– Mãe, já tens 65 anos. Está na altura de irmos ao notário para tratar da transmissão da casa como herança, – dizia a minha irmã durante a visita

Mãe, já tens 65 anos. Está na hora de ir ao notário e tratar da herança da casa, insistia a minha irmã quando nos veio visitar.

Há uma semana, a minha mãe celebrou 65 anos. Não quis grandes festas. Apenas nos convidou a casa para um jantar familiar tranquilo. Levei-lhe um bonito ramo de rosas, um robe quente e uns chinelos a combinar. Coloquei ainda no envelope 90 euros, que podem sempre dar jeito.

A minha mulher e os meus filhos, infelizmente, não puderam vir. O meu filho ficou doente, a minha filha tinha uma competição, e a Rita acabou por ter de ir de urgência em trabalho a Lisboa. Mas as crianças fizeram um enorme desenho para a avó, com todos juntos em frente à casa dela.

Nessa altura, a minha irmã mais nova, Mariana, chegou à aldeia:

Ouve lá, esqueci-me de comprar qualquer coisa para a mãe. Diz que o robe é de parte dos dois.

Está bem. Mas como é que te esqueceste do aniversário dela? Ainda por cima é uma data tão especial.

Ó Gustavo, nem imaginas os problemas que tenho no trabalho!

A minha irmã sempre foi muito dependente. Foi mãe aos 19 anos, o pai da criança era um rapaz do bairro universitário. Ele acabou por abandoná-la e nem pensão de alimentos paga. Nessa altura eu trabalhava nas obras e enviava-lhe dinheiro quando podia, para que comprasse comida, leite para bebé, roupas para a minha sobrinha.

Arranjei até lugar para a Cristiana na creche e arranjei-lhe emprego numa loja, que um amigo meu precisava de pessoal. Só lá ficou três meses, depois desistiu.

Desde então, vai vivendo de biscates: às vezes faz unhas ou pestanas, outras vezes vai fazer limpezas a casas. No verão passado, foi para França trabalhar, deixando a filha à guarda da minha mãe. Mas ao fim de três meses trouxe só 2.100 euros, e logo gastou tudo em disparates: comprou um telemóvel novo para ela e um computador portátil para a filha. Eu ganho isso num mês na minha empresa, mas trabalho que me farto.

A minha mãe ficou muito feliz por nos ver, preparou imensas delícias. Veio ainda a vizinha, Dona Carolina, e a tia Odete.

No entanto, o jantar acabou em discussão. Porque a Mariana resolveu puxar o assunto da herança logo à mesa:

Mãe, afinal, em nome de quem vais pôr a casa?

Oh, Marianinha, não digas disparates. A casa será dividida de igual forma entre vocês, claro.

Como assim de igual forma? O Gustavo já tem casa própria, tem empresa. Eu é que ainda ando a arrendar. Para que é que ele precisa desta casa?

Falava como se a mãe fosse morrer amanhã, sem qualquer pudor diante das visitas.

Mariana, agora não é momento. Não estragues o jantar.

Mas quando queres falar disso? Mãe, já tens 65. Já é uma idade de respeito. Não adies, vai ao notário e faz-me já a doação.

A tia Odete até se engasgou com o chá ao ouvir isto. Não aguentei a ousadia da Mariana, levei-a à cozinha:

Estás tola? Que disparate é esse, falares assim à mesa? Já estás a enterrar a mãe em vida?

Olha, tu não te metas! Eu criei a minha filha sozinha, e vocês…

Sozinha? Já te esqueceste das vezes que te levei dinheiro e que a mãe ficava com a Cristiana? Qualquer dia levas uma que até ficas colada à parede!

A Mariana ficou ofendidíssima. Pegou na filha e foi-se embora sem sequer se despedir. Até ameaçou apresentar queixa contra mim. Mas as ameaças dela já nem me afetam.

Agora a minha mãe anda angustiada pela Mariana. A irmã não deixa a Cristiana falar com a avó, nem atende o telefone. Tudo por causa da casa. A minha mãe anda lavada em lágrimas, com o coração apertado.

Já nem sei como lidar com a minha irmã. É uma mulher feita, mas comporta-se como uma criança mimada.

Por vezes, nas famílias, o valor das pessoas e os laços que nos unem deviam estar sempre acima dos bens materiais. Quando a ganância fala mais alto, perde-se aquilo que é verdadeiramente insubstituível: o amor e a tranquilidade entre mãe e filhos. Talvez, o melhor seja procurar o perdão e lembrar que uma casa não vale tanto quanto o coração de uma mãe.

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– Mãe, já tens 65 anos. Está na altura de irmos ao notário para tratar da transmissão da casa como herança, – dizia a minha irmã durante a visita