Desde as férias, o Manuel não voltou
Então, o teu homem ainda não manda notícias nem telefona?
Nada, Vera, nem aos nove dias nem ao quadragésimo tive sinal dele ia respondendo a Lurdes, ajeitando o avental por cima da cintura larga enquanto tentava disfarçar com uma graçola.
Pois, olha, deve ter-se perdido por aí ou então aconteceu alguma coisa dizia a vizinha, abanando a cabeça em jeito de pena. Olha, espera, espera A PSP também não diz nada?
Ninguém diz nada, Verinha, estão todos calados, como peixe em maré baixa.
Oh filha… que sina a tua.
Este tipo de conversa custava a Lurdes. Trocou a vassoura de mão e começou a varrer as folhas que o Outono deixava em frente à casa. O Outono de 1988 estava a custar a passar Mal acabava de varrer, o vento tapava-lhe outra vez o caminho com folhas castanhas. Ela voltava atrás, refazia o caminho, juntava tudo em montinhos.
Faziam já três anos que a Lurdes Goulart se tinha reformado e pensava que ia finalmente aproveitar a vida com calma. Mas o mês anterior foi duro: teve de aceitar o emprego de empregada de limpeza na Junta de Freguesia da aldeia, o dinheiro encurtava e arranjar outro trabalho assim de repente não era tarefa fácil.
Viviam como uma família portuguesa igual a tantas outras. Nem mal, nem bem, mas como toda a gente. O casal trabalhava, criaram o filho. O Manuel não era de grandes copos, nem de arruaças só se via com um copito ao domingo, e no serviço era respeitado, era daqueles que punha gosto no que fazia. Nunca se soube de assuntos com outras mulheres. E ela, a Lurdes, uma vida inteira como auxiliar no Centro de Saúde, cheia de certificados de reconhecimento.
O Manuel foi ao Algarve com um daqueles pacotes de férias e nunca mais voltou. No início, a Lurdes não achou nada de estranho se não liga, é porque está bem, está a aproveitar, pensava. Mas quando devia voltar e nada, aí é que desatou a ligar para hospitais, para a GNR, até ao Instituto de Medicina Legal acabou por telefonar.
Ao filho, que estava a cumprir serviço militar numa base lá para Santarém, primeiro enviou-lhe um telegrama a dizer que o pai tinha desaparecido, depois conseguiu falar com ele. A custo, lá descobriram: o Manuel saiu do hotel, mas nunca apanhou o comboio de regresso. Desapareceu. E assim andaram às voltas, entre telefonemas para hospitais e para morgues.
No emprego do Manuel encolheram os ombros a empresa só ia dar as férias, o resto não é problema nosso. Se não voltasse ao trabalho na data marcada, era despedido por faltas injustificadas.
A mãe queria ir ao Algarve à procura dele, mas o filho não deixou:
Ó mãe, o que é que ias fazer lá? Espera mais um pouco, para a semana tenho folga, se me deixarem vou eu. Fardado, até as pessoas me levam mais a sério.
A Lurdes ficou um pouco mais calma, tentando entreter-se para não se deixar afundar nos maus pensamentos. Já não tratava da situação com nervosismo, mas com a rotina de quem vai à esquadra todos os dias à espera de novidades. Foi também por isso que procurou o trabalho, para ocupar a cabeça. Enquanto varria e cumprimentava os vizinhos, sentia-se um pouco mais forte. Mas à noite, em casa, chorava baixinho. Por vezes, amaldiçoava a vida e a má sorte, perguntas sem fim sobre como é que, já com idade para ter paz, a vida ainda lhe fazia destas. O pior de tudo era o não saber.
Um dia, o Manuel apareceu à frente dela tão repentinamente como tinha desaparecido.
Ali estava ele, de fato azul-escuro, o mesmo com que saíra de casa meses antes. Nenhuma mala, saco, nada. Só ele, o colarinho do casaco levantado, mãos nos bolsos, a olhar para ela a varrer o pátio.
A Lurdes nem reparou logo nele. Não fazia ideia de há quanto tempo estaria ali, parado, até ouvir a voz do filho:
Manuel, Pedro! A Lurdes largou a vassoura e correu.
Abriu os braços como uma gaivota a voltar aos penedos da Arrábida e atirou-se ao peito do marido, abraçando-o.
O Manuel demorou mas retribuiu o abraço.
Vamos para dentro, então… sempre agarradinhos o filho bufava, não escondendo a zanga. O tom de voz e o passo denunciavam barrotes atravessados no coração.
Pedrinho, anda cá, deixa-me abraçar-te dizia-lhe a mãe, a correr atrás.
