Mãe, vem morar connosco! Para quê é que hás de estar sempre sozinha? Vais estar melhor connosco, mais confortável, alguém pode cuidar de ti repetia-me sempre a minha filha Matilde, cada vez que me ligava à noite para saber se estava tudo bem comigo.
Durante muito tempo recusei. Afinal, tenho já os meus setenta e cinco anos, os meus hábitos, o meu ritmo diário.
Gosto de levantar-me cedo, de fazer o meu café naquela chávena já um pouco lascada e ficar um bocado à janela, a ver as tílias ali em frente ao prédio. Não será uma casa luxuosa, mas é o meu lar. O meu refúgio. O meu universo.
Mas, ultimamente, a solidão começava a pesar. Ainda por cima desde que a minha cadela, Mel, partiu há dois anos. O silêncio dentro de casa era por vezes demasiado ensurdecedor. A televisão já me cansava, os livros largava-os ao fim de poucas páginas, as vizinhas saíam mais para visitar filhos do que vinham tomar um chá comigo. Comecei a pensar que talvez a Matilde tivesse razão.
E, numa tarde, ela disse de novo:
Mãe, muda-te para aqui. Preparamos-te um quarto, vai ser tudo mais fácil
Está bem respondi, apanhando-me de surpresa. Se querem mesmo, eu mudo-me.
Nem sabia que essa decisão ia mudar tudo. Primeiro para melhor. Depois nem tanto.
A Matilde ficou radiante.
Mãe, nem imaginas a falta que me fazias! repetia, receosa que eu me arrependesse. O André passa aí no sábado. Já comprámos lençóis novos, cortinados e um candeeiro de mesa de cabeceira. Vais ficar com tudo perfeito!
Quis acreditar que podia começar assim uma nova fase. Que finalmente ia estar perto da família. Que não me ia deitar sozinha, a ouvir apenas o tique-taque do relógio. Nessa noite, meti algumas roupas na mala, as fotografias, três ou quatro livros que gosto, o resto ficou para depois. Assim, enganei-me a mim mesma, dizendo que era só uma experiência.
No sábado, o André apareceu à hora. Sorridente, prestável, talvez um pouco mexido demais para o meu gosto, mas simpático. Quando fechei a porta atrás de mim, um arrepio inesperado atravessou-me as costas. Como se estivesse a despedir-me de uma parte de mim.
A casa da Matilde era grande, luminosa, cheia de vida: brinquedos do neto espalhados, manchas de tintas na mesa, a roupa por passar no cesto. O meu quarto estava mesmo bonito: lençóis frescos, uma luz quentinha, uma planta num vaso. Pensei que talvez tudo corresse bem.
Os primeiros dias foram maravilhosos. A Matilde fazia-me um bom café, o Francisco o neto falava-me do jardim de infância, e o André animava o jantar com graçolas. Ia com a Matilde passear ao jardim, fazia-lhes canja ao domingo, e o Francisco devorava as minhas panquecas com compota como se fossem magia. Senti-me útil. Quis acreditar que fazia ali falta.
Ao quarto dia, começou a não ser fácil.
Primeiro, o barulho. O André andava de um lado para o outro de sapatos, a Matilde em reuniões por videochamada, e o Francisco entretido com carros que buzinavam e faziam sons estridentes. Achava que os meus ouvidos iam estalar.
Comentei com a Matilde que podia estar um bocadinho menos barulho; ela só sorriu.
Mãe, é assim com crianças, vais ver, acabas por te habituar.
Tentei mesmo. Só que, à noite, quando tudo quietava, o meu coração parecia querer saltar-me do peito. Depois de quinze anos a viver sozinha, aquele rebuliço era como uma trovoada que nunca termina.
Vieram outros problemas. Ao jantar, o André servia-se de um copo de vinho, depois outro. Nada de mais, mas ao terceiro ou quarto copo já falava alto demais. Sempre tive medo de vozes elevadas, talvez por causa do meu pai… não quero recordar.
O Francisco birrava, a Matilde estava exausta, o André resmungava que nesta casa ninguém sabe relaxar. E eu, no fundo da mesa, de mãos apertadas no colo, perguntava-me onde estava aquele calor familiar que tinha imaginado.
Nos dias seguintes, surgiram outras pequenas coisas.
Quando a Matilde vinha mais carregada de trabalho, dizia:
Mãe, ao menos tenta não atrapalhar hoje. Isto está impossível.
O André deixava pratos sujos espalhados e, a brincar, dizia:
A mãe sempre foi perita na limpeza, não foi?
O Francisco aparecia pouco no meu quarto. E eu, aos poucos, fui deixando também de sair do meu.
Quando me oferecia para cozinhar alguma coisa, a resposta era:
Mãe, descansa, não é preciso.
Se sugeria um passeio:
Agora não dá. Talvez amanhã.
Mas o amanhã não chegava.
E numa noite de sábado, quase à meia-noite, acordei com uma discussão. O André e a Matilde gritavam um com o outro, cada um a querer ter razão. Fui ter com eles, quis apaziguar, dizer: Filhos, poupem a saúde, mas a Matilde lançou-me um olhar frio como nunca.
Mãe, isto não é contigo. Vai dormir.
Obedeci. Fechei a porta, e senti qualquer coisa a partir-se por dentro.
Nessa noite, a tensão subiu-me. Chamaram o médico. Expliquei-lhe que não tomava medicamentos, apesar de já ter idade para isso. E o doutor disse: Talvez esteja na altura de começar.
Foi ali que pensei, pela primeira vez, na minha casa velha. Na mesa da cozinha, com a toalha florida. Na poltrona ao pé da janela. Nos meus livros. No silêncio. Na liberdade.
Essa ideia foi-se tornando cada vez mais forte. Um dia, apanhei o Francisco sozinho no quarto, vidrado no tablet, tão absorto na sua brincadeira que nem me viu. Dei-me conta:
Sinto-me deslocada. Sou uma visita, não parte da família. Não uma visita desejada, mas tolerada.
À noite, disse à Matilde:
Vou voltar para minha casa.
Ela afastou o prato e olhou para mim, meio surpreendida, talvez irritada.
Mãe, mas aqui não te falta nada. Para quê voltar para a solidão?
Filha, solidão não é o mesmo que falta de paz. Vais entender um dia, quando tiveres a minha idade.
A Matilde tentou demover-me, mas já nada podia mudar a minha decisão.
No dia seguinte, arrumei as coisas, pedi ao André para me levar a casa.
Assim que entrei na minha velha casa em Lisboa, senti finalmente que podia respirar fundo. Passei a esfregona, mesmo sem necessidade. Arrumei flores. Fiz chá na minha cara caneca trincada. Sentei-me à janela.
O silêncio era só meu. Não assustava, acalmava. E, pela primeira vez em muitos meses, sorri de coração.
Pensei num gatinho. Num ruivo de olhos verdes. Num pequeno companheiro que preenchesse o meu canto de ronrons.
Sim. Amanhã vou ao canil.
Porque podemos recomeçar a vida em qualquer idade.
Desde que seja num sítio que é realmente nosso.







