Hoje quando cheguei a casa, entrei logo na cozinha e vi o jantar à minha espera na mesa. Estranhei porque não vi a Leonor em lado nenhum estranho, onde estará ela, pensei. Fui até ao quarto e lá estava a minha mulher, sentada no chão, a arrumar coisas numa mala de viagem.
Vais a algum lado? perguntei, tentando disfarçar o nervosismo.
Disseram-me no centro de saúde para ir ao Hospital de Lisboa fazer uns exames. Há umas suspeitas não muito boas disse-me de repente a Leonor.
Como assim, suspeitas más? perguntei, já com o coração na garganta.
Nada certo ainda… mas pode ser aquilo que levou a minha mãe.
Olhei para a Leonor e custava-me acreditar no que estava a acontecer. Estes últimos dias têm sido um tormento. A preocupação com a Leonor, enquanto ela faz exames e eu fico em casa na nossa aldeia aqui perto de Santarém, tem-me roubado o sono e a paz de espírito. Passo o tempo à espera de boas notícias.
A Leonor nunca foi de se queixar de nada e já me habituei a pensar que ela é feita de ferro. Estamos casados há trinta anos, criámos dois filhos juntos. Sempre tudo impecável lá por casa graças à minha mulher comida na mesa, casa arrumada, roupa lavada. Sempre achei que era mesmo assim: louça e tachos não são para homens, pensava eu.
E não era que a Leonor fosse só dona de casa ela trabalha na contabilidade, no mesmo escritório que eu. Ao fim do dia, enquanto eu me sentava no sofá a ver futebol e a queixar-me do dia, ela logo ia para a cozinha tratar do jantar, do almoço do dia seguinte, depois ainda arrumava tudo, passava a ferro a roupa, fazia o que era preciso. Nunca se queixou ou me pediu ajuda, nem nunca me ocorreu oferecer achava que isso não era coisa de homem.
Quando ela pediu folga no trabalho para ir ao médico, até estranhei.
Estás doente? perguntei, pouco convencido.
Espero que não respondeu, encolhendo os ombros , mas ando a sentir-me estranha.
Se calhar precisas de umas vitaminas isto da primavera, sabes como é.
Ela sorriu, sem grande convicção.
Quando voltei do trabalho naquela noite, Leonor disse-me que tinha mesmo de ir fazer exames ao hospital na capital.
Mas porquê, Leonor?
O médico diz que acha melhor verem mais a fundo o que tenho. Disseram-me para ir a Lisboa.
O alarme soou-me no peito.
Mas acham que tens o mesmo que a tua mãe?
Só são suspeitas, ainda não sabem. Já tenho o bilhete do autocarro para amanhã às oito. Janta tu, está bem? Fiz arroz e colei umas almôndegas. Na mesa tens salada.
Já jantaste?
Não tenho vontade, respondeu, a arrumar a mala.
Senti um aperto tremendo. Não podia ser… a minha Leonor teria problemas graves? Aquela mulher que sempre esteve cheia de energia, a mover os dias lá em casa? Tudo isto parecia-me um pesadelo.
Ela fechou a mala e eu aproveitei para recordar as tantas vezes que aquela mala foi usada especialmente há quatro anos, quando planeávamos ir à praia no Algarve. Tínhamos sonhado tanto com aquele verão! Ela até comprou dois fatos de banho coloridos e um chapéu de palha lindo. Mas não fomos. O patrão pediu para eu substituir um colega e prometeu-me um belo bónus. Aceitei, pensando que era a decisão mais sensata; podíamos finalmente fazer obras no nosso quarto. Achei que Leonor estava de acordo, até a ouvi chorar de noite e disse-me que tinha tido um sonho mau Só agora percebo o motivo das suas lágrimas; era mesmo o desgosto de não ir à praia.
Depois disso, nunca mais falou em viagens nem férias longe de casa. Eu, para ser sincero, até agradecia nada como passar férias na nossa casinha de campo, fazer churrascos com amigos, dar uns mergulhos no Tejo.