Olá mãe, olá. Está frio, vamos já para dentro.
Ao menos podias ter avisado, telefonavas, assim ainda punha a casa em ordem, fazia um petisco…
Oh mãe, não vim cá pelos teus bolos. Vim porque prometi.
A Lurdes olhou do filho para o marido. Tinha passado tanto a cabeça, confusa, só precisava de se certificar de que estavam vivos e inteiros. Sabia que agora não era hora de perguntas. Em vez disso, tratava de lhes fazer o jantar, pôr a mesa com o melhor que tinha.
O Manuel sentado, calado, rongeu os dedos magros.
Oh mãe, senta-te pediu o Pedro.
A Lurdes fazia barulho na cozinha com a loiça.
Olha, mãe, o pai estava com outra mulher.
Lurdes estacou, olhou para o filho, depois para o marido. O Manuel estava sentado, mãos cruzadas ao colo, cabeça caída, encolhido como um miúdo apanhado em asneira. Magro, sombrio, sem coragem de se defender.
Com outra mulher? Mas o que se passa, Manuel?
Durante as semanas em que o esperou, só imaginava desgraças: foi roubado, ficou sem dinheiro, bateu alguma coisa mal, andava perdido de hospital em hospital, sem ninguém.
Aquilo foi assim: não voltou para casa, ficou a viver na casa da Olívia, lá junto à praia. Não queria regressar.
A Lurdes, sem palavras, abriu e fechou os olhos.
Não querias vir embora?
Não queria. Cheguei a uma altura percebi que a minha vida era sempre igual. Fábrica, casa, fábrica outra vez, uma voltinha à horta ao domingo, rotina. Nunca felicidade a sério, só o mesmo de sempre. Percebi que me faltava liberdade.
Liberdade!? corou de zanga.
Olha lá filho, por que foste buscar para casa este pedaço de liberdade? Querias ver-me de rastos? Mais valia teres dito que ele tinha morrido, sempre chorava e pronto. Esperei por ele como uma parva, quase perdi os olhos de tanto chorar e afinal a esta hora estava numa daquelas casinhas à beira-mar…
Ó Lurdes… se calhar eu só queria recomeçar do zero.
Não, Manuel. Não querias recomeçar. Apanhaste foi tanto sol no Algarve que perdeste a noção. Abandonaste tudo e foste esconder-te no regaço de outra. Se fosses homem a sério vinhas a casa, resolvias tudo, divorciavas-te e só depois ias viver essa vida nova de solteirão. Era assim que se fazia. Preferiste fugir que sequer olhar para trás. Não te quero cá, vai-te embora.
O Manuel levantou-se e foi para dentro, pelo corredor, em silêncio.
Não, não, sai, vai embora como vieste! Não quero, não aguento mais! gritava-lhe a Lurdes, quase a rebentar de tanto sufoco.
Pai, anda, vai-te embora e o Pedro apareceu depressa à porta.
Durante duas semanas não o viu.
Voltou à rotina de varrer folhas e atravessar a rua de vassoura em punho. Nesse dia, depois de uma noite de chuva, ele apareceu ao fundo da rua, com um velho sobretudo e um barrete desgastado.
Lurdes! chamou ele, e depois mais forte.
Ela ergueu a cabeça, olhou-o com olhos secos, duros. Era como se ele lhe tivesse partido o coração, e mesmo assim ela queria perdoar, mas não conseguia tocar-lhe. O Manuel aproximou-se.
Fiquei cá, tive de voltar para a fábrica, sou operário outra vez, não há lugar de encarregado… Deixas-me entrar?
Ela olhou-o, apoiada na vassoura.
Deixar deixo… Mas só para assinares o papel do divórcio. Agora é a sério.
Não me perdoas? Eu percebo.
Então, se percebes, para que é que vieste?
A Olívia disse-me que se saísse de lá não me queria de volta. E eu vim, Lurdes, cá estou
Olha, nem lá nem cá ninguém te quis, Manuel! Homens assim não interessam a ninguém. E só voltaste porque o Pedro te obrigou, nunca tinhas vindo de livre vontade. Vai, faz a tua vida, deixa-me trabalhar em paz. Estás-me a pisar o caminho.
Afastou-se dele e começou a varrer a rua com mais força, batendo-lhe nos sapatos com a vassoura. Uns minutos depois olhou para trás. Ele já lá não estava. Sentiu-se mais leve, como quem se livra de um peso. Tinha medo de perdoar quem a tinha magoado tão fundo. Porque geralmente, quem nos apunhala às escondidas… são logo aqueles que mais protegemos.







