Homem leva o seu cão à Mata de Sintra, amarra-o a uma árvore para se livrar dele, mas ninguém poderia imaginar o que um lobo faria ao cão

Hoje escrevo algo que ainda pesa no meu peito. Sempre fui um homem do campo, alguém habituado a caçar e a trabalhar duro nas redondezas de Viseu. A minha cadela chamava-se Mafalda nome que nunca esquecerei. No início, ela era tudo para mim. Fui eu que escolhi a Mafalda da ninhada, ensinei-lhe os primeiros comandos, vibrei ao vê-la correr em direção a mim pelos prados, a cauda a abanar cheia de alegria. Acompanhava-me nas caçadas, regressávamos lado a lado para casa, e lá dormia sempre encostada à porta do meu quarto. Era o meu orgulho.

Com o tempo, as coisas mudaram. Percebi que havia dinheiro a fazer com os cachorrinhos da Mafalda. No início, pareceu-me inofensivo, mas comecei a forçá-la a ter ninhadas uma atrás da outra. Mafalda foi ficando magra, exausta, passava os dias deitada num canto a respirar com dificuldade. O veterinário de Monforte foi claro: mais uma cria e ela não aguentava.

Essas palavras irritaram-me. Em vez de repensar as minhas ações, fiquei aborrecido. Mafalda já não era motivo de alegria era só mais um problema para resolver, e esses sempre tratei deles à minha maneira, rápida.

Numa manhã, levei-a para a floresta de Caramulo. Não disse uma palavra enquanto caminhava. Ela achava que era só mais um passeio, brincava, vinha cheirá-me a mão. Quando parei, prendi-a a um carvalho com uma corda velha e fui-me embora sem olhar para trás. Mafalda pensou primeiro que seria um jogo. Depois esperou sentada, depois puxou pela corda e, mais tarde, começou a ganir.

Quando anoiteceu, uivava já de dor e medo. Afligia-se tanto que a corda quase lhe marcava o pescoço. O frio ia caindo entre as folhas, o silêncio era cortado só pelo ranger dos ramos ao vento. Ninguém apareceu.

Já quase sem luz, dos confins do mato, surgiu um grande lobo ibérico. Andava devagar, vigiando cada passo. Parou a poucos metros, analisou Mafalda em silêncio. Não rosnou, não atacou só a olhou de olhos serenos e fundos.

Mafalda congelou. Estava pronta para tudo, menos para a indiferença. Naquela noite, o lobo fez algo estranho: cheirou o ar, avaliou a corda, inspecionou o chão. Depois, com um suspiro, deitou-se ali perto, de olhos postos nela.

A noite seguiu. O bosque escureceu, os animais rondavam. Raposas e javalis atraídos pelo cheiro da fragilidade aproximavam-se, mas cada vez que tentavam chegar, o lobo punha-se de pé, interpunha-se entre eles e a Mafalda, e um baixo rosnar bastava para os afastar.

Nunca a tocou. Não se aproximou mais do que o necessário. Ficou ali, toda a noite, em silêncio vigilante, até Mafalda já não uivar, apenas olhar, verificando se o seu guardião lá continuava. O lobo esteve sempre presente.

Ao amanhecer, uns homens do campo entraram no bosque. Vinham à procura de rastos e ouviram o gemido fraco. Aproximaram-se e viram a cena: a cadela presa à árvore e, à sua frente, o lobo, firme como um sentinela.

Os homens ficaram pasmados. O lobo olhou-os sem medo, sereno, e depois recuou calmamente, perdendo-se entre os pinheiros.

Soltaram a Mafalda. Sobreviveu porque essa noite, um predador escolheu não agir como se esperava.

Aprendi ali, entre carvalhos e musgos, que às vezes até os mais selvagens mostram mais nobreza do que nós, que nos dizemos civilizados.

Nunca hei-de esquecer essa lição.

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Homem leva o seu cão à Mata de Sintra, amarra-o a uma árvore para se livrar dele, mas ninguém poderia imaginar o que um lobo faria ao cão