Mãe, sorri
Inês nunca gostou quando as vizinhas apareciam lá em casa e pediam para a mãe cantar uma música.
Oh, Manuela, canta, tens uma voz tão bonita, e que bem que danças, a mãe começava a cantar, as vizinhas acompanhavam, e às vezes todas acabavam a dançar no quintal.
Nessa altura, Inês vivia com os pais numa aldeia do interior, numa casa com pequeno quintal, e havia também o irmão mais novo, Tomás. A mãe era sempre alegre e simpática. Quando as vizinhas se iam embora, dizia-lhes:
Voltem sempre, foi bom convívio, e despediam-se com promessas de regressar.
Inês não gostava de ver a mãe a cantar e a dançar; até tinha vergonha. Na altura, andava no quinto ano e um dia disse:
Mãe, por favor, não cantes nem dances Fico envergonhada, e ela própria não sabia explicar o porquê.
Mesmo agora, já adulta e mãe, não consegue explicar. Mas Manuela respondeu-lhe:
Inês, não fiques envergonhada quando eu canto. Devias ficar feliz. Eu não vou cantar e dançar a vida toda, agora ainda sou nova
Na altura, Inês nem pensava nisso, não entendia que a alegria não dura sempre.
Quando a filha chegou ao sexto ano e o irmão ao segundo, o pai saiu de casa. Fez as malas e foi-se embora para sempre. Inês nunca soube o que tinha acontecido entre a mãe e o pai. Já adolescente, um dia perguntou:
Mãe, porque é que o pai nos deixou?
Vais perceber quando fores mais velha, respondeu a mãe.
Manuela não conseguiu contar-lhe ainda que apanhou o marido, Joaquim, em casa deles com outra mulher, Vera, que morava perto. Inês e Tomás estavam na escola e, por acaso, a mãe voltou a casa porque se esqueceu da carteira.
A porta estava destrancada. Estranhou o marido devia estar a trabalhar; ainda eram onze da manhã. Mas quando entrou, encontrou uma cena dura no quarto. Ficou sem palavras; Joaquim e Vera olharam para ela com descaramento. O que é que estás aqui a fazer?, pareciam perguntar.
À noite, quando Joaquim chegou, houve uma discussão violenta. As crianças brincavam lá fora, não ouviram nada.
Pegas nas tuas coisas, estão preparadas no quarto, e vais-te embora. Nunca te vou perdoar esta traição.
Joaquim sabia que ela não perdoaria, mas tentou falar com ela.
Oh Manuela, foi um deslize, vamos esquecer? Temos filhos
Não. Vai-te embora, disse ela friamente, saindo para o quintal.
Joaquim levou as coisas e saiu. Manuela ficou encostada ao muro, a chorar baixo. Nunca quis vê-lo mais, a traição queimou-lhe a alma.
Não faz mal, eu consigo viver com os meus filhos, dizia para si, chorando. Não lhe perdoo.
E não perdoou. Ficou sozinha com duas crianças. Sabia que ia ser difícil, mas não imaginava quanto. Teve de aceitar dois trabalhos durante o dia limpava a escola primária, à noite ia para a padaria amassar pão. Nunca dormia o suficiente, e o sorriso desapareceu-lhe do rosto.
Apesar de tudo, Inês e Tomás continuavam a ver o pai, porque ele morava quatro casas abaixo. Vera tinha um filho da idade de Tomás, até andava na mesma turma. Manuela nunca proibiu os filhos de visitar o pai; podiam ir brincar à casa dele ou ao quintal, mas as refeições era em casa, pois Vera não os alimentava nem acarinhava só brincar e ir embora.
Por vezes, o filho de Vera ia lá a casa de Inês e Tomás, e as vizinhas olhavam de lado. Manuela tratava de todos, nunca discriminou o enteado. Inês, porém, nunca mais viu a mãe sorrir. Continuava carinhosa, atenta, mas fechou-se no silêncio.
Às vezes, Inês regressava da escola, cheia de vontade de conversar com a mãe, e contava-lhe tudo o que tinha acontecido.
Mãe, imagina, o Gonçalo trouxe um gato para a sala, e ele miava durante as aulas! A professora não percebia quem era e até ralhou com o Gonçalo. A turma disse:
Ele tem um gato na mochila, então a professora pôs-no fora da sala e disse para só voltar sem o bicho, e ainda convocou a mãe dele.
Pois dizia Manuela, distraída.
Inês percebia que nada alegrava a mãe. Também ouvia como ela chorava baixinho à noite, pasmando horas à janela, a olhar lá fora, para lugar nenhum. Só já crescida, quando percebeu tudo, entendeu finalmente.
A mãe estava cansada, trabalhava demais e dormia pouco, devia-lhe faltar vitaminas. Ela dava tudo por mim e pelo Tomás. Nunca nos faltou roupa lavada, estávamos sempre dignos, recordava Inês muitas vezes.
Naqueles tempos, pedia baixinho:
Mãe, sorri Tenho tantas saudades do teu sorriso.
Manuela queria muito aos filhos, à sua maneira. Não era de grandes abraços, mas elogiava quando se saíam bem na escola, mantinha-os bem alimentados e a casa impecável.
