Tomás, e eu, sento-me onde? perguntei baixinho. Só então ele olhou para mim, com uma expressão irritada nos olhos. Sei lá, desenrasca-te. Estás a ver que está tudo entretido à conversa. Alguém riu-se, e senti as bochechas a arder. Doze anos de casamento, doze anos a aguentar desprezos.
Fiquei à porta da sala do restaurante com um ramo de rosas brancas, incrédula. A mesa comprida estava coberta por toalhas douradas e copos de cristal. Lá estavam todos os familiares do Tomás. Todos, menos eu. Para mim, não havia lugar.
Beatriz, por que estás aí parada? Anda para aqui! gritou o meu marido, sem tirar os olhos da conversa com o primo João.
Percorri toda a mesa com o olhar. Era verdade, não havia mesmo lugar. Todas as cadeiras estavam ocupadas, ninguém se mexeu ou ofereceu o lugar. A sogra, Dona Manuela, sentada à cabeceira com um vestido de lantejoulas douradas, parecia uma rainha e fingia que eu não existia.
Tomás, onde me sento? repeti, baixinho.
Ele olhou-me novamente, impaciente.
Arranja-te, pá! Está tudo a falar.
Um dos convidados riu. Senti o sangue a subir-me à cara. Doze anos de casamento, sempre a levar com o desdém da mãe dele e a tentar, em vão, fazer parte da família. E ali, no aniversário de 70 anos da Dona Manuela, nem lugar à mesa tinha.
Talvez a Beatriz possa ficar na cozinha? sugeriu a cunhada, Andreia, com aquele tom maldoso. Há um banco livre lá.
Na cozinha. Como criada. Como alguém de segunda categoria.
Não disse nada e virei costas, apertando o ramo até os espinhos cravarem na palma, por baixo do papel. Atrás de mim, alguém soltou mais uma gargalhada deviam estar a contar piadas. Ninguém me chamou. Ninguém tentou travar-me.
No corredor, deixei o ramo na primeira papeleira e tirei o telemóvel. As mãos tremiam enquanto chamava um táxi.
Para onde? perguntou o motorista.
Não sei confessei. Siga. Para onde quiser.
Fui olhando pela janela, vendo Lisboa à noite, luzes, pessoas que passavam, os casais de mãos dadas junto ao rio. Percebi naquele instante que não queria regressar a casa. Não queria voltar à nossa casa e encontrar os pratos sujos de Tomás, as meias espalhadas e o papel de dona de casa que está sempre ao serviço e nunca tem direito a nada.
Pare na estação do Oriente pedi ao motorista.
Tem certeza? Está tarde, já não há muitos comboios.
Pare, por favor.
Saí do táxi e entrei no edifício da estação. No bolso, tinha o cartão bancário conta conjunta com o Tomás. As nossas poupanças para trocar de carro. Trinta mil euros.
No balcão estava uma mulher, já cansada.
Tem bilhetes para amanhã cedo? perguntei. Para qualquer cidade.
Porto, Faro, Coimbra, Braga
Porto disse sem pensar. Só um bilhete.
Essa noite passei-a num café da estação, a beber café, a pensar. Lembrei-me de como, há doze anos, me apaixonara por um rapaz dos olhos castanhos cheio de sonhos, e de como a vida me tinha tornado numa sombra que limpa, cozinha e se cala, esquecendo os seus próprios sonhos.
Eu tinha sonhos. No instituto, estudei design de interiores e imaginava uma empresa minha, projetos criativos, trabalho entusiasmante. Mas depois do casamento, o Tomás foi claro:
Para quê trabalhares? Eu ganho para nós os dois. Fica por casa.
E assim foi. Doze anos.
De manhã entrei no comboio para o Porto. Durante a viagem, o Tomás mandou mensagens:
«Onde estás? Volta para casa» «Beatriz, responde!» «A minha mãe diz que ficaste ofendida ontem. Não sejas criança!»
Não respondi. Olhava pela janela, campos, árvores, e sentia-me viva pela primeira vez em anos.
No Porto aluguei um quarto pequeno numa casa antiga perto dos Clérigos. A proprietária, Dona Graça, uma senhora afável e culta, só me perguntou:
Vai ficar muito tempo?
Não sei respondi. Talvez para sempre.
Na primeira semana, limitei-me a andar pela cidade, a olhar prédios bonitos, visitar museus, sentar num café a ler. Há anos que não lia nada que não fossem receitas e dicas de limpeza. Percebi que perdi imensa coisa durante estes anos.
O Tomás ligava religiosamente todos os dias:
Beatriz, chega de disparates! Volta.
A minha mãe diz que vai pedir desculpa. Não chega?
