Graças a Deus! Finalmente! a voz da minha avó saiu entrecortada, mas o rosto dela irradiava uma alegria genuína. Passou as mãos secas com carinho pela minha face e depois pousou-as sobre o cobertor.
Avó, descansa um pouco pedi. Amanhã temos o dia todo pela frente para conversarmos.
Não, Rui retrucou, com um sorriso triste. Só pedi uma coisa a Deus: esperar por ti. Agora já vi, já abracei. Não preciso de mais nada. Vou repousar um pouco, depois falamos mais. Fechou os olhos, cansada. Dona Filomena, dê de comer ao rapaz, veio de longe…
A minha avó estava muito debilitada. Tinha consciência de que o tempo escasseava. Entre nós, éramos a única família um do outro. Os meus pais tinham-se perdido há muito tempo, gastando tudo com o vício: primeiro os objetos de valor, depois os móveis, a casa… Por fim, deram-se a si mesmos. Foi a avó quem me salvou daquela vida, inscreveu-me na escola, convenceu-me a tirar a carta de ligeiros e pesados, e despediu-se de mim para eu servir o exército. Hoje, reencontrou-me. Não era assim que ela sonhara este momento, mas ao menos ainda teve tempo de me abraçar.
Enquanto Dona Filomena vizinha e amiga de há muitos anos me servia qualquer coisa na cozinha, a minha avó tentava encadear os pensamentos, procurando as palavras certas, sentindo a memória a oscilar. Fazia festas na minha gata, a Miúda, que pressentira a desgraça e não arredava pé da sua dona havia dias. Por fim, chamou-me:
Rui, vem cá. Sentei-me ao lado dela, e em voz baixa, confidenciou: Gostava de ter pegado nos teus filhos ao colo, mas parece que não vai calhar. Vais ficar sozinho, Rui. E é difícil estar só. Se aparecer uma rapariga de bom coração, não a deixes fugir escolhe-a para a vida. A vida nunca é fácil, em tempo nenhum. Foge da vadiagem e das bebedeiras, isso é que te pode perder! Basta um ceder ao álcool e sofre toda a família. O caminho são muitos, Rui, mas escolhe sempre o certo. Calou-se um instante, talvez perdida em recordações dos meus pais. Depois continuou: Passei a casa para teu nome quando casares, terás onde morar. Para o funeral já deixei de lado e a Dona Filomena sabe onde está o dinheiro. O resto transferi para a tua conta, ao menos tens para te orientares nos primeiros tempos. Cuida bem da Miúda, não a deixes desamparada. Ela é esperta e meiga, tu sabes foste tu que a trouxeste para casa, em pequenina… Pronto, acho que é tudo. Vai descansar, eu também vou…
Na manhã seguinte, a minha avó não acordou.
Fui trabalhar como instalador de redes de Internet, com recomendação de amigos. Éramos seis na equipa, a passar fibra óptica e a ligar novos clientes. Algumas vezes acabava o dia exausto, mas o ordenado em euros era bem recompensador, e dava satisfação sentir que fazia um bom trabalho.
Em casa, esperava-me a Miúda, a gata cinzenta de olhos brilhantes que recolhera há uns oito anos. Com a morte da avó, ficou entristecida, deixou de comer, passando os dias na velha poltrona predileta da minha avó, a olhar imóvel na direção da porta, como se esperasse o regresso da dona. Mas essa não voltaria.
Tentava animar a Miúda, falava-lhe baixinho, sentava-a no colo, descrevia o meu dia, tentava oferecer-lhe as melhores iguarias. Só ao fim de um mês respondeu de alguma forma.
Nesse dia, recebi o meu primeiro ordenado. Os colegas exigiram-me o tradicional pagode era impensável não o fazer. Convidei-os para um café, paguei-lhes bons petiscos e também fui servido. Cheguei a casa já tarde, sorridente após os copos. Miúda veio receber-me à porta. Não tive coragem de lhe encarar os olhos verdes e perscrutadores. Ela fitou-me, e como quem percebe o que se passa, soltou um miado triste, escondendo-se em seguida debaixo do sofá.
Miúda tentei desculpar-me , não podia dizer não aos amigos; foram eles que me arranjaram o emprego, e no fundo ainda são companheiros… Mas sentia que me estava a justificar não à gata, mas sim à minha avó.
No dia seguinte, Miúda voltou a esperar-me à porta. Percebendo que estava sóbrio, encheu-se de alegria, roçou-se pelas minhas pernas, ronronou, dormiu à minha beira, fiel como sempre.
