— Mas tu nunca me amaste, disseste que casaste comigo sem amor. Agora, vais-me deixar agora que adoe…

Nunca me amaste de verdade Casaste comigo sem amor. E agora vais abandonar-me, agora que fiquei doente

Nunca te abandonarei! disse Beatriz, envolvendo-se nos braços de Gustavo. És o melhor homem do mundo. Jamais te deixaria

Gustavo não conseguia acreditar que era sincero. Os seus ânimos estavam em baixo, sentia-se derrotado.

Beatriz foi casada durante vinte e cinco anos e, em todos esses anos, continuou a ser uma mulher admirada pelos homens. Já em jovem era das raparigas mais cobiçadas do bairro de Alfama.

Aliás, nem só na adolescência! Mesmo no tempo da escola, todos os rapazes andavam atrás de Beatriz. No entanto, não se podia dizer que fosse uma grande beleza.

Também nunca se separou do marido, ainda que ele tivesse um feitio complicado Manuel era uma figura difícil de entender.

Ainda assim, viveu com Manuel até ao fim da vida dele. Criaram e deram tudo à filha. A sua filha, Leonor, casou e foi viver para França com o marido. Agora mandavam-lhes fotografias maravilhosas do campo e convidavam a mãe a ir visitá-los. Mas Beatriz e Manuel nunca chegaram a ir até lá juntos… Talvez Beatriz ainda visite um dia. Quanto a Manuel, já cá não está.

O marido de Beatriz morreu num acidente de carro, de forma absurda Depois soube-se que, provavelmente, lhe bateu uma fraqueza enquanto conduzia. Talvez tenha tido uma dor no peito, ficou desorientado, não conseguiu travar a tempo.

Será que perdeu os sentidos? tentou adivinhar Beatriz.

Agora já nada saberemos com certeza suspirou a amiga, Teresa, que era médica. O relatório diz apenas: múltiplos traumatismos incompatíveis com a vida.

Beatriz ficou em choque profundo. Teresa ajudou-a em tudo o que era preciso organizar.

Foi ela quem descobriu todas as pormenores. Manuel foi sepultado, Beatriz ficou sozinha naquela casa grande que tinham construído ao longo de uma vida inteira.

Era grande para duas pessoas, mas de cada vez que havia visitas, até parecia pequena. Agora, para uma só mulher, era pesada. Um fardo.

Casa precisa de mão de homem…

Numa última visita a Portugal, Leonor falou com a mãe sobre vender a casa, comprar um apartamento e mudar-se para junto deles, em França.

Não! quase gritou Beatriz. Não construí esta casa para a vender. E não quero ir para a tua França. Já estive lá

Ó mãe!

És mesmo ingénua, Leonor! sorriu Beatriz, entre lágrimas Estou só a brincar.

Bom, se é piada, talvez as coisas não estejam assim tão mal.

Tudo era confuso, tanto como Manuel tinha sido em vida. Por um lado, fora um marido afetuoso e dedicado; por outro, tinha uns acessos de mau humor que esgotavam a paciência de Beatriz. Depois, pedia desculpa, arrependido, e Beatriz, de natureza leve, não se prendia a esses episódios. Assim viveram durante vinte e cinco anos. Uma vida!

Leonor ficou uns dias e partiu o marido precisava dela e tinha muito trabalho. Beatriz ficou só.

Conhecendo-se como se conhecia, Beatriz sabia que não ia ficar sozinha por muito tempo.

E assim foi. Durante meio ano chorou. Quando finalmente secou as lágrimas, viu que já tinha à sua volta um pequeno grupo de admiradores.

Até a mãe, quando era viva, espantava-se com a quantidade de homens presos à filha.

O que é que eles veem em ti? dizia-lhe a senhora, a rir-se. Não és nenhuma beldade ou sou eu que não percebo nada disto.

Ó mãe, beleza não vale nada respondia Beatriz, a retocar os lábios num baton de tom carmim. O segredo é uma mulher saber ser encantadora. Ter carisma, uma faísca diferente.

Vai lá, minha filha! Antes que o namorado se canse de esperar.

Se ele for, outro virá encolhia os ombros, despreocupada.

Já tinham passado quase trinta anos daquele diálogo, e, no fundo, nada mudara. As mulheres continuavam a queixar-se de não haver homens solteiros, de não conseguirem casar depois dos quarenta.

Beatriz não sentia esse drama. Aos quarenta e seis lá estava ela, com dois pretendentes, ambos de valor.

O coração dela puxava para António. Gostava mesmo dele: bonito, elegante, culto, gostava de conversar e tinha sempre algo interessante a dizer.

O problema é que António era só palavras. Beatriz apaixonou-se-lhe pelo ouvido, mas com a idade já sabia aquele homem não era pessoa para uma vida inteira. Não era alguém para seguir ao lado dela naquela casa grande.

