Catarina foi passar o Ano Novo com os pais e a família do marido ficou furiosa, descobrindo que teriam de preparar a festa sozinhos.
Achas que eu não dou por isso?
Catarina disse isto ao final da tarde, enquanto arrumava as compras do supermercado na bancada da cozinha. Ricardo estava sentado no sofá, vidrado no telemóvel, sem erguer a cabeça.
Do que estás a falar?
Do facto de passar sete anos enfiada na cozinha em todos os Natais e Fins de Ano, enquanto a tua mãe e a Beatriz estão sentadas à mesa a comentar que estou mais velha. Não faço mais isso.
Ricardo largou o ecrã, voltando-se para ela.
Mas que disparate é esse? É tradição! A mãe vem, a Beatriz traz a família, as crianças… É família, Catarina!
A TUA família, Ricardo. Eu sou empregada. Este ano eu e o Tiago vamos passar com os meus pais. O meu pai fez um mini-ringue lá no quintal, o Tiago sonha passar lá o Ano Novo. Quereste vir, vens; se não, fica decide tu.
Ricardo ficou de pé, transtornado.
Estás a gozar comigo? Catarina, não dá! Está tudo planeado, a mãe já comprou os bolos, a Beatriz vai trazer os presentes… Vais estragar a festa a todos!
Catarina virou-se rapidamente, largando o saco de cebolas na bancada com força.
“A todos”, Ricardo? A mim já não me interessa o que querem os outros. Tenho trinta e oito anos e estou cansada de viver para agradar a toda a gente menos a mim.
Esse é o teu papel como mulher! Quem é que vai cozinhar?
Não sei. Talvez a tua mãe? Ou a Beatriz? Quem sabe, tu mesmo, já que és o chefe da casa.
Ricardo riu-se de nariz, cruzando os braços.
Não vais a lado nenhum. Vais acalmar-te e logo vês as coisas de outra maneira.
Catarina não respondeu. Deu-lhe as costas, calada. Ricardo esperou mais um pouco, encolheu os ombros e voltou ao sofá, certo de que ela “voltaria atrás” dali a um dia ou dois.
Mas não voltou.
Na manhã de 30 de dezembro, Catarina acordou o Tiago ainda o sol mal nascia.
Anda, veste-te. Vamos a casa do avô.
O rapaz pulou da cama, olhos arregalados.
A sério? No ringue de gelo? Ó mãe, o pai vem?
Não, o pai fica cá.
Tiago murchou, mas logo se animou de novo.
Posso chamar o Rafa da minha turma?
Claro que sim.
Ricardo entrou na sala enquanto Catarina fechava a mala.
O que é isto, Catarina?
O que disse. Vamos embora.
Isto é uma loucura, amor. Volta a ti.
Ela fitou-o com olhar calmo, distante.
Estou a voltar a mim, finalmente. Sete anos, Ricardo. Chega.
Ela pegou na mala, chamou o Tiago. Ricardo ficou plantado no corredor, atónito. A porta bateu. Ficou sozinho.
Na véspera de Ano Novo, às cinco, Ricardo andava a barafustar pela cozinha com um frango na mão. Não sabia por onde começar. O frigorífico quase vazio Catarina não tinha deixado nada preparado. Lembrou-se de ligar à mãe.
Ó mãe, chega cedo, preciso de ajuda. A Catarina foi para os pais, fiquei sozinho.
Silêncio. Depois, a voz dela, gelada:
Como assim, foi embora? Ficou-te a faltar respeito, Ricardo? Eu não vou para a cozinha num dia de festa! Isso é obrigação da nora. Diz-lhe que volte já!
Mas mãe, eu não sei cozinhar…
Problema teu. Chego às oito, como combinado. A mesa é para estar posta.
E desligou. Ricardo ficou com o telefone na mão, desnorteado. Dez minutos depois, ligou-lhe a Beatriz, voz a fervilhar.
Tu estás a brincar? A mãe já contou tudo! Então deixas a Catarina ir-se, e agora espera-se que fiquemos em tua casa sem jantar? O que é que eu vou fazer, cozinhar como tonta numa casa que não me pertence?
