David era um homem de 40 anos, solteirão convicto. Uns anos atrás, era invejado por todas as mulheres em Lisboa. Quem não queria um homem daqueles? Alto, jeitoso e com a conta bancária bem composta. Agora, de tudo isso, só lhe resta mesmo a conta. Jovem já não é, o cabelo resolveu emigrar para longe da testa e a barriga resolveu instalar-se, cada vez maior, como obra pública em atraso. David, homem de autocrítica, começou a considerar pela primeira vez a ideia de casar. Mas havia um obstáculo o seu feitio era qualquer coisa: bruto, rígido, sério como um inspetor das finanças. Toda a gente sabia, e as poucas mulheres que se intrometiam eram logo avisadas pelas amigas: “Deixa o David em paz, que aquilo é castigo.” David percebeu que as hipóteses eram poucas.
Desabafou com os amigos numa tasca em Alfama e recebeu conselhos que, veja-se, acabaram por levá-lo ao altar alguns meses depois. No dia seguinte ao casamento, David achou por bem explicar à sua nova esposa como as coisas iriam funcionar ali em casa.
Vais morar no meu apartamento e devias considerar-te uma privilegiada. Exijo ordem e limpeza em cada canto, sempre! Leonor, com um sorriso daqueles que vêm no final dos telejornais, retorquiu: Não percebi, David Passo a explicar uma única vez, prosseguiu David, com aquele ar de quem pensa que está a dar o Euromilhões. Quero deixar bem claro que podes perder esta felicidade quando menos esperares. Sou exigente e vais ter de te habituar, ponto final. E não te esqueças, as toalhas estão sempre limpas e penduradas; pano molhado, nem vê-lo. O fundamental é a limpeza, está certo? Leonor acenou com a cabeça, ouvindo com atenção.
Foram à cozinha, onde David expôs detalhadamente o regulamento do lar. Sim, querido, disse ela, a que horas costumas chegar a casa? E para que precisas dessa informação? desconfiou ele. Para saber a que horas hei de preparar o jantar, respondeu ela. Pois, jantar tem de estar pronto à hora certa, sem nunca saberes exatamente quando chego. Se por acaso não gostar do que fizeste, vai tudo para o lixo e a menina será castigada.
Ouvi, amorzinho, vai correr tudo lindamente, sorriu Leonor e, de novo, aquele sorriso digno de prémio literário. David ficou a pensar naquilo o dia inteiro. Ao final da tarde, antes de voltar a casa, foi jantar à Casa da Maria, restaurante ali do bairro alto. Planeava testar a esposa: quando chegasse, atiraria logo que a comida era intragável, sem sequer provar, uma semana inteira disto.
David chega a casa. Silêncio. Está alguém em casa? Cheguei. Ah, és tu, David replicou Leonor, sem pressas estava a ver a telenovela e adormeci. O jantar está pronto? O jantar? Pois sim… vamos ver. David já se preparava para o discurso ensaiado, quando Leonor, com calma, diz: Senta-te. Pousou-lhe à frente um prato de papas de aveia frias e, sorrindo, anunciou: Pronto, já está! A papa está fria, sem sal. Se não comer tudo até ao fim, a culpa é tua. Eu? Vou à minha vida e não voltas a ver-me. Brincadeirinha, claro que voltas, mas levo companhia… Ah, e sei bem que passaste pelo restaurante, não penses que me enganas! Imagino como vai saber bem a este estômago cheio comer uma papa destas…
David ficou sem palavras. Queres perguntar por que sou tão seca e bruta contigo? Olha, vai ser assim sempre que tentares armar-te em espertinho comigo. Agora toca lá a comer tudo, rápido para acabar com o sofrimento! Leonor sabia ao que ia, já conhecia os encantos do marido. Mas fugir, nunca.
“Os homens não nascem queridos nem amorosos, são moldados sob a mão firme das esposas,” disse ela ao final. E estava certa. David engoliu a papa toda num ápice. “Finalmente encontrei a mulher que precisava. Era dela que sonhava há décadas.”







