Hoje fazem exatamente três anos que estas notas estão no porta-luvas do meu carro. Mil euros que nunca irei gastar.

Hoje faz exatamente três anos que aquelas notas de mil euros continuam guardadas no meu porta-luvas. Dinheiro que nunca irei gastar.

Naquela noite também era 14 de fevereiro. Lisboa parecia febril de corações de feltro, ramos de rosas e peluches cor-de-rosa amontoados, com as floristas a transbordar de gente apressada. Eu era taxista nessa altura e observava tudo pela janela: casais radiantes, gargalhadas, beijos apressados. A rua ecoava como num estranho festival de ruído e luz.

Já perto das oito, quando o delírio começava a abrandar, recebi um novo pedido. Contrastando com os jovens de braços cheios de flores, surgiu aquele homem, discreto: cabelo grisalho, um velho casaco castanho bem passado, só a segurar uma pequena mala e um guarda-chuva fechado, porque não chovia.

Entrou silencioso no banco de trás. Trazia consigo um cheiro calmo, feito de livros antigos e sabonete.
Filho começou, num sussurro quente preciso de visitar quatro lugares. Vai levar algum tempo. Pago-te já. Faz isso por mim, por favor, não tenhas pressa.
Estendeu-me mil euros. Hesitei, tentei dizer que era demasiado, mas abanou a cabeça devagar:
Por favor. O importante é poder ir devagar.

Seguimos viagem.

O primeiro destino era um prédio velho de tijolo, entalado numa rua das Avenidas Novas. Não saiu do carro. Apenas baixou o vidro e ficou ali, dez minutos, a olhar para as janelas do segundo andar. No reflexo dos grupos barulhentos de namorados e flores, ele parecia uma estátua de pedra.

Aqui nasceram as minhas filhas disse, baixinho. Agora vivem longe, têm as suas vidas. Mas, para mim, nestas janelas ainda brilha a luz da juventude.

A segunda paragem foi uma escola secundária, escura e vazia àquela hora. Desceu calmamente, caminhou até ao portão e pousou a mão na grade fria. Soube então que fora professor de física ali por quase meio século.

Todos os fevereiros, os alunos traziam-me bilhetinhos sorriu, entrando de novo no carro. Hoje vim só agradecer a estas paredes por me terem dado um sentido para viver.

A terceira paragem cortou-me o peito. Uma pastelaria pequenina no Chiado, onde, a cada mesa, estavam pares enamorados. Ele entrou sozinho e pediu dois galões com canela. Bebeu um, o outro ficou frente a um lugar vazio. Ficou ali sentado, a olhar o nada, pelo tempo que dura uma quinzena de silêncios.

Quando voltou, explicou em voz tremida:
Faz hoje três anos que partiu a Beatriz. Sempre celebrávamos este dia aqui. Dizia-me que o amor não era rosas. Era ter alguém com quem partilhar os silêncios.

A última morada era Santa Apolónia. Mudava-se para junto da família, porque o corpo já não lhe permitia a solidão. Ao sair, percebi porque escolhera este dia: queria despedir-se do seu mundo no mesmo instante em que o resto da cidade brindava ao futuro.

Na plataforma, apertou-me a mão:
Obrigado por não fazeres perguntas desnecessárias. Hoje todos só reparam nos apaixonados. Ninguém repara nos que partem sós. Obrigado por me teres visto.
Foi-se para o comboio e eu fiquei ainda uma hora sem coragem de ligar a ignição. Olhava para aqueles mil euros e sentia, nas mãos, não dinheiro, mas a confiança de quem me confiou o seu último serão lisboeta.

Os anos passaram, a vida deu voltas. Mas, todos os 14 de fevereiro, lembro-me daquele professor. No meio da azáfama e das flores, perscruto os que amam em silêncio, que curam feridas calados.

Porque amor verdadeiro não é só mãos dadas no agora. É memória através dos anos, das distâncias e até da partida.

Sejam um pouco mais atentos hoje com os desconhecidos. Talvez a vossa presença silenciosa seja a última luz em alguma janela.

Por que escrevo isto esta noite?
Porque todos andamos em corrida. Nos passageiros, nos transeuntes, nos vizinhos, vemos só aquilo que fazem. Por trás de cada um deles, mora um universo inteiro.

Agora conduzo de maneira diferente. Olho nos olhos. Escuto. Porque nunca se sabe que viagem é essa. Pode ser a mais importante de toda a vida.

Sejam aqueles que param. Que escutam. Que não deixam de ser humanos, até ao fim.

O mundo não se sustém com dinheiro, mas nestes pequenos diálogos indecifráveis ao cair da noite.

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Hoje fazem exatamente três anos que estas notas estão no porta-luvas do meu carro. Mil euros que nunca irei gastar.