João chegou a casa, entrou na cozinha e encontrou o jantar à espera em cima da mesa. Estranho, onde é que estará a Leonor? pensou ele. Passou para o quarto e viu a mulher sentada no chão, a arrumar coisas numa mala. Vais a algum lado? perguntou João. Mandaram-me ao Porto para uns exames. Tenho umas suspeitas más revelou Leonor, de repente. Más como? surpreendeu-se João. Não me digas que é aquilo… Aquilo que levou a tua mãe. João olhava para a mulher, sem conseguir acreditar no que estava a acontecer.
Já há uns dias que João não tinha descanso. Estava um trapo, preocupado com a sua Leonor, que andava a fazer exames em Lisboa. João ficou em casa, na aldeia, à espera de notícias, a remoer o pior e o melhor, como quem espera pelo milagre de Santo António.
Leonor nunca se queixava de nada, e João já pensava que a mulher era feita de ferro: sempre tudo em casa brilhava, a comida estava pronta a horas, a roupa lavada e passada. Estavam casados há trinta anos, criaram dois filhos, mas a casa, essa, era só de Leonor. Cozinhar, limpar, passar a ferro o João achava que as tarefas domésticas vinham no manual de instruções das mulheres. Homem que é homem não lava pratos, só os suja.
E a Leonor, nem era dona de casa, veja-se bem, trabalhava como contabilista na mesma fábrica de cortiça onde ele esgotava as energias. Quando chegavam a casa, João abria imediatamente o confessionário das queixas: Estou morto de cansaço!, dizia ele, e atirava-se para o sofá, de comando em punho a ver as novelas. A Leonor, qual supermulher, metia-se na cozinha, fazia jantar e almoço para o dia seguinte, limpava, passava, organizava tudo e perguntas-lhe se precisava de ajuda? Qual quê! E ao João nem lhe passava pela cabeça oferecer-se. Para quê? Não é coisa de homem.
Quando Leonor tirou uma folga para ir ao médico, disse-lhe só entre dentes.
O que se passa contigo? Estás doente? perguntou João, já a antever que ia ter de cozinhar.
Espero bem que não respondeu ela, suspirando. Ando a sentir-me mal, é só isso.
Isso deve ser falta de vitaminas. Isto de ser Primavera deixa qualquer um com ares de galinha sugeriu ele, já armado em especialista.
Se calhar, quem sabe encolheu os ombros ela.
Nessa noite, quando João voltou do trabalho a casa, Leonor explicou-lhe, calmamente, que ia a Lisboa fazer uns exames.
Mas porquê? resmungou João, a mastigar o ar.
Porque suspeitam de algo errado com a minha saúde. Mandaram-me para o hospital central.
Errado como? Não me digas que é aquela coisa… aquilo que matou a tua mãe…
São só suspeitas apressou-se ela a acalmá-lo, mas já chorara de tarde, sozinha. Já comprei o bilhete de autocarro, amanhã às oito vou. Tens jantar no fogão: bifes, arroz, e salada na mesa. Tenho de arrumar as coisas, quero deitar-me cedo.
Já jantaste? perguntou João, sem jeito.
Não me apetece, respondeu ela, continuando a arrumar a mala.
João olhava para a mala e lembrava-se de quando, quatro anos antes, tinham quase ido ao Algarve. Foi nesse verão que Leonor comprou essa mala azul do Continente, toda contente por finalmente irem ver o mar. Ela até comprou dois fatos de banho coloridos, um vestido todo catita, e um chapéu de palha que lhe ficava a matar. Mas a ida ao mar ficou por terra porque o chefe do João pediu-lhe para cobrir o turno de um colega doente e prometeu-lhe um prémio: É bom para fazermos obras no quarto, pensou ele. Leonor, coitada, parecia feliz por fora, mas à noite João ouviu-a chorar baixinho. Disse que tivera um mau sonho. Só agora percebia o verdadeiro motivo.
No ano seguinte, o mar voltou a ser só em postal. Leonor calou-se de vez sobre o assunto. E o João contente: preferia mil vezes ir para a quintinha em Santarém, grelhar umas entremeadas e jogar sueca com os amigos, ao pé do rio Tejo. E gastar dinheiro para quê, se têm tudo ali à mão?