O segundo pretendente, Gustavo, era um homem simples, trabalhador. Daqueles que, nas festas, bebia o vinho todo num instante mas, em casa, fazia de tudo, com as mãos de ouro e o coração no lugar.

Um homem calmo, com fibra mas generoso. Junto à esposa era dócil como um cordeiro, mas, se fosse preciso, viraria o mundo por ela. Engraçado como Beatriz gostava menos de Gustavo coisas do coração de mulher.

Ele não lhe fazia grandes declarações. Sóbrio, era reservado. Só com umas copadas se soltava, contava anedotas, animava a conversa.

Tinha queda para a bebida, sim, mas no dia seguinte já estava fresco, lavava-se com água fria, pronto para a lida. Falava pouco, mas fazia. E foi Gustavo que Beatriz escolheu.

António ficou magoado com o fracasso dos seus belos discursos e desapareceu.

Beatriz casou-se com Gustavo, que não cabia em si de alegria. No casamento, bebeu de mais, cantou, dançou até cair para o lado.

És mesmo incrível comentou Teresa. Mal fez um ano do Manuel se ir embora e já estás casada outra vez. Não mudaste nada! Tantas mulheres dão voltas e voltas à procura de marido, e a ti basta sair de casa.

Só faltava perguntares: O que vêem esses homens em ti? Nem bonita és!

Não digo isso, que não seria justo. Mas é verdade, és sempre cobiçada.

Nem eu sei, Teresa. Vai perguntar à minha mãe.

Beatriz piscou o olho à amiga e foi dançar com o marido, que a tinha acabado de chamar. E dançando, tratou de afastar as dúvidas.

Ora, e que importava se Gustavo era simples? Era forte, trabalhador, e ainda se mantinha bem parecido. E o silêncio dele até podia ser uma virtude.

Que adiantariam os discursos bonitos de António? Com palavras não se paga renda nem se planta jardim.

Em poucos meses, Gustavo transformou o quintal numa espécie de pequeno Éden. Arrancou as árvores a mais, nivelou a terra, preparou canteiros para Beatriz plantar flores. Construiu uma pérgula no jardim, e a casa ganhou mesmo outra vida.

Beatriz estava certa na escolha.

Além disso, Gustavo trabalhava e fazia questão de agradá-la com pequenos presentes. Ela comparou aquele pouco tempo de casamento com os vinte e cinco anos do primeiro matrimónio, lamentando, de coração, não ter conhecido Gustavo antes. Um homem de ouro!

Na primavera e no verão, faziam grelhados na brasa ao entardecer, jantavam juntos na pérgula, sentados à mesa e nos bancos de madeira novos.

Beatriz, depois de comer carne grelhada, espreguiçava-se satisfeita tal gato ao sol. Gustavo sorria, olhando-a com ternura.

Que foi, Gustavo?

Nada. Estou feliz.

A primeira mulher dele era de poucas alegrias. Gustavo pensou que nunca mais encontraria alguém como Beatriz.

Viviam aquela felicidade doméstica havia já quatro anos, quando Gustavo começou, de repente, a sentir-se mal.

Fadiga, magreza sem explicação. E, se bebesse um pouco de vinho, piorava de imediato.

Tens de ir ao médico, Gustavo! alarmou-se Beatriz. O que esperas? Algo não está bem.

Deixa-te de tretas, Beatriz! Isso passa.

Oh homem, não estamos na Idade Média! E se não passar? És como todos também tens medo do médico?

Não.

Gustavo não queria explicar o que realmente o assustava. Só tinha medo de uma coisa: se estivesse mesmo doente, Beatriz acabaria por ir-se embora. Não ficaria com um homem inválido.

Ele sabia que Beatriz escolhera casar consigo por motivos práticos, não por grande paixão. Mas ele amava-a, e muito.

Apaixonara-se logo, ao vê-la atrapalhada no supermercado de Setúbal, a buscar a carteira na mala. Aquela desorientação fê-lo querer cuidar dela para sempre.

Sua mãe também não percebia: Filho, o que vês nela? Não é bonita, não é nova, mas tu ainda tens muitos trunfos! Podias ter uma rapariga mais nova

Ninguém lhe interessava, só Beatriz. Mas agora, se ele estivesse mesmo doente, como seria?

Ela não o conseguiu convencer a ir ao hospital. Numa noite de sábado, tinham Teresa e o marido, Rui, em casa para jantar. Gustavo e Rui estavam no quintal, a beber cerveja artesanal e assar chouriço. Na cozinha, Teresa cortava tomate para a salada e comentou:

Gustavo não anda bem de saúde, pois não?

