Miguel chegou à aldeia para visitar a sua tia. Aproximou-se da casa familiar, abriu o portãozinho e, no quintal, foi recebido por Helena.

Miguel chegou à aldeia para visitar a sua tia. Aproximou-se da casa tão familiar, abriu o portão e foi recebido por Lourdes no quintal.

Mas porque não telefonaste, nem avisaste? disse ela, abraçando o sobrinho.

Queria fazer-te uma surpresa, sorriu Miguel.

Tia Lourdes apressou-se a pôr a mesa, almoçaram juntos, e a conversa fluía até que ela mudou de tom.

Olha só o que encontrei no baú da despensa, disse subitamente, entregando-lhe um papel antigo.

Miguel abriu o documento e foi lendo, ficando cada vez mais sério à medida que entendia o conteúdo.

Não te preocupes, tentou acalmar o sobrinho Lourdes. Isso já tem muitos anos! E olha bem para ti, criaste dois filhos lindos. Não vieste do vento…

Nessa noite, Miguel ficou a dormir na casa da tia, mas não pregou olho. O laudo que tinha lido dizia respeito a ele: afirmava que, devido a uma doença sofrida aos sete anos, Miguel não poderia ter filhos. Este papel fora entregue à mãe dele, mas ele nunca soubera da sua existência.

Será um erro?, pensava. Se acreditar nisto, significa que eduquei crianças que não eram minhas. Mas eu confio plenamente na minha mulher.

Miguel perdeu a mãe antes de completar dez anos; o pai rapidamente trouxe outra mulher para casa, e o menino começou a passar noites em casa da tia Lourdes, irmã mais nova da mãe. Foi ela quem lhe deu carinho e o ajudou a crescer.

Depois do serviço militar, Miguel optou por não regressar à aldeia não havia trabalho, e a relação com o pai era distante. Instalou-se na cidade, começou como motorista, vivendo numa pequena pensão, até que ganhou experiência e passou a ser camionista de longo curso. Com muito esforço, comprou uma casa.

Mais tarde conheceu Mariana. Antes de se casarem, ela já lhe disse que estava grávida. Viveram felizes. Três anos após o nascimento da filha, nasceu o filho.

Quase aos quarenta anos, Miguel saiu da estrada, já com algumas poupanças, e abriu a própria empresa de transportes, que com tempo e muito trabalho se tornou estável e rentável.

Assim que saiu da aldeia, Miguel foi para Lisboa. Sem saber o que fazer com essa dúvida, procurou um especialista, que confirmou o diagnóstico antigo. Voltou para casa com o coração apertado.

O Miguel já chegou! sorriu Mariana. Vens jantar?

Não, respondeu seco, pousando à frente dela o laudo médico.

O que é isto? perguntou ela, assustada.

Um papel que diz que eu nunca poderia ser pai.

Mariana sentou-se de repente, pálida.

Isso é impossível, Miguel, está aqui um erro!

Se continuares a mentir, vou-me embora.

Ela respirou fundo, e decidiu explicar tudo.

Contou que, ainda na escola, namorava um colega, mas ele acabou por a trocar por uma amiga dela. Foi nessa altura que conheceu Miguel. Quando descobriu que estava grávida, não tinha a certeza de quem era o pai, e casar pareceu a salvação. Miguel interrompeu:

Com a primeira criança, percebo. Mas como é que explicas o segundo filho?

Mariana começou a chorar e limpando o rosto, confessou:

Trabalhavas muito fora, e um dia reencontrei aquele antigo namorado. Tivemos uma única noite, de um erro nunca aceitei. Percebi tarde demais o valor que tinhas na minha vida. O meu amor és tu, o resto foi apenas ilusão.

Miguel ficou sentado, de cabeça entre as mãos.

Miguel, não vás… Não sei viver sem ti.

Não consigo sequer olhar para ti, disse ele, saindo porta fora sem olhar para trás enquanto Mariana, em lágrimas, o tentava deter.

Para se distrair, Miguel mergulhou no trabalho. Ao fim de semana, voltou para a aldeia e para a companhia silenciosa de tia Lourdes. As noites eram as piores. Reflectia:

A vida perdeu o sentido… Mas se soubesse disto quando saí da tropa, nunca teria tido família, nunca teria sentido a alegria de ser pai. Foram tantos momentos felizes que vivi por causa da minha ignorância…

No domingo, chegaram os filhos de Miguel à aldeia.

Pai, não sei o que se passou entre vocês, mas parece que também te afastaste de nós. Não nos queres ver? confrontou-o a filha.

Claro que vos quero, e amo-vos. Simplesmente com a vossa mãe tive um grave problema, respondeu ele.

Pai, volta para casa, a mãe chora sem parar. Tenho medo do que possa acontecer, pediu o filho.

Pai, deixa de estar zangado com a mãe. Tenho boas notícias: em breve vão ser avós, disse a filha, sorridente.

Miguel abraçou a filha.

Isso sim, é uma ótima notícia!

Pai, só voltamos contigo. Chega de afastamentos. Depois de tantos anos nada pode separar uma família, disse o filho, decidido.

Está bem, vocês convenceram-me, sorriu Miguel. Vamos para casa.

E assim, Miguel entendeu: às vezes o que não sabemos pode tornar a nossa vida mais feliz, mas o essencial é o amor que damos e recebemos. Aceitar os erros e perdoar pode ser o maior presente que damos à nossa família.

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Miguel chegou à aldeia para visitar a sua tia. Aproximou-se da casa familiar, abriu o portãozinho e, no quintal, foi recebido por Helena.