se despedir.
Miguel aproximou-se do filho, sentou-se ao lado dele.
Tomás, percebes que ela podia magoar-te, podias piorar
Tomás ficou em silêncio. Olhava a rua como se o pai não existisse.
Nessa noite o filho não tocou na comida. Sentou-se a olhar fixamente. Miguel tentou falar inútil. Tomás calava-se, como quando teve o acidente na estrada há três anos, logo depois de sair do hospital.
Miguel foi para a cozinha, serviu um copo de água, mas nem bebeu. Sentou-se, deixou cair a cabeça nas mãos. Durante três anos gastou tudo em médicos, fisioterapeutas, clínicas. Vendeu a casa de praia, acumulou dívidas. Trabalhou demasiado. E o filho cada vez mais se fechava, quase que não falava.
Mas naquele dia, ele tinha-se rido. Pela primeira vez em três anos. E Miguel destruiu esse momento.
Levantou-se, foi até à porta do quarto. Espiou. Tomás continuava imóvel, de rosto virado.
Miguel lembrou-se: há uma semana, a vizinha do andar de baixo abordou-o no prédio, comentou algo curioso. De manhã ouve-se música, risadas. Fico contente, Tomás parece melhor. Na altura não deu importância. Agora percebeu.
Voltou ao quarto, sentou-se no chão junto à cadeira de rodas.
Ela faz isso contigo muitas vezes?
Tomás calou-se. Depois, murmurou entre dentes:
Todos os dias. Contava-me sobre o mar. Que íamos lá quando eu conseguisse levantar-me. Ela acreditava que eu ia conseguir.
A garganta de Miguel apertou.
Pai, Tomás virou-se, e nos olhos tinha uma tristeza que Miguel não aguentou encarar. Pela primeira vez em três anos senti-me vivo. Tu mandaste-a embora.
Miguel não soube responder. O filho voltou a virar-se.
Na manhã seguinte, Miguel foi ao Bairro da Liberdade, na periferia de Lisboa, onde Catarina morava. Encontrou o prédio antigo, já com varandas gastos. Subiu ao quarto andar, bateu à porta.
Catarina abriu em robe, surpresa ao vê-lo. Não deixou logo entrar, ficou na porta.
Miguel Pereira?
Posso entrar?
Ela hesitou, mas deu espaço. Na pequena cozinha cheirava a papas e a linóleo antigo. Havia um vaso de gerânios na janela. Pobres, mas limpos.
Miguel tirou o boné, torceu-o nas mãos. Parecia um estudante perante a diretora.
Estava errado, murmurou, olhando para o chão. Fiquei com medo de que magoasses o meu filho. Mas só tu conseguiste devolvê-lo à vida.
Catarina encostou-se ao frigorífico, em silêncio.
Ele passou a noite calado. Como naquela altura depois do acidente, quando saiu do hospital. Olhava para a parede. Miguel ergueu os olhos. Depois disse que tu acreditavas nele. Que se sentia vivo contigo. Pela primeira vez em três anos.
Catarina cruzou os braços.
O que o está a matar não é a doença. És tu. É o teu medo.
Foi como um murro. Miguel apertou os punhos, mas não respondeu.
Ele vive preso entre quatro paredes. Tu compras médicos, pomadas, mas não lhe dás vida. Catarina encarou-o. Sabe o que é mais assustador? Não é a cadeira. É ele deixar de querer alguma coisa.
Só não quero prejudicá-lo, a voz de Miguel falhou. Quero só facilitar-lhe
Facilitar? Catarina abanou a cabeça. Ele precisa de viver, não de facilidades. O estás a esconder da vida, e ele quer viver.
Miguel sentou-se no banco, cobriu a cara com as mãos.
Volta, por favor. Não volto a interferir. Faz o que achares melhor. Só volta
Catarina ficou calada, suspirou.
Vou voltar. Mas vou fazer as coisas à minha maneira. Sem proibições. Está acordado?
Está, assentiu ele, sem levantar a cabeça.
Catarina regressou nessa tarde. Tomás viu-a na porta e não conseguiu conter-se chorou, como criança. Ela abraçou-o, acariciou-lhe o cabelo. Miguel ficou na entrada, envergonhado.
A partir desse dia, Miguel deixou de controlar. Catarina chegava todas as manhãs, punha música, conversava e ria com Tomás. Miguel, na cozinha, escutava as gargalhadas e entendia que durante três anos tinha feito tudo errado: queria comprar a saúde do filho, quando só precisava de lhe dar o direito de viver.
Uma semana depois, Miguel reduziu o horário de trabalho, começou a chegar mais cedo a casa. Passou a contratar menos motoristas, deixou de procurar tantos clientes. Os euros entravam menos, mas via Tomás recuperar: voltava a falar, a brincar, até a discutir.
Numa noite, estavam à mesa, a jantar, Catarina contava uma história sobre a infância. Tomás escutava atentamente. Miguel olhava para os dois e percebeu: parecia uma família. Uma verdadeira.
Catarina, posso pedir-te um favor? Miguel largou o garfo.
Claro.
Quero construir um espaço no parque, para crianças como o Tomás. Para brincarem, conviverem. Ajudas-me?
Catarina olhou-o surpreendida.
Está a falar a sério?
Completamente, assentiu ele. Durante três anos só pensei em curá-lo. Deviam ser três anos a pensar em como lhe dar vida. Mostraste-me isso.
Tomás estava de olhos arregalados.
Pai, a sério? Vai estar lá mais crianças?
Sim filho, prometo.
Dois meses depois o espaço estava feito. Miguel contratou uma empresa, investiu tudo o que tinha guardado. Caminhos largos, rampas, piso plano, cobertura para a chuva, bancos para os pais.
No dia da inauguração foram juntos. Tomás olhava tudo com um entusiasmo enorme, como se estivesse a descobrir o mundo. Lá estavam outras crianças em cadeiras de rodas, pais e cuidadores.
Catarina aproximou-se de uma mãe, conversou, apontou para Tomás. A mãe sorriu, empurrou a sua filha para junto dele.
Pai, olha! Tomás puxou-o pela manga. Aquela menina? Posso ir cumprimentá-la?
Claro, Miguel engoliu em seco. Vai.
Catarina levou-o até aos outros. Miguel ficou junto à entrada, observando o filho rir, gesticular, contar histórias. Vivo. Real.
De longe, Catarina olhou para Miguel. Ele correspondeu com um aceno. Ela sorriu.
Nesse final de tarde, Tomás não ficou calado. Contou sobre a menina Mariana, o rapaz Gonçalo, sobre a promessa de Catarina o levar ali toda semana. Miguel escutava, e pela primeira vez em muito tempo, sentiu que tudo ia ficar bem. Devagar, mas ia.
Compreendeu: amar não é proteger do mundo. É dar oportunidade de o conhecer.