Não sei! explodiu Beatriz. Peço-lhe para ir à consulta e nada! Tu és médica, Teresa. Que achas? Achas que está doente?

Bem está diferente, emagrecido. E até me pareceu com algum tom amarelo na pele.

Ai, meu Deus! Teresa, implora-lhe para ir ao médico. Por favor, pode ser que a ti te escute!

Teresa olhou a amiga com atenção:

Beatriz tu amas mesmo o Gustavo? Lembro-me bem das tuas dúvidas

Beatriz mordeu o lábio e não respondeu.

Teresa não teve tempo de convencê-lo. Durante o jantar, Gustavo desmaiou. Chamaram logo o INEM. Beatriz foi com ele de ambulância, apertando-lhe a mão e rezando em silêncio.

Operaram-no quase de imediato.

Uma massa no fígado.

Cancro?! Beatriz empalideceu.

Ainda aguardamos a biópsia.

No fim, a massa era benigna, mas já de tamanho considerável.

Os médicos proibiram quase tudo a Gustavo e avisaram: a recuperação seria longa, talvez nunca total a idade já pesava.

Gustavo ficou devastado. No hospital, recebeu a visita da mãe.

Beatriz estava a trabalhar, a mãe foi de tarde. Levou comida permitida. A lista de alimentos era bem curta.

Filho, nem te reconheço! disse D. Amélia. Sobreviveste, não é cancro, devias era estar feliz. Agora, toca a comer almôndegas ao vapor.

Não quero.

Tens de querer! O que se passa? Ainda por cima a Beatriz tem vindo?

Vem… por enquanto disse Gustavo, murcho.

Tens medo que te largue? Seria uma tola!

Acabei! Já não sirvo para nada. Nem posso trabalhar. Só faço cinquenta anos em junho, mas já sou um inválido. Quem quereria um inválido?

O que se passa aqui? estranhou Beatriz, entrando. Ouvem-se gritos pelo corredor. D. Amélia, boa tarde!

Eu vou indo. Olá Beatriz. Até logo!

O que aconteceu?

A mãe encolheu os ombros e saiu. Beatriz lavou as mãos, sentou-se ao lado do marido.

Então, qual é a crise, oh inválido? Braços e pernas tens tu, o resto cura-se. Sabes o que li sobre o fígado?

O quê?

O fígado é o único órgão capaz de se regenerar. Se ainda há cinquenta e um por cento, tudo volta ao normal com tempo. E a ti ficou sessenta. Portanto, há esperança! Deixa o tempo agir.

E terei tempo?

O quê? não percebeu Beatriz.

Tempo.

Mas Gustavo, o que se passa? Esconderam-me alguma coisa? Pediste aos médicos para me mentirem?

Não é nada disso

Recebeu alta. Começava o seu período mais amargo. Bastava um pouco de esforço e logo ficava exausto. Era o que mais custava.

Aproximava-se o aniversário redondo, agora sem saber como festejar já não podia comer tudo nem beber vinho do Porto com os amigos.

Beatriz fingia não reparar na sua fadiga, acompanhava-o fielmente na comida deslavada.

Beatriz conseguiu ele perguntar. O que será de nós agora?

No sentido de quê? estranhou ela.

Eu recupero devagar Vais deixar-me, não vais? Se for para ir, que seja agora.

Por que razão te deixaria? Contigo é que sou feliz.

Era quando eu fazia tudo, quando podia trabalhar, que eras feliz. E agora? Agora, nem eu me aguento.

Tolices. Vamos, ganha juízo.

Eu tento! Mas é duro. Dou duas marteladas e já fico de rastos.

Beatriz abraçou-o pelas costas, encostou o rosto à nuca dele.

Amo-te. Nunca te abandono. E não te apresses com a recuperação. Deixa o tempo fazer o resto.

Tu amas? Mesmo?

Juro-te que sim.

Beatriz não deixou Gustavo. Ele ia recuperando, lentamente que fosse.

Organizou a festa dos cinquenta sem bebidas alcoólicas, para não lhe lembrar o que não podia ter.

Convidaram alguns amigos, passaram a tarde a jogar dominó e cartas, riram juntos na pérgula.

Tens sorte, Gustavo disseram-lhe os amigos ao despedirem-se.

Agora devem ir beber à minha saúde, não? perguntou, rindo-se.

Riram, despediram-se. À noite, sentados no alpendre, de mãos dadas, olhavam as estrelas. Felizes. Naquele serão, pela primeira vez em meses, Gustavo sentiu-se melhor.

Acreditou que estava a recuperar. Sentiu que Beatriz, de facto, não o deixaria. Abraçou-a com força.

Que foi, Gustavo?

Agora está tudo bem! disse ele.

Finalmente sorriu Beatriz, beijando-o na face.

Foram felizes, como tanto mereciam.

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