Helena passou o dia inteiro à volta do fogão. Tocou a campainha. Os familiares do Tó Zé chegaram e sentaram-se à mesa.

Leonor passou o dia inteiro na cozinha. Tocaram à campainha. Os familiares do António tinham chegado, sentaram-se em volta da mesa.

Então, mas onde está a carne? perguntou a tia.

Ali está o pato recheado, respondeu Leonor, disfarçando o desconforto.

A tia levantou-se da mesa de propósito:

Isso é impossível de comer. Vamos embora, para casa.

António ergueu-se logo atrás da tia:

És mesmo Vive sozinha se não sabes cozinhar!

E começou imediatamente a juntar as suas coisas no saco.

Alô, Célia? Sou eu, Leonor. O quê? Digo, é a Leonor a ligar. A ligação está mesmo má. Porque ligo? Célia, este ano não vou poder ir a vossa casa. Estou a dizer, não vou passar aí o Natal. Porquê? Para quê, também? Tu vais lá estar com o Victor, a tua filha com o marido e os miúdos, e eu? Vou encher-me de saladas e depois pagar uma fortuna de táxi a dobrar? E sabes que não consigo dormir em casa alheia, bem sabes.

O que é que vou fazer? Nada, vou deitar-me cedo e pronto, Leonor suspirou entre os ruídos da chamada. Desde o divórcio, eram já cinco anos a passar o réveillon com a amiga de infância.

O quê? Também pensavas ligar-me? Vão viajar? Para onde? Ah, para Lisboa, vai tudo a casa da tia do Victor. Boa viagem e animem-se. Problema? Qual? Quem vem? Sandra? Que Sandra? Ah, sobrinha alô? Que raio de ligação. Queres que lhe dê guarida uns dias? Sabes bem que não gosto de desconhecidos cá em casa! Mas pronto Está bem, fica descansada, ela pode vir. O quê, outra vez a ligação cortada? disse Leonor com irritação, pousando o telefone.

Ficou ali sentada a pensar. Se calhar até era melhor não passar as festas sozinha. Ao menos tinha companhia. Lá foi tratar de preparar uma salada. A ela chegava-lhe uma sandes, mas tinha de dar as boas-vindas à hóspede. Pôs legumes ao lume, preparou as ervas aromáticas, e deixou-se levar pelos pensamentos.

Antes, enquanto era casada com o António, não havia tempo para estas pausas. Logo no dia 30 começava a chegar toda a família dele do Alentejo. E era um pandemónio. A cozinha transformava-se. Vapor, calor; nem janela aberta valia. Preparava-se cozido, assavam-se bolos de carne, fritavam-se croquetes. E tudo tão gorduroso. Leonor só fazia correr entre pratos: ora pôr o cozido à varanda, ora descascar legumes para as saladas. Nunca a deixavam cozinhar, não depois da fatídica vez do salpicão de abacate.

Que coisa nojenta, disse logo a tia do António, e todos assentiram.

Eles achavam tudo ótimo, dizia Leonor depois, ironizando tudo nadava em maionese a escorrer da colher. Os homens, mal sentavam, já estavam a provar o bagaceira caseiro. No dia 31, às doze badaladas, já ninguém aguentava.

No dia 2, lá iam embora, deixando a casa de pantanas, tudo comido e bebido. A Leonor calhava-lhe depois uma semana inteira a lavar, esfregar e arrumar. E enquanto isso, António prolongava as festas no campo. Voltava carrancudo, barba por fazer, irritado. Tinha ouvido sempre da família que tinha casado com uma mulher que nem para cozinhar servia. E seguia-se discussão atrás de discussão. Este homem nunca aceitava nada do que ela fazia. E ainda a acusava de lhe ter roubado o António a uma tal Vera. Ela calava, talvez a pensar que era justo. Não sabia cozinhar o que ele estava habituado em miúdo! Comidas cheias de gordura, toucinho.

Só lhe restava queixar-se à amiga de infância, Célia. Esta, farta de lamentações, arranjou um plano. Obrigou-a a ligar à família, pôs a condição: Leonor faria tudo para a passagem de ano, e só pedia que eles chegassem pouco antes. As duas passaram o dia a preparar petiscos leves, mas saborosos. Os familiares chegaram e sentaram-se.

Mas onde está a carne? questionou a tia, desiludida.

Ora aí está o pato recheado, respondeu Leonor, a tentar manter a calma.

E o puré? insistiu a tia.

Já sem paciência, a tia levantou-se: O que fizeste foi comida para porcos. Vamos embora, Fábio, leva-me para casa.

Toda a gente se levantou de repente, vestiu os casacos e lá foram, batendo a porta.

És mesmo insuportável, desabafou António, quase a ameaçar.

Esperem aí, vou já com vocês, ainda gritou a segui-los.

Não deixes de levar as tuas coisas, Leonor pôs-lhe a mala à mão.

Fica para aí sozinha, ranheta. Eu não fico sem ninguém, mas tu quero ver lançou as tralhas para o saco e saiu batendo a porta.

Quando a água começou a ferver, Leonor acordou do torpor. Ergueu a tampa da panela e ouviu a campainha. Deve ser a Sandra, pensou, e foi abrir.

