Já tens cinquenta anos, quem é que ainda te quer? gracejava o meu marido. Mas a Lídia decidiu experimentar.
O meu marido, Ernesto Silva, era um homem cheio de teorias. Não só uma, claro. Tinha pelo menos uma dúzia delas, todas igualmente inabaláveis. Que bom caldo verde só se faz com chouriço da Serra. Que os gatos são mais inteligentes que os cães. Que televisão só se vê com o volume nos vinte e dois nem mais, nem menos. Mas a teoria principal sempre foi: mulher depois dos cinquenta não interessa a homem nenhum.
Formulava-a de formas diferentes, conforme o humor.
Às vezes dizia de modo académico: a natureza é assim, Lídia, nada de pessoal.
Outras vezes saía-lhe filosófico: é a vida, não há volta a dar.
E, mais frequentemente, quando eu vestia um vestido novo ou punha batom nos lábios, lá vinha ele, simples, como quem fala do tempo: já tens cinquenta, quem é que ainda te quer.
Sem ponto de interrogação. Um facto.
Eu, Lídia, tinha cinquenta e dois. Trabalhava como contabilista numa empresa de construção civil de Lisboa, fazia ginástica de manhã, à noite lia romances, ao fim de semana fazia tartes que o Ernesto devorava, nunca se lembrando de perguntar a quem ainda fazia falta a mulher que lhas fazia.
Vinte e seis anos juntos. Nesse tempo, o Ernesto engordou, ficou careca e fez das suas ideias dogmas. Eu não. Ou melhor, mudei, mas de outra forma.
A minha amiga Matilde reparou nisso antes de todos.
Lídia disse ela um dia, depois de um café, com aquele seu olhar cúmplice de quem está prestes a dizer algo importante e um bocado louco , tu tens noção que és bonita?
Deixa-te disso respondi, a rir.
A sério. E olha, porque não te inscreves num site de encontros? Só pela experiência. Por desporto.
Pousei a chavena.
Mas estás doida?
Só metes lá a ficha. Escolhemos uma foto gira. Vais ver o que acontece.
Não vai acontecer nada, disse eu. Já tenho cinquenta. Quem é que me quer?
Ao dizê-lo, reparei no tom era igualzinho ao do Ernesto Silva.
A Matilde era mulher de agir. Não perdia tempo com grandes falas; agia de modo a que recusar era quase falta de educação. Chegou lá a casa nessa noite, portátil debaixo do braço, uma garrafa de vinho do Alentejo na outra mão, como se tudo já estivesse decidido.
Pronto, despachou-se ela, pousando a garrafa. Agora vamos fazer-te uma ficha. Rápido, bonito e sem discussões.
Espera lá nem tive tempo de tirar o avental , que ficha?
No site de encontros lembras-te?
Disseste, e eu disse que não.
Disseste “quem é que me quer”, e isso é diferente.
Olhei para ela. Ela sustentou o olhar com a confiança de quem está mesmo certa.
Matilde, tenho cinquenta e dois anos.
Eu sei. Conheço-te há trinta.
E então?
E então nada. Anda lá, senta-te.
Sentei-me, mais por cansaço do que por cedência. O dia tinha sido longo, o relatório trimestral demorado, o trânsito para chegar a casa ainda pior. Sentei-me, só para “descansar as pernas”.
Vá, a foto, pediu a Matilde, já a ligar o portátil.
Que foto?
Uma gira. Não tens nenhuma?
Pus-me a pensar. As últimas eram das festas da empresa. Eu, num canto, com um copo, meio de lado, a olhar para fora porque nessa noite o Ernesto ligou três vezes a perguntar a que horas chegava.
Talvez do ano novo disse, sem grande convicção.
Ela mirou-as atentamente.
Está ótima disse, por fim. Aqui, sim senhora. Porque é que estás sempre encolhida ao vivo e na foto não?
Na foto ninguém me vê, respondi, sem perceber muito bem porquê.
Ela ficou a olhar para mim, sorriu de canto. Depois abriu a garrafa.
A ficha demorou. Ou melhor, a Matilde escrevia; eu refilava com tudo.
Objetivo? pergunta a Matilde. Lídia, escreve fazer amigos.
Não quero fazer amigos.
Não interessa, escreve.
Fala de ti. O que digo? Contabilista, faço tartes, vivo com homem cheio de teorias sobre mulheres depois dos cinquenta?
Vais pôr: Ativa, interessante, gosto de ler e de viajar.
Eu não viajo.
Mas gostavas de viajar?
Pensei nisso.
Gostava.
Pronto, não mentimos.
Escolhemos a tal foto do Ano Novo. Eu, de vestido bordeaux, cabelo apanhado, e nos olhos qualquer coisa de vivo. O Ernesto nunca chegou a ver esse vestido. Quando cheguei a casa naquela noite, já dormia.
Está, fechou a Matilde o portátil. Ficha feita.
E agora?
Agora esperamos.
Esperamos o quê?
Vais ver.
Deitei um pouco de vinho no copo, olhei pela janela. Lá fora era só uma noite qualquer: candeeiro, ramo nu de plátano, Lisboa calma. O Ernesto via televisão na sala volume, como sempre, nos vinte e dois. O écran murmurava. Dias comuns.
“Pronto, pensei. Ficha é ficha. Vai dar no mesmo: nada.”
Bebi, fui lavar a loiça.
No dia seguinte, nem me lembrei da ficha. Nem por sombras.
Fui trabalhar, passei a manhã no relatório, almocei um caldo insosso na tasca do rés-do-chão e às três dei por mim a olhar pela janela a contar pombos em cima do prédio do lado.