Beatriz, calma…
Calma nada! Vou para casa da mãe. Levamos os miúdos. Passamos a passagem de ano como deve ser, sem estas palhaçadas. Vê tu o que fazes com a tua mulher!
E desligou. Ricardo sentou-se à mesa. O frango gelado, os vegetais por lavar na pia. Eram quase seis horas. Ele percebeu que estava sozinho. Completamente.
Em vez de tentar cozinhar, ao cair da noite Ricardo estacionou junto à casa dos sogros. Trazia um saco com uma garrafa de espumante e uma caixa de chocolates. Não sabia se seria bem recebido. Lá dentro, ao longe, via-se o quintal iluminado e miúdos a deslizar no gelo improvisado. Tiago, no meio deles, feliz e de bochechas coradas.
Ricardo aproximou-se, bateu à porta. Quem abriu foi o sogro Manuel.
Ora, já cá estás. Entra, homem, está frio.
Por dentro cheirava a assado e a pinho. Na cozinha, Catarina e a mãe picavam legumes, riam. Na mesa, dois homens, o cunhado Paulo e um vizinho, conversavam e bebiam algo quente. Catarina olhou-o, sem raiva, apenas distante.
Senta-te.
Ricardo sentou-se à mesa. Manuel deu-lhe uma caneca de chá.
E então, vais ajudar ou ficas só a ver?
Não sei cozinhar
O sogro riu.
E quando é que aprendeste? Achas que eu nasci a fazer cozido? Anda, descasca aqui umas batatas.
Ricardo levantou-se, começou a descascar com jeito desajeitado. O cunhado deu-lhe um safanão amigo no ombro.
Vais ver que aprendes. Só limpei a primeira sardinha aos trinta e cinco. Agora a Carla nem entra na cozinha.
Ricardo olhou para Catarina. Ela andava leve, costas direitas, sem o peso do mundo em cima. Percebeu, de repente, que há anos não a via assim.
A festa foi alegre, descontraída. Tiago mal largou o avô, a puxá-lo sempre para o ringue. Catarina estava de vestido vermelho nunca a tinha visto usar aquilo. Bebia espumante, ria, contava histórias à irmã. Ficou sentada, não saltou uma única vez para ir servir ninguém.
Ricardo esteve silencioso a noite toda, a observá-la. Era uma Catarina diferente ali; não a mulher submissa que corria para todos. Era uma filha, descontraída, no meio dos seus.
Na viagem de regresso, a 9 de janeiro, foi Ricardo quem quebrou o silêncio.
Catarina desculpa.
Ela virou-se.
Pelo quê?
Por não ter visto o quanto era difícil para ti. Por ter deixado a minha mãe e a Beatriz aproveitarem-se. Por achar normal.
Catarina ficou em silêncio.
Disseste isso porque sentes mesmo, ou só para voltarmos tudo ao mesmo?
Ricardo apertou o volante.
Sinto mesmo. Vi que, na tua casa, todos ajudam. O Paulo lava, ri, brinca. Tu és tratada como filha, não empregada. Tive vergonha.
Ela assentiu. Não disse mais nada, mas não se virou. Foi suficiente.
Um ano depois, a 30 de dezembro, toca o telefone; Ricardo atende era a mãe.
Amanhã passamos aí. Como sempre, Catarina prepara jantar a dobrar! Eu e a Beatriz vamos chegar cheias de fome.
Ricardo olhou para a mulher, que dobrava roupas junto à janela. Tiago já dormia, mochila pronta.
Mãe, este ano não vamos estar.
Como assim, não vão estar? Amanhã é festa!
Temos nova tradição. Vamos com os Petrovos passar o Ano Novo à Estância da Serra. Se quiseres, podes juntar-te a nós.
Seguiu-se silêncio. Depois, voz cortada, sentida:
Perdeste o juízo? Só por vossa conta? E eu? E a Beatriz? Somos o quê para ti?
Não são estranhas. Mas vamos fazer as coisas à nossa maneira. Amo-te, mãe, mas estou farto de fingir que isto é normal quando a Catarina se mata sozinha para vossa diversão.
Essa tua Catarina virou-te a cabeça! Nunca foste assim!
Pois, mãe, antes era cego.
