Carlos, a mala! A mala abriu-se, pára o carro! gritava Teresa, já com o coração apertado porque sabia que já nada havia a fazer. Enquanto a estrada se estendia atrás deles, as coisas iam caindo do porta-bagagens, espalhando-se pela autoestrada, e os carros que vinham atrás nem reparavam, seguindo alheios.
Lá se iam as ofertas, os mimos, para os quais tínhamos poupado durante os últimos dois meses. O queijo da Serra, o salpicão, o bacalhau da Noruega, o azeite bom tudo aquilo que só permitimos a nós próprios comprar nas ocasiões especiais. Tínhamos posto tudo nos sacos mais bonitos, cuidadosamente acomodados em cima da restante tralha, para não se estragar. Íamos de Lisboa até à aldeia do Carlos, para passar o Natal e o Ano Novo com a avó dele.
O trânsito estava infernal, como é costume nestas alturas; toda a gente abandona a cidade assim que pode. Os carros colam-se uns aos outros, vai tudo devagar, mas mesmo assim parar de repente é impossível. O que caiu, ficou para trás, perdido para sempre.
Os miúdos, sentados no banco de trás, perceberam o desespero da mãe e começaram também a chorar. Tentei acalmá-los enquanto o Carlos encostava o carro à berma e, finalmente, parámos. Ainda acalentei a esperança de que alguma coisa tivesse rolado até à berma, mas à medida que fomos andando para trás, só víamos restos esmagados e nada aproveitável. Procurar mais seria apenas perder tempo.
Deixa lá isso, não fiques assim, tudo se resolve, compramos outra coisa, ou então improvisamos está tudo bem, disse Carlos, tentando animar-me, ao ver como eu estava devastada. São só coisas. Bora para o carro, que está a ficar escuro e com este frio ainda acabamos doentes.
No entanto, a viagem fez-se em silêncio. Agora que fazia? Repetir, outra vez, ao Carlos que o fecho da mala estava gasto e não aguentava bem? Mas o nosso carro já é velho, compreendo que estas coisas aconteçam. Tentei não pensar muito nisto, mas às vezes vinha-me uma angústia tanto trabalho, tanta contenção, para acabar assim! Que falta de sorte! Lembrei-me, com uma amargura ainda maior, do presente especial para a avó do Carlos uma linda manta de lã, quentinha e macia que também tinha ficado perdida na autoestrada.
Chegámos à aldeia já era quase uma da manhã. Pensámos que a avó Maria já teria adormecido, mas a luz estava acesa no alpendre e, mal parámos, ela e a vizinha Zulmira vieram logo ao nosso encontro.
Ai meus amores, graças a Deus que chegaram! Estávamos aqui a rezar por vocês! E abraçou-nos um a um. Teresa, Carlos, já estava a perder a esperança! E onde estão os pequenos? Aqui estão os meus tesouros, graças a Deus está tudo bem!
Ó avó, está tudo bem, que susto é esse?! Venha lá para dentro que está um frio de rachar, nem o casaco direito vestiu! respondeu Carlos, tentando animá-la.
A avó Maria fez um gesto largo: Oiça lá, não se ria de mim, mas eu hoje jurei que vos via em apuros. Deitei-me para descansar depois do almoço, e tive uma visão, vi o vosso carro a sair da estrada, e de repente uma tragédia. Acordei com o coração apertado, todo o dia andei inquieta, parecia pressentimento. Quando a Zulmira bateu à porta, nem consegui articular palavra, só lhe disse que tinha visto um mau agoiro.
A Zulmira, logo: Temos de rezar, Maria, pode ser que ainda venham a tempo! Passámos o fim de tarde a rezar, ao Senhor e ao São Nicolau, a pedir que chegassem todos bem. Não sabíamos o que mais dar, só queríamos que nada vos acontecesse. Olha, graças a Deus estão todos aqui, é o que importa!
É verdade, avó, dissemos, se alguém apanhou as nossas coisas pelo caminho, que lhes saibam bem. Se calhar, precisavam mais do que nós.
A passagem de ano foi passada com a casa cheia, mesa farta e boa disposição. Batatas assadas da horta, tomate e pepino em conserva, polvo à lagareiro e cabrito, tudo do melhor. E, claro, os bolinhos doces da avó Maria, que os miúdos, António e Joana, roubavam do tacho ainda quentes, ali ao lado do lume. Felizes! Brincaram o dia todo com as crianças dos vizinhos na estrada, vieram para casa de olhos a fechar, mas resistiam ao sono, ansiosos por ver se o Menino Jesus lhes deixava prendas junto ao presépio.
A avó Maria ria, abraçava netos e bisnetos, seus e da Zulmira. Felicidade maior não há todos juntos, era isso que importava.
Noutra aldeia, esquecida entre serras, numa casa humilde estavam duas irmãs idosas, Esperança e Vitória, e o velho vizinho, Tiago. Viviam como podiam, sem família por perto, no Inverno tudo custava mais, o fogo e a companhia eram o seu conforto. Tiago foi buscar lenha ao bosque: apanhou uns ramos, atou-os juntos e, de repente, deparou-se com uma mala meio enterrada na neve.
Curioso, trouxe-a, abriu-a em casa e nem queria acreditar: queijo, salpicão, bacalhau e azeite. E no fundo, a manta de lã branca, fofo, quente, linda! Olhou à volta, ninguém por perto. Trouxe tudo para dentro, estendeu a manta à beira do lume, e as irmãs trataram logo de pôr a comida na mesa.
Nunca pensei voltar a provar iguarias destas, admirava-se Vitória.
Nem eu esperava este milagre, respondia Esperança.
Parece-me que foi Deus que nos mandou isto, um presente para abençoar os nossos dias que já vão curtos, concluiu Tiago. Que vivamos mais algum tempo, e saibamos dar graças.
Não vale a pena lamentar o que se perde. Pode ser que Deus nos tenha protegido, trocando bens por vida e alegria. O maior valor é conservar o que mais importa: estarmos juntos e termos saúde.