O telemóvel esteve sempre na mala.
Às cinco lá espreitei, só para ver se havia mensagem do Ernesto. Não havia. Mas havia uma notificação do site, um círculo vermelho com um número.
Onze.
Onze mensagens. Num só dia.
Olhei o telemóvel. O telemóvel olhou para mim. Voltei a guardá-lo, esperei uns minutos, busquei-o de novo.
Onze.
Spam, de certeza, pensei.
Abri. Não era. Eram onze homens com fotos, nomes e conversas próprias. Uns diziam só “Olá, gostei do teu perfil.” Outros escreviam mais. Um, Pedro, cinquenta e quatro anos, fez quase poesia falou de livros, de já não encontrar mulher com aquele olhar numa foto, do quanto adorava viajar.
Li isso duas vezes.
Viajar, também pus lá isso, lembrei. Fiquei com uma pequena vergonha. Só uma pequena.
À noite liguei à Matilde.
São onze, disparei, sem “olá”.
Já?! Matilde exaltou-se. Vês?!
Um fala de livros.
Responde.
Não vou responder.
Lídia!
O quê, Lídia? Tenho cinquenta e dois, sou casada.
Responde.
Não respondi. Nessa noite, lavei a loiça a pensar no Pedro e nos três parágrafos dele.
És doida, disse para mim própria.
De manhã, acabei por espreitar a app. O número já não era onze.
Vinte e oito.
Sentei-me na cama. O Ernesto dormia.
Vinte e oito homens em menos de vinte e quatro horas.
Fui deslizando com dedo leve, como quem descobre algo raro. O André, quarenta e oito, engenheiro, foto despachada com gato. O Miguel, cinquenta e seis, formal, de gravata, escreveu: É uma linda senhora. O Tiago e aqui parei quarenta e um, foto com montanhas ao fundo, só escreveu: Olá. Fala-me de ti.
Quarenta e um. Onze anos mais novo.
Fechei o telemóvel. Tornei a abrir.
Ao fim do segundo dia, mais de cinquenta.
Cinquenta e três mensagens. Aliás, cinquenta e quatro enquanto contava.
Sentada na cozinha, chá na mão, a deslizar mensagens com aquele espanto de quem foi comprar pão e encontra um tesouro. Aqui o Vasco, cinquenta, empresário, mandou um poema copiado, mas bonito. O Rui deixou um simples: Gostava de te conhecer. O Tiago das montanhas insistiu, porque não respondi, e repetiu, com cuidado: Ocupada? Não faz mal.
Fiquei a olhar para a mensagem uns bons minutos.
O Ernesto, ao lado, falava para a televisão. A televisão respondia. Dava-se bem com o aparelho.
Quem é que te quer ainda, lembrei.
Cinquenta e quatro homens em quarenta e oito horas. Uns da minha idade, outros mais novos. Um escreveu poesia, outro aguardou resposta e insistiu sem qualquer azedume.
A teoria do Ernesto Silva abanava. Lentamente, como tábua velha.
Bebi o resto do chá, deixei a chávena na pia. E, pela primeira vez em muitos anos, olhei-me ao espelho da janela escura da cozinha. Não de passagem, mas mesmo a olhar.
Ali estava uma mulher de cinquenta e dois. Direita. Olhos bonitos. Que, em dois dias, recebera cinquenta e quatro mensagens de completos estranhos.
Ena, murmurei.
O reflexo pareceu concordar.
O telemóvel estava na mesa de cabeceira.
O Ernesto apanhou os óculos, que estavam ao lado, e o écran iluminou-se: mais uma notificação. Pegou nele com o desinteresse hábito de quem nada espera. Olhou. Franziu o sobrolho.
Voltou a olhar.
No écran: “Tiago: Bom dia! Pensei em ti…”
O Ernesto sentou-se na cama. Devagar. Com ar de quem recebeu notícia importante sem saber se é boa ou má.
Lídia, chamou ele.
Eu estava na cozinha, a preparar café. Ouvi, mas não me apressei.
Lídia!
Já vou.
Entrei com a caneca na mão. Tranquila. O Ernesto segurava o telemóvel como quem não sabe se solta ou guarda.
O que é isto? perguntou.
Olhei para o écran, depois para ele. Bebi um golo.
Notificação, disse.
Eu vejo que é notificação. Quem é este Tiago?
Do site de encontros.
Pausa. Daquelas boas.
Que site de encontros?! levantou-se. Tu inscreveste-te lá?
Inscrevi.
Para quê?!
Pousei a caneca na mesa de cabeceira, encarei-o sem rancor, com curiosidade de quem já sabe a solução do problema.
Estava a testar a tua teoria, expliquei.
Que teoria?
Aquela das mulheres depois dos cinquenta. Lembras-te? Quem é que te quer.
O Ernesto abriu a boca. Fechou. Olhou de novo para o telemóvel lá estavam mais três notificações, quase seguidas.
Quantos… desses… não acabou.
Cinquenta e quatro, informei. Em dois dias.
Cinquenta e quatro? repetiu ele, baixinho, como quem experimenta ver se o número lhe serve. Não servia.
Alguns mais novos do que eu, acrescentei, peguei na caneca e fui de volta à cozinha.
O Ernesto Silva ficou ali, parado com o telemóvel. Lá fora, uma manhã igual às outras candeeiro apagado, plátano despido, pardais a cantar no telhado. Tudo igual. Só a teoria dele é que, inexplicavelmente, já não funcionava.
Nada mesmo.