Mas ficou surpreendida. Era um homem na casa dos quarenta, que sorriu abertamente:

Então, olá! Sou o Alexandre Miguel dos Santos, sobrinho do Victor. Vim de surpresa, mas eles afinal foram até Lisboa. Você é a Leonor, certo?

Ela acenou maquinalmente: Mas a Célia falou numa sobrinha…

Alexandre sorriu: Pode ter sido da ligação Sobrinho, sobrinha, naquelas chamadas nunca se entende nada.

Leonor assentiu: Pois, deve ter sido. Entre, já que está cá.

Não se preocupe, não fico muito. O meu bilhete de comboio é para amanhã ao fim do dia, não havia mais cedo. Só vos incomodo até lá.

Leonor foi até à cozinha, escorreu os legumes, pô-los a arrefecer no prato.

Alexandre, divertido, perguntou: Vai servir o ano novo só com uma saladinha?

Leonor, talvez mais ríspida do que queria, respondeu: E quer mesa cheia? Com peru e bacia de salada russa?

Ele riu-se: Deus me livre! Eu prefiro um bom peixe.

Leonor encolheu os ombros: Pois, peixe não tenho. E não sei cozinhar como deve ser.

Alexandre já se ia vestindo ao mesmo tempo que disse: Isso deixa comigo. Volto já! E antes que ela protestasse, saiu apressado e fechou a porta.

Ela não conseguiu evitar um sorriso perante aquela situação absurda. Esperava uma hóspede, apareceu um convidado diferente.

Alexandre demorou cerca de uma hora e meia. Leonor começou a ficar ansiosa, preocupado com o estranho na cidade. Mas quando a campainha tocou, correu a abrir.

Então, onde se enfiou? Já estava aflita começou ela, mas calou-se ao ver o que ele trazia. Uma pequena árvore de Natal, e vários sacos das compras.

Mas para quê?

Alexandre pôs o pinheirinho ao canto e sorriu: Que era do ano novo sem uma árvore?

Leonor inalou aquele cheiro fresco de resina e sorriu: Só faltam mesmo as tangerinas.

Alexandre piscou-lhe o olho: Pensei em tudo: tangerinas, espumante Está cá tudo! Vá, traga os sacos para a cozinha, vamos preparar o jantar.

E ali ficaram, às gargalhadas, a enfeitar o pinheiro, a cozinhar juntos. Ela, guiada por Alexandre, descascava camarões, limpava peixe, observava como ele preparava um robalo no forno.

À meia-noite, tinham a mesa posta: espumante aberto, bolhas nos copos. Quando soaram as doze badaladas, brindaram: Ao novo ano, nova sorte! e beberam tudo de uma vez. Depois continuaram a conversar.

Sabe, quando casei, o António era diferente. Mais doce, mais humano, ou talvez fosse eu que não via os defeitos Quem ama nem repara. Depois, só grosseria e críticas. Agora já chega de falar só de mim. Você, é casado? Leonor perguntou.

Alexandre suspirou: Já não. Uma história comum: eu embarcado, ela com outro. Quando chegar a Lisboa, trato do divórcio. Mas pronto, só coisas tristes. Vamos falar das traquinices de miúdos!

Lembro-me quando apostei com uns rapazes e subi a uma árvore alta, depois já não conseguia descer. Fiquei lá a chorar até o senhor Alfredo do terceiro andar me foi buscar. E castigo o resto do serão!

Eu, na escola, colei um banco ao chão no gabinete do diretor. O meu pai deu-me um grande sermão depois, os dois riram juntos.

A noite foi passada a rir e recordar disparates de infância. Até que Leonor bocejou e Alexandre disse:

Já falámos demais, vá dormir.

Com os olhos já pesados, Leonor protestou: Agora dormir? Ainda há mesa para arrumar…

Eu trato de tudo, não se preocupe! respondeu Alexandre com firmeza.

Ela acabou por ir para o quarto e adormeceu num instante.

De manhã, Alexandre foi acordá-la.

Leonor, está na hora, tenho de ir. Fecha a porta quando eu sair.

Leonor sobressaltou-se: A sério? Já é tarde? Porque não me acordou mais cedo?

Ele sorriu, afastou-lhe uma madeixa do rosto: Parecia uma criança, tão tranquila a dormir. Mas agora tenho mesmo de ir, que o comboio não espera.

Leonor acompanhou-o até à porta: Obrigada pelo serão, de verdade, disse-lhe, já a sentir o aperto da despedida.

Alexandre, hesitante, acabou por perguntar com coragem: Achas que posso voltar? Quando estiver livre, posso vir cá?

Ela sorriu imediatamente: Cla… claro, estarei à espera

Ele beijou-a, calou-lhe as palavras, e sussurrou: Então até breve.

E Leonor ficou ali, junto à porta já fechada, tocando nos lábios, sorrindo. Porque às vezes, conhecemos uma pessoa toda a vida e sai um desilusão. Outras vezes, basta uma noite para parecer uma vida inteira.

É verdade: no ano novo, ainda há milagres. Um acaso, e de repente, um novo amor e tudo pode recomeçar.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Helena passou o dia inteiro à volta do fogão. Tocou a campainha. Os familiares do Tó Zé chegaram e sentaram-se à mesa.