Homem leva o seu cão à mata e o deixa amarrado a uma árvore, esperando livrar-se dele. Mas ninguém podia imaginar o que um lobo faria ao cão

O homem levou a sua cadela à floresta e, sem piedade, prendeu-a a um carvalho com uma velha trela de couro, acreditando que assim se livraria dela para sempre. Mas ninguém poderia imaginar o que um lobo faria àquela cadela naquela noite escura

Esta cadela fora durante anos o orgulho do seu dono. Fora ele quem a escolhera, ainda bebé, num quintal de amigos, quem lhe ensinara a sentar, a dar a pata, quem se ria enquanto ela atravessava as pastagens a correr para os seus braços, abanando freneticamente a cauda. Iam juntos para o campo, voltavam sempre juntos. Dormia no alpendre, encostada à porta do quarto dele. Era a sua fiel Nazaré.

Mas o tempo alterou tudo. Um dia, António percebeu que com as crias conseguia ganhar algum dinheiro extra. Começou inocente, mas logo os partos tornaram-se frequentes, a cadela emagreceu, parecia exausta, passava os dias deitada num canto, a arfar com cansaço. O veterinário foi claro: se continuasse assim, não aguentaria.

António detestou ouvir aquilo. Em vez de mudar, tornou-se amargo. Deixou de sentir alegria pela cadela, agora era um estorvo. E problemas, sempre resolvera depressa.

Foi nesse dia que a levou longe, ao pinhal junto a Sintra. Caminhou sem dizer palavra, sem olhar para trás. Nazaré, como sempre, saltitava contente, sem perceber o silêncio do dono. Quando António parou, amarrou a trela ao tronco e virou-lhe as costas, ela pensou que fosse uma brincadeira.

Ficou à espera. Depois começou a puxar a trela. Choramingou, primeiro baixinho. Ao entardecer já gania alto, desesperadamente, com a trela a magoar-lhe o pescoço. As folhas sussurravam ao vento frio e a noite caía densa. Ninguém apareceu.

Quando o sol se escondia já atrás das serras, um lobo cinzento saiu devagar do arvoredo. Aproximou-se com cautela. Parou a poucos metros e fitou Nazaré. Não rosnou, não mostrou os dentes. Apenas olhou-a, longamente.

Nazaré ficou imóvel, à espera do ataque, mas nada temia já sofrera o pior.

Mas o lobo surpreendeu-a…

Ela esperava violência. Esperava dor. Mas o lobo não avançou, não ameaçou. Foi dando voltas por perto, cheirou o ar, examinou a trela, o carvalho, a terra pisada. Deitou-se então a uns metros, atento, sem nunca lhe tirar os olhos de cima.

A noite adensou-se. O bosque fervilhava de vida. Lá ao fundo ouvia-se o uivo de outros lobos, depois silêncio. Curiosos, pequenos predadores aproximavam-se, atraídos pela fragilidade de Nazaré.

Mas sempre que alguém ousava chegar perto, o lobo levantava-se em silêncio, interpunha-se entre eles e a cadela, e um leve rosnar bastava: recuavam.

O lobo nunca a tocou, não se aproximou mais. Simplesmente ficou ali, de guarda.

Nazaré deixou de uivar. Já só respirava com dificuldade, mas de tempos a tempos erguia a cabeça só para se certificar que ele não desaparecera. Sempre lá.

Pela manhã, camponeses entraram no bosque. Procuravam por vestígios de lobos e foram guiados até lá pelo som débil de um choro. Ao verem a cena, ninguém falou: a cadela presa e o lobo cinzento de sentinela, como quem protege.

Pararam. O lobo fitou-os serenamente, sem medo, depois recuou devagar e desapareceu entre os troncos húmidos de Sintra.

Soltaram Nazaré. Sobreviveu apenas porque, naquela noite, alguém escolhera não ser predador.

Por vezes, são os mais selvagens que têm mais compaixão do que aqueles que se chamam humanos.

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Homem leva o seu cão à mata e o deixa amarrado a uma árvore, esperando livrar-se dele. Mas ninguém podia imaginar o que um lobo faria ao cão