O amor sentia-se nos gestos, quando Manuela tocava no cabelo da filha para o entrançar mãos trêmulas, olhar cansado, os ombros caídos. Os dentes começaram a cair-lhe cedo, arrancava-os, mas nunca pôs próteses.
Ao acabar o secundário, Inês nem pensou em estudar fora não podia deixar a mãe sozinha, sabia que, para ir estudar, precisava de dinheiro. Arranjou emprego numa mercearia ali ao lado. Ajudava a mãe, Tomás crescia depressa e precisava de roupa e sapatos novos.
Um dia, entrou António na loja. Não era dali, mas de uma aldeia a uns oito quilómetros.
Como chamas, menina bonita? perguntou sorrindo. És nova na loja, nunca te vi quando passo aqui.
Inês. Não, nunca o vi por cá.
Eu sou António, moro na aldeia vizinha.
Foi assim que se conheceram. António começou a aparecer de carro, a buscar Inês ao final do trabalho. Passeavam juntos, conversavam no banco do carro. Levou-a à aldeia dele, conhecer a casa onde vivia com a mãe, já doente. A mulher tinha-o deixado, levando a filha para a vila, não quis ficar a cuidar da sogra.
António tinha uma casa grande e muitos animais era fartura: nata, carne assada, bolos na mesa. Inês gostou de visitar. A mãe do António ficava sempre no quarto.
Inês, queres casar-te comigo? Gostava muito Só que desde já te digo, é preciso cuidar da minha mãe, mas ajudo-te.
Inês calou-se, ficou feliz, mas não o demonstrou. Não lhe custava cuidar da senhora. António aguardava, ansioso.
Aceita, pelo menos não me vai faltar carne nem nata, pensou ela para si, e disse: Sim, aceito. António sorriu, aliviado.
Inês, estou muito feliz. Gosto muito de ti. Pensei que uma jovem nunca aceitaria casar-me com um tipo mais velho. Prometo não te fazer sofrer, vamos ser felizes.
Casaram e ela mudou-se para a casa dele. Sinceramente, já nem lhe apetecia voltar à casa antiga. Tomás cresceu, foi estudar para mecânico no politécnico da vila, só voltava nas férias.
Com o tempo, Inês foi mesmo feliz com António. Tiveram dois filhos em sequência. Ela não trabalhava fora, os filhos e a casa davam que fazer, a sogra morreu ao fim de dois anos. O quintal era grande, davam trabalho, António ajudava, mas fazia questão de tratar dos trabalhos mais pesados.
Deixa que com o feno e com os porcos trato eu. Só ordenha as vacas e cuida das galinhas e patos.
Inês sentia-se amada. Aprendeu cedo tudo o que era preciso. António era generoso.
Vamos levar uns frangos e leite à tua mãe, ela precisa e nós temos de sobra.
Manuela recebia sempre tudo de coração, mas nunca sorria. Mesmo com os netos, era séria. Iam visitá-la muitas vezes, e Inês sentia pena não sabia como trazê-la de volta à vida.
Inês, porque não vais à igreja pedir ao padre uma ajuda para a tua mãe? sugeriu António, e ela agarrou-se à ideia.
O padre prometeu rezar por Manuela, e disse-lhe:
Pede a Deus que ponha um bom homem no caminho da tua mãe.
Inês rezava, assim fez.
Um dia, Manuela pediu à filha:
Filha, emprestas-me algum dinheiro? Quero pôr uns dentes.
Ó mãe, eu pago tudo, com prazer, ficou tão feliz Inês, mas sabia que a mãe não ia aceitar isso.
Deu-lhe o dinheiro, e a mãe prometeu pagar. Passou algum tempo, Inês andava ocupada, só falavam ao telefone, o marido ajudava o tio, Francisco, a mudar-se para a aldeia. Tinha-se separado da mulher, os filhos já grandes, e ela pô-lo fora de casa. António tratava dos papéis do novo lar do tio, a casa era boa e bem situada.
Às vezes, visitavam o tio Francisco. Um dia, o marido chegou a casa e contou:
Olha, acho que o tio está para casar. Passei lá e ouvi-o ao telefone Parece apaixonado.
Faz ele bem, respondeu Inês. Um homem novo, uma casa tão boa, precisa de companhia.
Pouco depois, receberam o próprio Francisco em casa.
Queria convidar-vos cá a casa. Voltei a encontrar o meu primeiro amor, estudámos juntos. Amanhã ela muda-se para cá, voltem cá daqui a dois dias.
Dois dias depois, António e Inês foram a casa do tio, com presentes. Quando Inês entrou na sala, ficou parada de surpresa. À sua frente estava a mãe, sorrindo, com um brilho no olhar. Manuela estava rejuvenescida, Inês mal a reconhecia.
Mãe! Estou tão feliz! Porque não disseste nada?
Tive medo de dizer, e não dar em nada.
Tio Francisco, porque não disse nada também?
Estava receoso que a Manuela mudasse de ideias Mas agora estamos felizes.
Inês e António ficaram radiantes Manuela voltou a sorrir, irradiando uma alegria tão desconhecida.
Obrigada a todos que leram e apoiaram. Felicidades para a vossa vida!







