Graças a Deus, finalmente aconteceu! – A avó respirava com dificuldade, mas o seu rosto irradiava uma felicidade genuína. Com as mãos calejadas e carinhosas, acariciou o rosto do neto antes de deixá-las repousar sobre o cobertor.

Graças a Deus! Consegui esperar! A avó respirava com dificuldade, mas o seu rosto irradiava uma felicidade sincera. Acariciando delicadamente o rosto do neto com as mãos secas, deixou-as repousar sobre o cobertor.
Descansa, avó, pediu Joaquim. Amanhã teremos o dia todo, vamos conversar até nos fartarmos.
Não, Joaquim, a avó sorriu tristemente. Só pedi a Deus uma coisa: conseguir ver-te voltar. Agora já não preciso de mais nada já te vi, abracei. Vou descansar um bocadinho, depois conversamos. Fechou os olhos, exausta. Dona Luísa, dá de comer ao rapaz deve vir com fome da viagem.
A avó estava muito debilitada e sentia que tinha pouco tempo. Joaquim era tudo o que lhe restava, assim como ela era o único apoio dele. Os pais dele tinham-se perdido num caminho de desgraça, entregando o carro, depois os móveis, as lembranças, o apartamento tudo por causa do álcool. No fim, acabaram por se perderem a si próprios. A avó conseguiu, in extremis, tirar o neto da situação, acompanhou-o na escola, incentivou-o a tirar carta de condução para automóveis ligeiros e pesados, e viu-o partir para o serviço militar. E hoje, enfim, reviu-o. Não era assim que tinha imaginado o reencontro, mas não podia escolher.
Enquanto Dona Luísa vizinha de sempre e amiga de longa data dava comida a Joaquim na cozinha, a avó, de olhos semicerrados, procurava palavras que tocassem o coração e a razão do rapaz. Mas a memória já a traía. Com a mão, acariciava a sua querida gata Mimi, que não se afastara dela nos últimos dias, sentindo a aproximação da despedida. Finalmente, chamou:
Joaquim, vem cá. Quando ele se sentou junto a ela, falou baixo: Gostava de ter tido tempo para pegar nos teus filhos ao colo, Joaquim, mas parece que não vai acontecer. Ficas sozinho. É difícil, eu sei. Se encontrares uma boa rapariga, não a deixes fugir; escolhe para a vida toda, para os tempos difíceis. Nunca são fáceis nunca foram, nunca serão. Não te deixes levar pela preguiça ou pelos prazeres fáceis. Acima de tudo, foge sempre do vinho maldito! Um entra nesse caminho, mas quem sofre é toda a família. Há muitos caminhos na vida, Joaquim, escolhe o certo.
Calou-se um pouco para tomar fôlego, ou talvez para lembrar dos pais do neto. Depois, continuou:
O apartamento já está em teu nome assim tens onde levar a futura esposa. Para o funeral já deixei de lado, Dona Luísa mostra-te onde está. O resto está na tua conta, serve para te segurares nestes primeiros tempos. Cuida da Mimi, não a deixes sozinha. É bichana sábia, de boas emoções. E tu sabes bem foste tu que a trouxeste ainda era pequenina Pronto, acho que é tudo. Vai descansar, eu também vou já não aguento mais.
Na manhã seguinte, a avó não acordou

