Eu e o meu marido estávamos a viajar numa aventura à beira-mar, num sonho envolto em névoa salgada. Há já uns anos que partilhamos o areal atlântico com amigos de longa data, cada casal no seu carro, a desenhar estradas imaginárias ao longo da Costa Vicentina. Não procurávamos luxo ou conforto: éramos selvagens, apaixonados pelo descompasso. Escolhíamos ao acaso um recanto entre medronheiros e dunas douradas, montávamos as tendas a olhar para o horizonte, e o tempo deixava de ter peso.
Durante o dia, a luz dançava no mar e era difícil distinguir o azul do céu do fundo das águas frias. Brincávamos como crianças no areal, aquecíamo-nos ao sol, e dividíamos tarefas humildesdescascando batatas, lavando pratos ferrugentos, apanhando lenha. À noite, o sonho continuava à roda da fogueira, onde assobiávamos fados imperfeitos enquanto a guitarra lutava contra o vento, e o vinho tinto corria de copos de plástico, quase sempre roubado ao sono.
Este verão, como num virar estranho e lunático dos acontecimentos, foi a minha cunhada Mafalda que se juntou à caravana. Veio com o pequeno Lourenço, um miúdo de dois anos e meio, e também com a minha sogra, todos amontoados no nosso velho Renault quase a abanar de cansaço. Aceitámos, entre suspirando e contando moedas de euro no bolso. No fundo, pensávamos: que remédio.
Mas o pesadelo começou cedo. Não foi Lourenço o problemacorria de um lado para o outro na areia, mergulhava com risos no mar e sonhava calmo na rede da tenda. O verdadeiro desafio foi Mafalda. Mal arrancámos de Lisboa começaram os pedidos de paragem: Preciso mesmo de me esticar um pouco, estou exausta, exclamava cada hora, como se as ruas fossem passadeiras que nos impediam de avançar. Chegámos ao destino quando os outros já estavam bronzeados, deitados ao sol feito gatos molhados.
A segunda parte do sonho desdobrou-se num protesto surdo. Mafalda irrompeu em lágrimas: Isto não é vida para ninguém! Eu não fico aqui!e tentava convencer-nos que selvagem quereria apenas dizer: procurar um quarto por conta própria, alugar algo de jeito, talvez com lençóis lavados e um pequeno-almoço pago em euros na pousada mais próxima.
O meu marido, com um brilho trémulo nos olhos, disse: Mafalda, então porque achas que trouxemos sacos-cama e tendas?mas ela só abanava a cabeça, os olhos perdidos nas estrelas, dizendo que pensava que íamos acampar à maneira, não assim, a padecer.
Cedeu-se. Alugou-se uma suíte numa pensão ali perto, paredes cor de limão, cheiro a maresia no colchão. O meu irmão passou o resto do sonho a conduzi-la para cima e para baixo: ora a trazer-la da casa improvisada, ora a devolve-la à cama macia antes do anoitecer, ora a ir às pastelarias, ora a fazer fila ao mercado municipal. Lourenço ficava entregue a todosnunca se queixava, não fazia manha, adormecia sereno no meio do tumulto de vozes e vento.
Mafalda, no entanto, pairava sempre penosamente na orla do nosso sonho. Receava insectos, o desconforto, as conversas fiadas e as cantigas desafinadas à beira do lume. Jurámos, entre riso e melancolia, que para o ano não a trazeríamos de volta a este estranho país do meio-termo, entre a terra e o mar, onde só o inesperado é permitido.
Talvez, se os astros permitirem e os pais deixarem, traga-mos o Lourenço. Ele, sim: uma alma diferente, uma luz suave no sonho que nunca termina.