Agora, Leonor fazia a mala não para as férias, mas para o hospital. E se… E se a coisa fosse mesmo grave? Só de pensar nisso, ele sentia um nó no estômago.
Nessa noite, nem jantar lhe apeteceu, ficou às voltas na cama, ouvindo Leonor suspirar do outro lado, em silêncio. Queria abraçá-la, mas ficou quieto, como se os homens dessem azar com abraços nestas alturas.
De manhã, levou a mulher ao terminal de autocarros. Antes de embarcar, deram um abraço como se fossem dois adolescentes. A João custou-lhe largá-la olhando para o autocarro a afastar-se, sentiu as lágrimas virem ao de cima, meio envergonhado.
Leonor… sussurrou. Minha querida, que corra tudo bem…
Sentiu-se esvaziado, mas teve de ir trabalhar. Só o trabalho lhe dava alguma distração daqueles pensamentos negros. Ao chegar a casa, tudo parecia desolador. Aquela casa sem Leonor era só paredes, sem alma. Aquecendo o jantar, comeu contrariado, como penitência.
Tentando distrair-se, ligou a televisão mas nem o reality show da tarde o animou. Foi buscar o álbum de fotografias ao armário.
Ali estavam eles, a casar-se, tão novinhos. Leonor, toda elegante e miudinha, a felicidade estampada. Conheceram-se no aniversário de um amigo comum. Ela foi com outro rapaz, ele com uma namorada. Mas bastou um olhar, e João ficou logo apanhado. Se alguém lhe dissesse antes que ia apaixonar-se à primeira vista, ria-se a bandeiras despregadas. Isso era coisa de filmes americanos, não de gente de bem. Mas aconteceu mesmo assim.
Acabou a discutir com a namorada, Catarina, na rua.
Vai lá, não tem problema. Era tempo de terminarmos. Nem nunca fui apaixonado disse ele arquitetando a desculpa. Catarina saiu de lágrimas, mas em menos de uma semana estava com o Vítor, que a cobiçava desde os tempos de colégio. Casaram depois e tudo.
João precisou de correr atrás de Leonor. Quando ela ficou livre, não se atirou logo para os seus braços. Mas João insistiu, e ela acabou por corresponder.
Folheando o álbum, João reviu todos os bonitos momentos com Leonor, apercebendo-se do quanto fora feliz. E do quanto dera aquilo por garantido. Quando terá sido a última vez que lhe disse que a amava? Ou agradeceu pelo jantar? Agora percebia: Leonor carregava sozinha todo o peso do lar e ele, feito tanso, achava que ela nunca se cansava. Se ele adoecia, era chás e caldos e mimos. Se ela adoecia, tomava um Ben-u-ron, ia trabalhar.
Só de pensar que podia perder Leonor, o medo congelava-o todo. Vivia em piloto automático à espera de notícias. Ligavam-se todos os dias ao fim do dia, mas Leonor não avançava nada.
Começou a dar por si a arrepender-se da falta de atenção, do egoísmo. Se pudesse voltar atrás…
Uma noite, Leonor ligou-lhe:
João, tenho boas notícias! Não se confirmou nada de grave. Há problemas, mas não são o fim do mundo.
A sério? exclamou João Leonor, nem imaginas o alívio!
Dias depois, João foi buscá-la ao terminal. Levava um ramo de lírios brancos na mão, os favoritos de Leonor.
Gastaste dinheiro em flores? admirou-se ela, sorrindo. Mas obrigada. Sabe-me bem.
Nem imaginas como estava preocupado disse João, abraçando-a. Amo-te tanto Desculpa-me.
Desculpar-te de quê? Leonor, espantada.
Não fui o melhor marido Não soube cuidar de ti, nem ajudar. Mas agora vai ser diferente. Tenho uma surpresa.
Então?
Comprei bilhetes: daqui a um mês, de férias, vamos ver o mar.
O mar? E a quinta?
Esquece lá a quinta João sorriu. Até a podemos vender! Legumes compra-se no mercado!
Não te reconheço, João
Nem eu, Leonor. Fiquei tão assustado de te perder Agora vou cuidar de ti como ao maior tesouro! Amo-te tanto
Ó João! sorriu Leonor. Se calhar foi preciso tudo isto para te ouvir dizer essas coisas Mas vá, vamos para casa. Eu também te amo.