Joaquim começou a trabalhar, recomendado por amigos, como técnico de montagem de redes de internet. A equipa era composta por seis pessoas, sempre entre cabos de fibra ótica e novas ligações. Apesar do cansaço ao final do dia, o ordenado era justo e dava-lhe satisfação o resultado do próprio trabalho.
A casa ficou-lhe silenciosa, apenas Mimi, a gata cinzenta que apanhou na rua há uns oito anos, lhe fazia companhia. Desde que a avó partira, a Mimi mergulhou numa tristeza profunda: deixou de comer, passava o dia na velha poltrona a favorita da avó olhando de olhos estáticos para a porta, como se esperasse ver a dona chegar mais uma vez. Mas ela não chegava.
Joaquim esforçava-se por animar Mimi. Conversava com ela sentado no sofá, contava-lhe sobre o dia, tentava dar-lhe os petiscos que comprava. Só passado um mês a gata pareceu reagir.
Nesse dia, recebeu o primeiro salário. Os amigos exigiram a rodada e como manda a tradição, seria um insulto negar. Joaquim convidou-os para um café, comeu, bebeu com eles. Chegou tarde a casa, um pouco alegre demais. Mimi esperava-o à porta. Custava-lhe encarar aqueles olhos grandes e verdes, atentos e compreensivos. Ele desviou o olhar, mas a gata não desistia, até que percebeu o estado dele. Miaçou baixo, triste, e escondeu-se sob o sofá.
Miminha, justificou-se Joaquim, não podia dizer que não aos amigos. Foram eles que me arranjaram o trabalho, são bons rapazes Sentia que pedia desculpa não à gata, mas à avó.
No dia seguinte, a Mimi estava novamente à porta. Percebeu que aquele dia estava tudo bem, roçou-se nas pernas dele, enrolou a cauda ao seu tornozelo, ronronando alto. Jantou com apetite, não arredou pé de junto de Joaquim e adormeceu encostada ao ombro dele.
Tu entendes tudo, sussurrava ele, passando-lhe a mão pelo pêlo. Não te preocupes, já sou crescido e posso arcar com as minhas escolhas. Só há um caso em que um adulto não responde por si e é se bebe. E eu tenho medo disso, sabes Não quero acabar como os meus pais. Se calhar, até vou mudar de trabalho; aqui, há sempre quem beba para aquecer, para esquecer o cansaço, para celebrar É toda a semana. Tento evitar, mas já olham de lado para mim. Não, tenho mesmo de procurar outra coisa, mas o quê? Sempre quis ser camionista de longo curso, mas a minha carta não chega, ninguém confia um camião grande assim logo.
Na sexta-feira seguinte, estava no café com os colegas. Era o habitual fim de semana à porta, alegria desmedida. Joaquim, como sempre, só bebia água com gás, mas os olhares dos outros já pesavam.
Quem servia à mesa era uma jovem simpática. Os colegas começaram a provocá-la, insistindo que se juntasse à mesa. O chefe da equipa pegou-lhe no braço ela assustou-se e tentou soltar-se, mas em vão. Ele já estava alterado pelo álcool e nem media a força.
Larga-a já! disse Joaquim, levantando-se.
A mesa calou-se ninguém ousava levantar a voz ao chefe. Surpreendido, ele afrouxou o aperto, a rapariga libertou-se e recuou, olhando apreensiva para Joaquim.
O conflito não avançou mais porque o patrão apareceu: um homem imponente, de avental branco e braços fortes à mostra.
Calma, rapaz pediu ao Joaquim. Deixa-os arejar lá fora, pode ser que vejam melhor as coisas. Lançou-lhe um sorriso simpático. Mas diz-me, porque te metes tu com esse grupo? Nem bebes! Para quê ter essa companhia?
É a equipa encolheu os ombros Joaquim. Trabalhamos juntos, descansamos juntos
Esquece isso, bufou o dono, apresentando-se como Manuel. Não é descanso, menos ainda entre esse tipo de amigos. Matilde, filha, faz-nos um chá à moda antiga. Assim conversamos um pouco.
Filha? perguntou Joaquim, fixando o olhar em Matilde.
Sim, dá-me uma ajuda depois das aulas. Sentaram-se juntos bebendo chá de bule de porcelana, sentindo o calor da bebida e a quietude. Joaquim, vais ter de arranjar outro trabalho. Depois de hoje, não te vão largar. E pior podem acabar por puxar-te para o copo. Tens alguma profissão?
Tirei carta antes da tropa, fiz um ano a conduzir carros. Sempre quis ser camionista, mas ninguém confia um camião desses logo a recém-chegados.
Não entras logo, concordou Manuel. Mas eu conheço quem te pode ajudar, amigos meus, verdadeiros camionistas. Até lá, ficas na minha empresa: pegas na carrinha, fazes uns transportes entre cidades e vais ganhando experiência. Depois, tiras categoria e aumentas as responsabilidades.
Aceito já! respondeu Joaquim, sorridente. Gostava de Manuel: enorme, calmo, generoso. Ainda por cima era o pai da Matilde, e só isso dava-lhe grande apreço. Vendo o interesse nos olhos de Joaquim, Manuel chamou a filha:
Matilde, acaba o chá. Obrigado por ajudares. Vai para casa, Joaquim acompanha-te. E sorriu perante o rubor feliz nos rostos dos dois jovens.

***
Cinco anos depois, Joaquim conduzia um camião, enfrentando a estrada fria do inverno.
Faltavam uns trinta quilómetros para chegar à cidade onde viviam a mulher, Matilde, a filha Inês, e a veterana Mimi, agora mascote da família. Parou para um homem tremendo à beira da estrada, que apenas vestia um blusão leve para aquele frio.
“Coitado, ainda apanha uma pneumonia”, pensou Joaquim, parando para o dar boleia.
Chefe da equipa? reconheceu logo que o viu sentar-se.
Com um olhar perdido e baço, ele respondeu:
És tu calou-se por instantes. Fui chefe, mas acabou tudo. Já não há equipa, tomaram outros o nosso lugar. Só restam metade um morreu de frio, outro caiu bêbado ao rio, um terceiro envenenou-se a tentar substituir vinho por detergente. O resto anda por aí, a fazer biscates Tirou do bolso uma garrafa de álcool barato e bebeu um gole. Há-de correr melhor, não há-de?
Joaquim deixou-o perto da avenida principal, olhando-o com tristeza e lembrando-se da arrogância antiga do chefe.
Ao aproximar-se do prédio, reparou que a luz da cozinha estava acesa. Matilde ainda esperava por ele. Talvez Dona Luísa tivesse passado para conversar e brincar um pouco com Inês Mas não, a pequena dormia no quarto, sobre ela uma foto da bisavó. Inês gostava de conversar com a imagem, contar-lhe os segredos e preocupações da escola. Não faz mal que a avó já não responda o olhar simpático e o sorriso bondoso estão sempre lá. E a Mimi, sentada à janela, fitava a noite. Logo ao ver Joaquim, desceu do parapeito e correu ao encontro do dono.
Não estou sozinho, avó, murmurou Joaquim, sorrindo para a janela iluminada do lar. Está tudo em casa, todos juntos, e tu, connosco. Este é o meu caminho.

A vida ensinou a Joaquim que o amor seja de família, seja de amigos verdadeiros ou de um animal fiel vale mais do que qualquer festa passageira ou companhia forçada. Só quem sabe valorizar o que importa encontra, afinal, o seu lugar no mundo.

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Graças a Deus, finalmente aconteceu! – A avó respirava com dificuldade, mas o seu rosto irradiava uma felicidade genuína. Com as mãos calejadas e carinhosas, acariciou o rosto do neto antes de deixá-las repousar sobre o cobertor.