Agora lá estava Leonor, a arrumar a mesma mala, não para ir à praia, mas para exames médicos Não consegui jantar naquela noite; fiquei deitado, a ouvir quedos soluços da Leonor, sem coragem para chegar perto, abraçá-la e acalmá-la.
Na manhã seguinte, levei-a à rodoviária. Antes dela entrar no autocarro, abraçámo-nos e quase não consegui largá-la. Fiquei a olhar para o autocarro a afastar-se e senti-me vazio, as lágrimas quase a cair-me.
Leonor murmurei, quase sem voz, minha querida, que tudo corra bem
Tive de me agarrar ao trabalho para não ceder à tristeza, mas nada parecia fazer sentido quando cheguei a casa. Aquela solidão sem Leonor pesava. Forçei-me a aquecer o arroz e as almôndegas da véspera. Tentei distrair-me com a televisão, mas nada me interessava; desliguei-a e fui buscar os álbuns de fotografias.
Vi fotografias do início do nosso casamento A Leonor era um encanto aliás, continua a ser, mas naquela altura, meu Deus Lembrei-me do dia em que a conheci, no aniversário de um amigo, ela lá estava, acompanhada de outro rapaz, e eu com uma rapariga chamada Sofia. Mas assim que vi a Leonor, caiu-me tudo: foi amor à primeira vista, coisa em que nunca acreditei até aquele momento. Acabei por discutir com a Sofia; ela percebeu logo que o meu olhar já não era para ela.
Depois de algumas voltas da vida, conquistei a Leonor. Não foi de um dia para o outro, mas ela acabou por ceder às minhas investidas E fomos felizes, verdadeiramente felizes.
A folhear o álbum, revivi todos aqueles momentos, apercebi-me que talvez nunca tenha dito “obrigado” pelo jantar, nunca fiz um verdadeiro elogio, nunca disse “amo-te” tantas vezes quanto devia. Era tudo tomado como garantido a mulher que cuida, cozinha, arruma, trata do que faz falta.
Percebi, sentado ali, com as fotografias no colo, que Leonor carregou tudo às costas estes anos todos. Quando eu adoecia, ela cuidava de mim, fazia caldo de galinha e chá de limão, ouvia-me resmungar Quando era ao contrário, ela raramente abrandava.
Passei esta semana num modo automático, sem saber o que fazer apenas aguardava notícias. Ligávamos todos os dias, mas a minha preocupação não cedia.
Chorei a minha falta de atenção, o meu egoísmo. O tempo devia voltar atrás.
Finalmente, uma noite, recebo o telefonema:
João, tenho boas notícias! Não se confirmou o pior. Tenho uns problemas, mas nada grave.
A sério, Leonor? Que alívio!
Uns dias depois fui esperar a Leonor à rodoviária, um ramo de lírios brancos na mão (os seus preferidos).
João, para quê gastares dinheiro em flores? estranhou, mas sorriu.
Senti tanto a tua falta… Gosto tanto de ti. Desculpa-me.
Desculpar-te de quê, homem?
De não ter sido sempre o marido que devias ter tido Não que te tivesse traído, acredita! Mas não cuidei de ti como merecias. Agora vai ser diferente. E preparei-te um segredo.
Segredo?
Comprei bilhetes. Daqui a um mês, nas férias, vamos ao Algarve, à praia.
Praia? E a nossa casa de campo?
Pode esperar! Até pensava se calhar vendemo-la.
Já não te reconheço, João
Nem eu a mim, Leonor. Tive tanto medo de te perder Agora és mesmo o meu maior tesouro.
Ai João Se calhar tudo isto tinha de acontecer para ouvir de ti essas palavras. Anda, vamos para casa. Eu também te amo.
Hoje aprendi, da pior maneira, o quanto o amor e a atenção não podem ser dados por garantidos. A pessoa que amamos merece ouvir, sentir, saber que é importante não só nos momentos difíceis, mas em todos os dias. Nunca mais me esquecerei disso.