Tu percebes tudo… sussurei, afagando a sua pelagem. Mas não te preocupes. Já sou adulto, sei o que faço. Os adultos só perdem o rumo por causa do álcool. E eu… eu temo esse mal, é a herança que me ficou… Acho que vou mesmo mudar de emprego saiu aquele grupo, é quase impossível escapar ao vinho. Há sempre motivos: para aquecer, festejar, esquecer a fadiga, celebrar o que for. Sexta-feira, dia do copo. Contorno como posso mas já começam a olhar-me de lado. Não, está decidido, tenho de procurar outra coisa. Sempre quis ser camionista, mas a minha carta não chega para camioneta de longo curso. Quem me daria tal responsabilidade?
Numa sexta-feira, como era hábito, estava com o grupo no café, todos já meio animados. Eu, de água com gás, olhava os outros, agitados pelas cervejas.
Atendia-nos uma rapariga nova, sorridente. Os amigos não deram tréguas, a chamar a rapariga à mesa, até que o chefe de equipa, meio bêbado, a agarrou pelo pulso. A jovem tentou libertar-se, mas em vão.
Larga-a! levantei-me. O burburinho parou ninguém afrontava o chefe! Surpreendido, ele afrouxou o aperto e a rapariga escapou. Afastou-se a medo, olhando-me com gratidão e inquietação.
O dono do café um homem robusto, de avental branco aproximou-se, e o grupo calou-se. Com olhar de poucos amigos, indicou-lhes que era melhor saírem.
Espera aí, rapaz travou-me o senhor, quando me preparava para sair. Deixa-os lá ir, ver se aprendem. Olhou-me simpaticamente. Para quê aquele grupo? Bem vi, tu nem bebes. Para que te metes com eles?
É a equipa… dei de ombros. Trabalhamos juntos, convivemos juntos.
Deixa isso, não te vai trazer nada de bom. Apresentou-se: Manuel. E tu, Leonor, faz-nos um chá, como só tu sabes, filha. Aproveito e descanso antes do movimento.
Filha? fiquei a vê-la.
Sim, ajuda-me quando sai das aulas. Tomámos chá juntos, daquele aromático, de bule de porcelana. Olha, vais ter que mudar de emprego aconselhou-me Manuel , depois desta, vão-te fazer a vida negra ou, pior, puxar-te para o copo. Tens habilitações?
Tirei a carta de pesados antes do exército, até conduzi no serviço, agora gostava de ser camionista internacional. Mas quem me pega?
Não é fácil, claro. Concordou ele. Mas conheço bons amigos na estrada. Para já, fico com o teu número: começo-te por pôr a conduzir na minha carrinha, fazer uns transportes entre cidades. Mostras serviço, e logo se vê para o pesado, mas antes vais ter de tirar mais uma categoria.
Combinado! Sorri. O senhor Manuel conquistava. Calmo, grande coração, e ainda por cima o pai da Leonor.
Notando os meus olhos nela, esclareceu:
Leonor, despacha-te, obrigada por ajudares, e Rui leva-te a casa. Apanhou-se a sorrir, encantado por nos ver corados.
***
Cinco anos passaram. Eu guiava um camião de longo curso numa estrada gelada.
Faltavam uns trinta quilómetros para chegar à cidade onde me esperavam Leonor, a nossa filha Mariana e a fiel Miúda, já velhota. Na berma, vi uma figura solitária, de casaco fino para aquele frio.
Vai congelar, pensei, e travei para dar boleia.
Mário? reconheci, mal se sentou ao meu lado. Era o antigo chefe de equipa.
Olhou-me com o ar vidrado de quem andava à bebida.
És tu… Fui chefe, pois fui. Já não há equipa, agora há outros, do nosso grupo restam poucos. Um morreu de frio, outro afogou-se à conta do álcool, outro envenenou-se com detergente, o resto anda por biscates, como eu… Tirou da algibeira uma garrafa suspeita, bebeu um trago, abanou a cabeça. Há que aguentar!
Deixei-o perto da avenida principal, fiquei a observá-lo afastar-se, uma pena no olhar. Recordei aquela valentia triste de quem tudo perdeu…
Ao aproximar-me de casa, reparei na luz da cozinha acesa a Leonor, sempre à minha espera. Talvez Dona Filomena viesse visitar, conversar, brincar com a Mariana. Não, decerto Mariana já dorme, debaixo do retrato da bisavó. Gosta de contar tudo à avó da fotografia: coisas do infantário, sonhos e zangas de criança. Não faz mal que não responda importa é que há olhos bons e sorriso terno na imagem.
E a Miúda, sentada à janela, perscruta a rua escura. Ao avistar-me, ergue-se, o rabo espetado, desaparecendo na pressa de vir receber-me à porta.
Não estou sozinho, avó murmuro, sorrindo para as janelas iluminadas do nosso apartamento. Estamos todos, e tu também, connosco. Esta é a minha estrada.