Estás tola? És adulta, mas comportas-te como adolescente!
Ouvia-o e pensava: como é que isto sempre me pareceu normal? Como é que aceitei ser tratada como uma criança malcriada?
Na segunda semana fui ao centro de emprego. Descobri que designers de interiores eram muito procuradas, especialmente no Porto. O problema: a minha formação estava ultrapassada, havia novas tecnologias.
Precisa de formação complementar explicou a conselheira. Novos programas, tendências atuais. Mas tem boa base, vai conseguir.
Inscrevi-me no curso. Todos os dias ia ao centro de formação, aprendi 3D, novos materiais, design contemporâneo. No início, o cérebro que já não trabalhava assim, custou. Mas aos poucos fui apanhando o ritmo.
Tem talento disse o formador ao ver o meu primeiro exercício. Tem muito bom gosto. Por que esteve tanto tempo parada?
Vida respondi, curta.
Após um mês o Tomás parou de ligar. Mas a dona Manuela ligou.
Ficou doida, ingrata? gritou pelo telefone. Abandonou o meu filho, destruiu a família! Então foi só porque não tinha lugar à mesa? Nem pensámos nisso!
Dona Manuela, não foi pelo lugar respondi calma. Foram doze anos de humilhações.
Humilhações?! O meu filho tratou-a como uma princesa!
O seu filho deixava-a tratar-me como criada. E ele pior ainda.
Estúpida! gritou, desligou.
Dois meses depois, terminei a formação e comecei a procurar emprego. As primeiras entrevistas correram mal, nervos, tropeçava nas palavras, esqueci como apresentar-me. À quinta entrevista entrei para um pequeno estúdio como assistente de design.
O salário é baixo avisou o chefe, Nuno, homem nos quarenta, olhos cinzentos bondosos. Mas temos uma boa equipa, projetos interessantes. Se mostrar trabalho, será promovida.
Aceitaria qualquer salário. Só queria trabalhar, sentir-me útil não como empregada doméstica, mas como profissional.
O primeiro projeto era simples decorar um T1 para um casal jovem. Meti toda a energia, pensei em cada pormenor, fiz dezenas de esboços. Quando viram o resultado, adoraram.
Encaixou tudo o que desejámos! disse a cliente. Parece que entrou na nossa cabeça!
Nuno elogiou-me:
Excelente trabalho, Beatriz. Nota-se paixão.
E era mesmo paixão. Pela primeira vez em anos, fazia algo de que gostava de verdade. Acordava ansiosa pelo novo dia, novos desafios, novas ideias.
Seis meses depois, subiram-me o salário e deram projetos mais complexos. Ao fim de um ano era designer principal. Os colegas respeitavam-me, os clientes recomendavam-me.
Beatriz, é casada? perguntou Nuno, numa noite, depois de ficarmos tarde a debater um projeto.
Formalmente sim respondi. Mas já vivo sozinha há um ano.
E vai divorciar-se?
Vou, em breve.
Ele assentiu e não voltou a falar disso. Gostava que ele não se metesse na minha vida, nem julgasse, só aceitasse.
O inverno no Porto foi duro, mas eu sentia-me a descongelar por dentro. Inscrevi-me em inglês, comecei aulas de yoga, fui ao teatro sozinha e gostei.
A Dona Graça disse-me um dia:
Sabe, Beatriz, mudou muito este ano. Quando chegou, parecia um ratinho assustado. Agora olha, uma mulher bonita, decidida.
Olhei ao espelho e vi que era verdade. Soltei o cabelo, que antes mantinha apertado. Comecei a pintar-me, usar roupa colorida. Sobretudo, o olhar mudou agora mostrava vida.
Ano e meio depois, recebi uma chamada de uma desconhecida:
É a Beatriz? A Dona Alice recomendou-a, fez-lhe o design do apartamento.
Sou eu.
Preciso remodelar um duplex inteiro. Pode vir ver?
Era um projeto grande, a cliente abastada deu-me liberdade criativa e orçamento generoso. Trabalhei quatro meses nesse duplex e saiu melhor do que imaginei. Publicaram as fotos na revista de design.
Está pronta para trabalhar por conta própria disse Nuno, mostrando-me a revista. Já é conhecida na cidade, os clientes querem o seu trabalho. Tem coragem de abrir o próprio estúdio?
Essa ideia assustava e entusiasmava ao mesmo tempo. Arrisquei. Com o dinheiro poupado em dois anos aluguei um pequeno escritório no centro, registei atividade própria. Estúdio de Interiores Beatriz Oliveira a placa era discreta, mas para mim, era o mundo.
