Marido infiel escondia o telemóvel, mas a memória traiu-lhe as voltas

Todos os homens têm os seus segredos. Uns guardam moedas de dois euros nos bolsos do casaco do inverno. Outros juram que foram pescar ao Zêzere, quando na verdade ficaram a beber café na pastelaria. António Meneses punha sempre o telemóvel virado para baixo.

Sempre. Em todo o lado. Na mesa da cozinha, com o ecrã escondido. Na mesa-de-cabeceira antes de dormir, sempre tapado. No restaurante, nas casas de familiares em Cascais, até num piquenique no Estoril, era garantido: ecrã para baixo.

Inês só reparou nisso algum tempo depois. Primeiro, apenas memorizou o detalhe. Depois, começou a pensar. Por fim, deixou de pensar: quando se pensa nas coisas inquietantes, custa a respirar. Ficou então esse silêncio tenso, o truque das mulheres portuguesas para atravessar a dor: fingir que nada é grave até o inevitável rebentar como um fado triste.

No geral, tinham uma vida normal. Casamento sem grandes alegrias, mas também sem discussões. António trabalhava. Inês também. Fins de semana em visitas ao Mercado da Ribeira, séries da RTP, de vez em quando recebiam amigos. Esses amigos eram o João e a Filipa. João era amigo de António desde os tempos da faculdade em Lisboa. Filipa, enérgica, tagarela, gargalhava em todos os cafés. Fazia Inês cansar-se do excesso de vida mas nunca deixava de sorrir.

Estava tudo como devia estar. Exceto o telemóvel.

Inês via o rectângulo virado para baixo, constante, quase um ritual. Pensava: que seja. Adulto é livre de hábitos. Pessoa crescida, suas manias.

Mas certo dia, ao esticar o braço para pegar no saleiro, tocou sem querer no telemóvel. Este resvalou, caiu sobre uma cadeira, e ficou com o ecrã para cima.

António foi mais rápido que ela: tapou o ecrã com a mão.

Desculpa, disse Inês.

Não faz mal, respondeu António.

Ambos fingiram que nada tinha ocorrido. Habitual coreografia portuguesa do não aconteceu nada quando no fundo, tudo arde em silêncio.

Inês era uma mulher perspicaz. E isso só lhe complicava a vida.

Mulher inteligente não faz escândalo por causa de telemóveis. Mulher inteligente toma notas mentais, constrói tabelinhas invisíveis: coluna de factos, coluna de desculpas. Enquanto as desculpas resistirem, ela aguenta.

Aguentava há meses. As linhas da tabela já enchiam páginas mentais.

Primeiro: António começou a ficar até tarde no emprego. Antes, só até às oito; agora, chegava a aparecer às nove, nove e meia. Uma noite, nem antes das onze regressou. Motivo? O habitual: mês de fechar relatórios, clientes do Porto.

Segundo: Tinha-se tornado distraído. Olhava para a televisão sem saber o que via, respondia às perguntas com segundos de atraso como um vídeo em pausa.

Terceiro: António ficava tenso quando recebia chamadas do João.

Isto sim, intrigava-a. António e João eram inseparáveis, risos longos e conversas na cozinha. Ultimamente, ao ver uma chamada do João, algo mudava nos olhos dele. Ligeiro, imperceptível aos outros. Mas não a ela.

Um dia, Inês perguntou:

Está tudo bem contigo e o João?

Está sim porque perguntas?

Pareces estranho quando ele liga.

Deves estar a imaginar coisas, respondeu António, pegando logo no telemóvel.

Numa quarta-feira, Filipa telefonou só para dois dedos de conversa. Falaram sobre trivialidades: o trânsito, o preço das laranjas, a última novela da SIC. Filipa era dessas que riem alto no Cais do Sodré e nunca têm paciência para filas no supermercado.

Como estão aí por casa? perguntou ela.

Tudo normal. O António ficou a trabalhar até tarde outra vez.

Ah, sim o trabalho, replicou Filipa, com aquela leveza que parecia fora do sítio.

Na sexta, jantar na casa de Inês, os quatro novamente. João e Filipa trouxeram vinho verde e um bolo de bolacha. António fazia costeletas na frigideira, rindo-se para os tachos. Inês punha a mesa, observando.

Achou estranho: António e Filipa quase não trocavam palavras. Antes, riam juntos de disparates, agora, evitavam até olhares cruzados.

João falava do escritório, copo de vinho na mão, olhos vidrados de cansaço. Inês pensava: saberá ele? Ou finge? Ou como ela, prefere o silêncio? Ou só lhe passa tudo pela cabeça confusa?

Estás calada, tu disse António, mais tarde, já sem visitas.

Estou cansada, murmurou ela.

Vai-te deitar cedo.

Pois, assentiu.

Deitou-se. Ficou a ver as sombras no tecto. Ouviu a televisão baixinho na sala. António demorava-se. O telemóvel, como sempre, pousado do lado dele.

Ecrã para baixo.

Virou-se para a parede gelada.

Ainda queria acreditar nas desculpas.

No sábado, António foi ao centro de inspeções automóveis foi o que disse. Três horas.