Desligou. Catarina sorriu.
A sério?
A sério.
O telemóvel tocou vezes sem conta. Deixou em silêncio. Saíram uma hora depois, com a neve a cair lá fora. Tiago dormia no banco de trás. Catarina olhava a paisagem, Ricardo guiava, sentindo-se, pela primeira vez, livre dos deveres impostos.
Na estância, os Petrovos receberam-nos com festa. No chalé cheirava a pinho e havia comida caseira feita em conjunto. Os filhos Petrovos arrastaram logo Tiago para a neve. Catarina mudou de roupa, serviu um copo de espumante e sentou-se perto da lareira. Ricardo sentou-se ao lado.
Achas que a mãe te vai perdoar?
Catarina encolheu os ombros.
Não sei. Mas não é esse o teu problema, agora. Fizeste uma escolha.
Ricardo concordou. Sentia uma pequena culpa, mas maior era o alívio. Pela primeira vez em anos, não devia nada a ninguém.
Na manhã seguinte, Beatriz escreveu a Catarina.
A tua teimosia destruiu a família. A mãe chorou dois dias. As crianças perguntaram porque não fomos para tua casa. Espero que estejas feliz, egoísta.
Catarina mostrou a mensagem ao marido. Ricardo abanou a cabeça.
Não respondas.
Catarina respondeu:
Beatriz, sete anos fiz tudo sozinha. Nunca te ofereceste para ajudar. Ficas zangada porque deixei de o fazer? Pensa bem onde está o egoísmo.
Beatriz não respondeu mais.
Em março, reuniram a família para a festa de anos do Tiago. Ricardo convidou mãe e irmã. Chegaram amuadas. Quando era altura de preparar a mesa, Catarina disse:
Quem quiser ajudar nos saladas, está tudo pronto na cozinha. Só é cortar os legumes.
Beatriz cruzou os braços.
Eu sou convidada. Não faço nada.
Catarina encolheu os ombros.
Então demora mais. Faço sozinha e a mesa demora a ficar pronta.
Ricardo levantou-se, foi ajudar. Tiago atrás dele. A sogra sentou-se, nervosa. Mas passado pouco tempo, o convívio animado na cozinha atraiu-a; levantou-se e foi. Passados cinco minutos, também foi Beatriz.
Catarina entregou-lhe uma faca, sem olhar.
Corta os pepinos às rodelas.
Beatriz pegou na faca, silenciosa. A sogra lavava loiça. Ricardo fritava carne. Tiago punha os pratos. Pela primeira vez em anos, estavam juntos sem cobranças, sem pressões.
Sentaram-se meia hora depois. A comida era simples e saborosa. Beatriz ficou muda o jantar inteiro, mas a sogra desanuviou, até sorriu das histórias do neto.
Ao sair, a sogra hesitou junto à porta, olhando Catarina.
Mudaste.
Não. Só deixei de fazer de conta.
A sogra assentiu e saiu. Beatriz foi atrás, sem se despedir. Mas Catarina sentia: algo mudara. Nunca mais seria como antes, porque Ricardo mudara. E se um muda, muda tudo.
Mais tarde, com Tiago já a dormir, Catarina e Ricardo ficaram na cozinha. Ele serviu-lhe chá, sentou-se à frente dela.
Achas que perceberam?
A tua mãe? Não sei. Mas já não interessa. O importante é que TU percebeste.
Ricardo apertou-lhe a mão.
Percebi. E nunca mais volto ao que era.
Catarina sorriu. Pela primeira vez em anos, sentia-se leve. Não tinha nada a provar a ninguém. Finalmente vivia à sua maneira.
Lá fora, a chuva caía suave. Em casa da sogra, talvez ela se perguntasse por que é que o filho mudara tanto. Beatriz queixava-se ao marido sobre a atitude de Catarina. Mas nenhuma delas percebia o essencial: Catarina não mudara. Só deixou de ser conveniente. E esse é o direito de todos que se conquista não com gritos, mas com um simples não.
Ricardo olhava-a e percebia: ela não salvou só a si própria salvou-os aos dois. Porque viver para os outros não é viver. É morrer devagar. Eles escolheram e agora aprendiam a viver.







