Mas porque é que vieste ter comigo, mãe? Sempre ajudaste a Nadja a vida inteira, agora vai pedir ajuda a ela! – declarou-me o meu filho.

Porque vieste até mim, mãe? Sempre ajudaste a Esperança, agora vai pedir ajuda a ela! desabafou o meu filho. O Diogo nem sequer me convidou a entrar em casa, falava comigo à porta, as palavras eram frias, o olhar distante, como se eu fosse uma estranha.

Filho, será que não vais deixar a tua própria mãe entrar? senti as lágrimas a correr pelo meu rosto, sem as conseguir segurar.

O Diogo só faltou bater-me com a porta na cara, mas nesse instante ouvi a voz da minha nora.

Diogo, com quem é que falas? perguntou Madalena, saindo para o corredor.

Mãe? surpreendeu-se ela. Então por que está na rua ao frio? Venha lá para dentro.

O Diogo encolheu os ombros, virou costas e foi-se embora. Fiquei no corredor, a descalçar-me, sentindo um alívio enorme por finalmente poder entrar. A Madalena foi amável, e eu precisava mesmo de falar.

Devo admitir, tinha razões para um peso na consciência em relação ao meu filho, mas só agora percebia o quanto. Tenho dois filhos: o Diogo e a Esperança. Mas passei a vida a apoiar a minha filha, quase esquecendo o meu filho.

Achava que ele não precisava de mim sempre foi desenrascado, nunca se queixava. Mas agora vejo que, no fundo, sempre trabalhou tanto para provar que poderia viver sem o meu apoio e sem o meu dinheiro.

Dinheiro não me faltou, pois já andava há vinte anos como emigrante em França, mas só ajudei financeiramente a Esperança. Agora arrependo-me amargamente: a Esperança nunca deu valor, e quando precisei dela, virou-me costas.

Fui para França quando o Diogo tinha dezoito anos e a Esperança dezasseis. Deixei-os com a minha mãe. O meu marido abandonara-nos há muito; sempre vivemos com dificuldades. Partir para o estrangeiro era o único caminho possível.

Com os primeiros euros que ganhei a cuidar de idosos nos arredores de Lyon, comecei logo a arranjar a nossa casa em Santarém. A minha mãe ficou tão contente, finalmente tínhamos água canalizada, casa de banho decente, o essencial!

Depois a minha filha anunciou que ia casar. Embora achasse cedo, com dezanove anos, não a contrariei. O marido era rapaz da terra, mudaram-se para nossa casa.

O Diogo não se deu bem com o genro, e pouco depois também ele encontrou quem o acolhesse e saiu de casa. A minha nora, Madalena, cresceu num lar de acolhimento, muito pobre. O Estado arranjou-lhe um quarto num bairro social e foi aí que foram viver.

A Esperança resolveu logo a quem eu devia mandar o dinheiro:

Mãe, fiquei cá a tomar conta de tudo, logo o que é teu deve ser meu disse-me ela, sem cerimónias.

O Diogo nunca exigiu nada. Eu, satisfeita, enviava todos os euros à minha filha, ela fazia as contas e gastava como queria. O meu filho, por sua vez, amealhava o que podia e lutava pela família.

Mas o mais difícil estava para vir. Quando a minha mãe faleceu, a Esperança decidiu divorciar-se; sempre foi obstinada.

E agora, o que vais fazer? perguntei-lhe.

Vou contigo para França disse-me ela, decidida.

Fomos as duas, mas a Esperança não gostava de trabalhos pesados. Limitava-se às limpezas e gastava tudo em renda e comida. Eu trabalhava como interna e poupava todo o dinheiro, mas a minha filha acabava por arrecadar o pouco que ganhava: queria comprar casa ali em França.

Como não tencionava regressar, acabámos por vender a nossa casa em Santarém. Juntámos o dinheiro e quando não chegou para tudo, ela casou com um francês que acabou de pagar o resto. Assim mudaram-se para um pequeno apartamento novo.

Eu, enquanto pude, continuei a trabalhar sem pensar do que seria feito de mim, mas adoeci. Sem trabalho, procurei a minha filha, confiando no nosso antigo acordo. Mas ela respondeu-me que tinham pouco espaço e o melhor era eu recuperar e procurar trabalho outra vez.

Nem a ouvi. Voltei a Portugal, embora nem casa tivesse para onde voltar só restava o terreno da aldeia, quase um hectare de terra. Podia vender ou construir ali, se tivesse dinheiro.

Foi assim que ganhei coragem para procurar o Diogo, para ver se me ajudava a vender o terreno… não sabia o que fazer depois disso.

Ele nem queria conversar, tamanha foi a mágoa. Mas a Madalena não só me abriu a porta como achou logo uma solução.

Mãe, eu e o Diogo andamos à procura de terreno para construir casa. Se quiser, podemos começar a obra no seu terreno, e quando tudo estiver pronto, vem viver connosco propôs.

Ele resmungou, mas a ideia da mulher acabou por agradar-lhe, tanto que ao final da noite já se esquecera da zanga.

A minha nora não me deixou ir chamou-me para jantar, preparou-me uma cama e disse-me logo que de manhã me acompanharia ao médico.

Porque fazes isto por mim? perguntei-lhe, emocionada.

Porque nunca tive uma mãe… agora, tenho.

A vida trocou-me as voltas: a filha de sangue desprezou-me, mas a nora acolheu-me como ninguém.

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Mas porque é que vieste ter comigo, mãe? Sempre ajudaste a Nadja a vida inteira, agora vai pedir ajuda a ela! – declarou-me o meu filho.