Inês ficou a beber café sozinha, leu uma revista, depois decidiu limpar. Aspirador, pano molhado, mexeu nas prateleiras, ajeitou livros. Ao arrumar o sofá, viu o telemóvel.

Em cima da almofada. Ecrã virado para cima.

Esquecido!

Três anos juntos e ele nunca largara o aparelho. Chegava a esquecer as chaves de casa, a carteira, certa vez voltou da repartição em dezembro sem casaco mas o telemóvel? Nunca.

Inês ficou parada, com o pano a pingar.

O telemóvel brilhava, aceso. Apenas aguardava.

Deixou cair o pano no chão. Aproximou-se.

No ecrã, surgia uma notificação. Poucas palavras. Nunca bisbilhotara as mensagens de António. Não era excesso de confiança; era princípio. Os adultos merecem privacidade, assim pensava e acabou sempre a perder.

Nem tentou ler o texto.

Mas o que viu foi a pequena fotografia do contacto.

Aquele círculo minúsculo como um botão de camisa ao lado do nome no WhatsApp. Rosto de mulher, cabelo escuro, sorriso franco.

Conhecia aquele sorriso. Filipa.

Ficou a olhar o círculo e o sorriso uns segundos que pareceram uma peça de Álvaro de Campos. O telemóvel apagou, ecrã escuro, noite súbita. Inês nem se mexeu.

Virou costas, foi à cozinha, encheu um copo de água.

Filipa. Mulher do João. Amiga, vá lá ou o tipo de amiga com quem se partilham sextas-feiras, memórias de aniversários a vinte e dois de março e alergias a marisco. Inês sabia da data de Filipa. Todos os anos, ofereciam um livro, uma caixa de chocolates.

Também no ano passado.

Voltando à sala, novo sinal do telemóvel. Outro aviso, nome e rosto a brilhar. Outra mensagem.

Inês não leu.

Sabia: se abrisse, mudaria tudo de forma irreversível. Enquanto não o fizesse, ficava viva a esperança absurda de alguma inocência. Quem sabe a Filipa a pedir receitas, um recado qualquer sobre o João, um equívoco impossível.

Mas não era e sabia.

Sentou-se no sofá, ao lado do dispositivo calado como um animal de estimação que viu tudo e recusa miar.

Na cabeça, os factos somaram-se, finalmente, pela ordem certa. Tardes de ausência. Ausências longas do António. Silêncios, aquela noite em que António e Filipa quase não se falaram. A forma apressada como Filipa, noutro telefonema, tinha justificado as horas tardias no escritório.

Sim, Filipa sabia; era ela o motivo.

Ficou só, sentindo o mundo transformar-se devagarinho.

João, vinte anos de amizade ao António.

Saberia? Pouco provável, mas naquela noite a dúvida doía mais fundo.

Soou o porteiro. Passos leves na escada.

António apareceu cedo inspeção rápida, ou lembrara-se de repente do telemóvel.

Inês continuou imóvel.

António entrou, avistou-a e logo depois fixou olhar no telemóvel. Viagem rápida de expressão algo que só olhos treinados notam.

Esqueci-me, murmurou, indicando o aparelho. Como se nada fosse.

Sim. Eu vi.

Inês levantou-se, atravessou a sala até à cozinha, pegou num segundo copo de água e bebeu.

Atrás de si, um silêncio denso.

Inês, o nome saiu hesitante.

Agora não, disse ela. Agora não posso.

Era verdade. Não podia discutir, nem chorar, nem suportar justificações inúteis. Só conseguiria lidar com o que já sabia e isso era demasiado.

A conversa aconteceu no domingo ao fim da tarde. Sem gritos, pratos partidos, nem lágrimas de novela. Só uma mesa da cozinha, duas cadeiras, chá morno.

António abriu ele o assunto, esgotado de esperar.

Não sei como explicar isto, começou.

Não expliques. Eu vi no WhatsApp.

Ficou muito, muito calado.

Tu já sabias?

Suspeitava, fui alinhando os pontos.

E agora?

Não sei o que será agora para ti. Para mim tenho de me decidir sobre o divórcio.

Na mesma noite, Inês ligou à Filipa. Conversa curta.

Filipa, sei de tudo. Não expliques, não quero justificações. Terás de falar com o João, se quiseres. Mas a mim, não me ligues mais.

Do outro lado, silêncio. Depois um In indistinto. Inês desligou.

Na segunda, João descobriu. Como, nunca quis saber. Apenas percebeu pelo ar pesado de António, olhos vazios, sentado a olhar o Tejo pela janela.

O João ligou-me, disse.

Claro, respondeu ela.

E acabou ali.

Três anos de casamento, vinte de amizades, um pequeno círculo no WhatsApp e dois lares desfeitos, como cartas de jogar arrumadas à pressa. Nem lágrimas, nem fados gritados, nem chuva.

Segunda-feira seguinte. Inês fazia malas: livros, roupa, a caixinha dos talheres herdados da avó, os panos de linho. António permaneceu na sala, mexendo-se de vez em quando.

Perto da porta, ela parou. O telemóvel dele no tampo da mesa.

Ecrã para baixo.

Inês saiu, fechou a porta.

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