Os primeiros meses foram duros. Poucos clientes, dinheiro a voar. Mas não desisti. Trabalhei quinze ou dezasseis horas, aprendi marketing, criei site, redes sociais.
Com o tempo, as coisas melhoraram. O passa-palavra ajudou, os clientes satisfeitos traziam outros. Ao fim de um ano contratei uma assistente, depois um segundo designer.
Uma manhã, vi um e-mail do Tomás. O coração parou há anos não ouvia nada dele.
«Vi o artigo sobre o seu estúdio. Não posso acreditar que chegou tão longe. Queria conversar. Aprendi muito nestes três anos. Perdoe-me.»
Li e reli. Há três anos isto teria me feito correr para ele. Agora, senti apenas um melancólico alívio saudades da juventude, da fé no amor, pelo tempo perdido.
Respondi simples: «Tomás, obrigada pela mensagem. Sou feliz nesta nova vida. Desejo-lhe sorte.»
Nesse dia, meti papel para o divórcio. No verão, ao fazer três anos desde que fugi de casa, recebi um grande pedido decorar um penthouse num condomínio de luxo. O cliente era o Nuno.
Parabéns pelo sucesso disse ao dar-me a mão. Sempre soube que ia conseguir.
Obrigada. Sem o seu apoio, teria sido impossível.
Tolices. Você fez tudo. Agora deixe-me convidá-la para jantar para falarmos deste projeto.
No jantar, falámos do trabalho. Mas no fim, o assunto tornou-se pessoal.
Beatriz, queria perguntar o Nuno olhava-me Tem alguém?
Não respondi sinceramente. E não sei se estou pronta para outra relação. Preciso de tempo para voltar a confiar nas pessoas.
Compreendo. Então, vamos ficando amigos, saindo de vez em quando? Sem pressa, sem obrigações.
Pensei e assenti. O Nuno era sensível, inteligente, respeitador. Com ele sentia-me tranquila, segura.
A nossa relação foi crescendo, devagar. Teatro, passeios pela cidade, conversas sobre tudo. O Nuno nunca apressava nada, nunca exigia promessas, nunca quis controlar-me.
Sabes? disse-lhe um dia. Contigo sinto-me igual. Não empregada, não bibelô, nem fardo. Igual.
E como poderia ser de outra forma? admirou-se. És só uma mulher incrível. Forte, talentosa, independente.
Quatro anos depois daquela fuga, o meu estúdio era dos mais conhecidos do Porto. Tinha uma equipa de oito pessoas, escritório no centro, casa com vista para o Douro.
Acima de tudo, tinha uma vida nova. Uma vida que escolhi.
Certa noite, sentada na poltrona favorita com chá, lembrei-me daquele dia quatro anos antes: a sala dourada, as rosas brancas que deixei na rua, a humilhação, a dor, o desespero.
E pensei: obrigada, Dona Manuela. Obrigada por não me dar lugar à sua mesa. Se não fosse isso, ficava eternamente na cozinha, a mendigar afeto.
Agora tenho a minha própria mesa. E sento-me nela senhora do meu destino.
O telefone tocou, interrompendo-me.
Beatriz? É o Nuno. Estou junto ao teu prédio. Posso subir? Preciso de falar contigo.
Claro, sobe.
Abri a porta e ele estava lá com um ramo de rosas brancas. Tal como há quatro anos.
Coincidência? perguntei.
Não sorriu. Lembro-me do que contaste desse dia. Agora, quero que associes as rosas brancas a algo bom.
Ofereceu-me as flores e tirou do bolso uma caixinha pequena.
Beatriz, não quero apressar nada. Mas quero que saibas que estou pronto para partilhar a tua vida tal como ela é. O teu trabalho, os teus sonhos, a tua liberdade. Não quero mudar-te, mas acrescentar algo.
Peguei na caixinha e abri. Era um anel simples, elegante, discreto. Bem como eu teria escolhido.
Pensa com calma disse ele. Não há pressa.
Olhei para ele, para as flores, para o anel. E lembrei o caminho longo que fiz da dona de casa assustada à mulher feliz e independente.
Nuno, tens a certeza? Casar com alguém teimosa como eu? Nunca me calarei se algo me incomodar. Nunca serei esposa certinha. E nunca mais deixarei que me tratem como menos.
É essa mulher que amo respondeu. Forte, livre, dona de si.
Pus o anel no dedo. Perfeito.
Então sim. Mas, vamos planear o casamento juntos. E haverá lugar para todos à nossa mesa.
Abraçámo-nos, e nessa altura, uma lufada vinda do Douro percorreu a sala, agitando as cortinas e enchendo-a de luz fresca como se o novo capítulo estivesse só a começar.







